Prémio Johan Carballeira: Veto ortográfico da Editora Xerais provoca demissão no júri

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A Xerais, uma das grandes editoras galegas do mercado, provocou a demissão como membro do júri do último autor premiado devido ao seu veto à liberdade ortográfica . Ortografia comum ao português passaria assim a estar interdita às novas obras concorrentes.

Redação |

É tradição que os escritores galardoados com o prémio Johan Carballeira, na vila de Bueu, passem a integrar o júri da edição seguinte. Não será assim desta vez, pois o escritor Eugénio Outeiro, último vencedor do certame, acaba de apresentar a sua renúncia irrevogável como membro do júri na XXIX edição do Prémio. A decisão surge depois de a organização do certame ter retirado do regulamento a cláusula que permitia explicitamente a apresentação de obras na norma reintegrada do galego1, como a utilizada pelo próprio escritor. Por outras palavras, foram proibidas as obras com uma ortografia próxima da portuguesa.

O diferendo teve início após uma recente renegociação entre a Câmara Municipal de Bueu, promotora do concurso, e a editora Xerais. Fruto desse acordo, a organização eliminou das bases a linha que viabilizava a entrega de originais sob qualquer uma das ortografias em uso na Galiza. O município justificou a alteração com o objetivo de “manter a linha de coerência do catálogo da editorial”.

Para Outeiro, esta mudança traduz-se numa “recusa a aceitar obras em reintegrado” como a que ele próprio apresentou e constitui uma “discriminação gratuita e sem sentido” no âmbito da criação literária. A ligação do autor ao prémio é estreita. Na edição anterior, Outeiro sagrou-se vencedor do certame com o livro Réquiem, uma obra com o pano de fundo da repressão franquista, escrita segundo a norma reintegrada e que foi muito elogiada pela sua qualidade. Foi na condição de último vencedor que, seguindo a tradição do concurso, recebeu o convite para integrar o comité de avaliação da edição seguinte.

No entanto, perante o novo cenário restritivo, o poeta considerou incompatível manter-se no cargo. “Iria contra as minhas convicções mais básicas fazer parte de um júri no qual teria de discriminar as obras por uma questão de norma“, sublinhou no seu comunicado. “Sinto-me, como digo, imensamente triste. Não só tinha uma grande vontade de participar no júri(..) É também esta sensação de que se fecharam portas a outras pessoas por causa da minha participação.” afirmou o autor galardoado.

No texto em que formaliza a sua saída, Eugénio Outeiro recorre à própria personagem histórica para apontar o que considera ser uma contradição na gestão do prémio. O escritor recorda que o político e poeta que dá nome ao galardão defendia, já em 1932, “a unificação da língua sobre bases etimológicas“.

Outeiro conclui que, com o regulamento atual, até o próprio Johan Carballeira seria hoje impedido de concorrer ao prémio literário que atualmente ostenta o seu nome. A renúncia já foi oficialmente apresentada pelo escritor, abrindo agora uma incógnita sobre a recomposição do júri e sobre o impacto que esta decisão terá no certame poético de Bueu.

Johan Carballeira foi um poeta, jornalista e político galeguista2 que exerceu o cargo de presidente da Câmara Municipal de Bueu. Em dezembro de 1936, durante a guerra civil da Espanha, foi condenado à pena de morte por um tribunal militar franquista devido à sua defesa da cultura galega e dos valores democráticos. O seu fuzilamento ocorreu a 17 de abril de 1937 na cidade de Ponte Vedra, tendo o seu corpo sido sepultado numa vala comum no cemitério local de Santo Amaro.

Uma editora muito presente nos manuais escolares

A Xerais é uma empresa profundamente beneficiada pelo fundo de manuais escolares do governo utilizados nas salas de aulas, promovendo exclusivamente a escrita de obras segundo as regras escolares do galego. Filial do Grupo Anaya, estima-se que 120.000 a 150.000 livros dos 564.000 que constituem o banco do Fundo Solidário pertençam originalmente ao selo editorial da Xerais.

Somado a esta cifra, a Xerais deteria mais de 50% do total de livros de leitura escolar obrigatória em galego —aproximadamente 200.000 exemplares. Se além das leituras e manuais escolares curriculares fossem adicionadas as licenças digitais associadas (programa E-Dixgal), num único ano letivo o sistema educativo galego consumiria globalmente mais de meio milhão de produtos com a chancela da Editorial Xerais.

Autores que arriscaram o seu reconhecimento social em defesa da liberdade criativa

O número de autores que arriscam ficar de fora dos circuitos oficiais de promoção literária pela sua escolha ortográfica —virada para o português— tem vindo a crescer, somando diferentes prémios por toda a geografia, num processo demorado em que barreiras invisíveis na literatura galega parecem ir sendo derrubadas aos poucos. Assim o Premio Follas Novas de Compostela, entregou o galardão a Susana Arins pelas narrativas “Cinco Corujas” em 2024 e o seu livro “Seique” foi prémio da Gala do Livro Galego em 2020, ambos em galego reintegrado. Uma outra autora de renome, Teresa Moure, recebeu em 2017 o prémio Manuel Murguia de Arteijo pela sua obra “A semântica oculta de Mrs. Hockett“. Teresa Moure destacou-se em décadas passadas ao expor publicamente as barreiras a que foi sujeita a sua obra por ter escolhido uma ortografia “dissidente” e liderando um manifesto pelo “fim do apartheid” a quem escreve na norma reintregrada, O manifesto foi apoiado por mais de mil pessoas do mundo da cultura.

Já o conhecido escritor Carlos Quiroga venceu o prémio Vicente Risco com a obra intitulada “A costela galega de Eça de Queirós” em 2021 ou o Prémio Carvalho Calero de Ferrol com “Inxalá” em 2005 —incluído posteriormente pelo Diário de Notícias numa coleção de clássicos literários universais—.

O Carvalho Calero de Ferrol (na modalidade investigação ou narrativa) é outro dos galardões que permitiu logo do início a liberdade criativa aos autores. Em 1993 premiou a narrativa de Henrique Dacosta pela sua obra “Sobre comboios, janelas e outras pequenas histórias” e em 2014 premiou Isaac Lourido pelo seu “História literária e conflito cultural. Bases para uma história sistémica da literatura na Galiza“. Em 2025 premiou Francesco Martín Traficante Peláez por “O galego língua nacional… ou língua autonómica“.

Ainda, alguns autores galegos competiram diretamente em espaços fora da Galiza , com destaque para o escritor Mário Herrero, vencedor do Glória de Santanna de Ovar em 2019 pela obra Da Vida Conclusa.

No geral, os prémios que abrem o seu espaço à aceitação da norma reintegrada , como no ano passado fez o Johan Carballeira, costumam referir que aceitam obras “em qualquer das normas da língua galega“. Já o Prémio de Poesia Cidade de Ourense ao permitir a candidatura de obras “em galego ou português” terá sido pioneiro desde o seu nascimento em 1979.

Retrocesso de 40 anos?

A recente decisão do Concelho de Bueu ao ceder à pressão da editora, vem levantar o fantasma de velhas proibições surgidas na década de 80 que pareciam estar a ser ultrapassadas socialmente. A autarquia de Bueu enfrenta agora o desafio de recompor o júri sob críticas abertas de censura linguística, enquanto o impacto reputacional do caso parece continuar a crescer.

O autor que dá nome ao prémio, Johan Carballeira, e o último galardoado Eugénio Outeiro mereciam talvez um outro modelo de homenagem e difusão da sua obra bem diferente.

  1. Na escrita da língua da Galiza convivem dois usos gráficos: um com base na ortografia do castelhano e outro com base na ortografia comum do português. Apesar de o Diário Oficial da Galiza ser disponibilizado em galego, português e castelhano, a escolha ortográfica próxima ao português continua a gerar discriminações no mundo literário e cultural. ↩︎
  2. O Partido Galeguista, uma organização republicana reunia pessoas de todo o arco político, defensores duma maior soberania e autonomia política ↩︎
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