A Rua das Pessoas Bonitas

   Tempo de leitura: 3 minutos

Hoje vi pessoas bonitas, na rua.
As pessoas bonitas sonham. Ainda sonham. Ainda há ruas cheias de pessoas bonitas porque ainda há quem resista, insista na ideia de uma cidade que possa dormir.
Só a possibilidade do sono é condição do sonho.

A cidade acordada, a cidade vigilante e receosa do outro, a cidade que desconfia, que odeia, que compete pelo prémio de desempenho, a cidade do medo do futuro, da insegurança no presente, a cidade onde todo o chão é precário, é uma cidade que está a sabotar-nos o sonho. É uma cidade que, se o deixarmos, nos torna feios, sós, tensos, presos, carrancudos, tristes. Se não sonhamos, a cidade transforma-nos, a nós mesmos, no pesadelo. Vivemos para sobreviver, na permanente prontidão da obediência.

As pessoas bonitas são as que resistem a esta cidade que nos bebe de um só trago, que nos quer imparáveis, a fazer corrida pensando que fazemos carreira, que nos torna hiperactivos, frenéticos, cansados, entorpecidos, fantasmas sonâmbulos, e habitantes da noite espectral.

Pois, eu tenho visto pessoas bonitas, e é sobre elas que me apetece escrever.
Há dias, regressei à casa do jornalismo.

Nunca regressaria se fosse para fazer o que está feito. Para fazer o que já de pouco serve, muito menos para fazer o que, de jornalismo, pouco tem. Pois, saibam que a minha casa do jornalismo fica na Rua das Pessoas Bonitas, e é, por isso, um acto de resistência com um rigoroso manifesto político: nesta Rua, o jornalismo faz-se em nome do Direito Humano ao Sonho.

José Adelino Castro Carneiro também não tem feito outra coisa na vida, senão sonhar. Por isso, foi com ele que fiz questão de voltar à minha casa. Há 52 anos, ele, o então Capitão Castro Carneiro ajudou-nos a fazer a mais bonita Revolução que este país já viu. Um sonho que nos acordou do pesadelo. Militar, gosta de dizer, de gracejo, que o que mais queria era que o país que ele sonhou, o conseguisse Civilizar. Castro Carneiro foi, no Porto, o principal operacional do golpe militar que um povo bonito, de civis civilizados, transformou em Revolução. O que é notável nele é a intocável generosidade com que, ainda hoje, nos oferece a Revolução que ajudou a fazer. Nunca a quis para ele. E é por isso que tão pouco dele sabemos.

A entrevista1 que lhe fiz, no meu regresso a casa, nestes dias em que tenho andado a viver na Rua das Pessoas Bonitas, é um sorriso do princípio ao fim.

É a minha forma de vos convidar a conhecer o De Norte a Sul. O sítio em cuja morada, na Rua das Pessoas Bonitas, iremos tentar construir uma casa com tijolos assim:

“(…) Vivemos tempos de confusão entre jornalismo e empresas de comunicação, entre informação e propaganda, tempos em que a velocidade atropela a veracidade e o clique substitui a reflexão. O nosso quer ser um jornalismo de lume brando, com a bússola da ética como prática2 (…)”

  1. A Entrevista | Castro Carneiro – 24 de abril 2026 ↩︎
  2. O fôlego da liberdade”, editorial de lançamento ↩︎
Share