Estudo de 2024 indicou que 52% das pessoas não consideravam a tourada uma tradição valiosa no país, enquanto apenas 20% tinham a opinião oposta. 55% consideraram que as touradas não deviam ter lugar. Quanto à distribuição de eventos taurinos, concentram-se no Alentejo (56%), Lisboa (20,41%) e Centro (19,73%) registando o Norte apenas 4,08% do total.
Redação |
A inscrição das touradas no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial já está em consulta pública. O processo, anunciado em Diário da República no passado dia 2 de outubro, terá a duração de 30 dias, cabendo ao instituto Património Cultural tomar uma decisão final no prazo de 120 dias após a sua conclusão.
O arranque da consulta pública surge mais de cinco anos após o início do processo, impulsionado pela Associação de Tertúlias Tauromáquicas de Portugal. O pedido original remontava a anos anteriores e, em 2022, tinha levado a então Direção-Geral do Património Cultural a solicitar o seu aperfeiçoamento.
A Associação de Tertúlias Tauromáquicas de Portugal — entidade que agrega 17 associações taurinas no seu site — sustenta que a tauromaquia representa valores como “humanismo, verdade, coragem, solidariedade, alegria, amor à vida e respeito pela morte”, afirmando que “vários milhões de portugueses” se identificam com esta tradição. A associação justifica o pedido com a necessidade de “valorizar e salvaguardar” a cultura tauromáquica contra aquilo que classifica como “ataques cobardes, descabidos, mentirosos e falaciosos” que visam a sua proibição.
Paralelamente, as organizações de defesa do bem-estar animal continuam a intervir na esfera legislativa. A ANIMAL lançou pela terceira vez, em 2024, a Iniciativa Legislativa Cidadã “Fim dos Dinheiros Públicos à Tauromaquia”. Trata-se de uma ação de continuidade em relação a duas iniciativas anteriores, discutidas no Parlamento entre 2016 e 2018, que reuniram em conjunto cerca de 60 mil assinaturas.
Por sua vez, a Plataforma Basta de Touradas, já contestou em 2017 a proposta, denunciando o facto de o projeto ter sido financiado com dinheiro proveniente do Orçamento Participativo do Estado.
O caso foi alvo de verificação pelo Polígrafo, o jornal de fact-checking do grupo SAPO / Altice Portugal. O jornal confirmou a veracidade das informações, assinalando que o projeto foi aprovado como um dos mais votados e contou com o apoio da Prótoiro – Federação Nacional de Tauromaquia. A iniciativa recebeu a verba pública de 200 mil euros, destinada ao financiamento de um processo de inventariação e classificação dos elementos da cultura tauromáquica.
Evolução temporal e distribuição geográfica
Segundo o Relatório da Atividade Tauromáquica de 2025, publicado pela Inspeção-Geral das Atividades Culturais, o número de eventos no ano passado dá continuidade a uma tendência de quebra. O documento evidencia um declínio ao longo de uma década.
De acordo com o Relatório, em 2025, foram autorizados 167 eventos e concretizados 147, com atividade em 63 concelhos. As corridas de toiros continuam a representar a maioria das realizações, com 119 eventos (80,95% do total), seguidas pelas corridas mistas, que somaram 10 realizações (6,81%), e pelos festivais taurinos, com 9 (6,12%). O panorama completa-se com 7 novilhadas populares (4,76%), 1 sessão de variedades taurinas (0,68%) e 1 novilhada (0,68%).
Em termos geográficos, a distribuição concentra-se na região do Alentejo, que lidera a tabela com 82 eventos (56%). Seguem-se a região de Lisboa, com 30 (20,41%),o Centro, com 29 (19,73%), enquanto o Norte regista apenas 6, equivalente a 4,08%.
Opinião pública sobre a tauromaquia
Segundo um inquérito de opinião conduzido pela empresa Ipsos I&O, entre 20 de março e 3 de abril de 2024, junto de uma amostra representativa de 2.500 indivíduos com 18 ou mais anos residentes em Portugal, mais de metade dos inquiridos rejeita a ideia de que a tauromaquia seja uma tradição valiosa no país.
No que respeita à apreciação do valor cultural e social, os resultados detalhados revelam que a oposição é o sentimento dominante na sociedade portuguesa, com 34% dos inquiridos a declarar que discorda totalmente e 18% a indicar que discorda, enquanto 25% assume uma posição neutra, 14% concorda, apenas 6% concorda totalmente.
Quanto à eventual proibição das touradas, o apoio é superior entre as mulheres (68%), superando em 18 pontos percentuais a adesão registada junto do público masculino (50%).
No âmbito etário e educacional, a proibição reúne maior consenso nas faixas entre os 35 e os 54 anos (62%) e entre inquiridos com nível de escolaridade elevado (64%). Por fim, a oposição cresce nas zonas urbanas (entre 63% e 65%), face a registada entre os residentes em vilas e aldeias (52%).
Em relação à utilização de fundos públicos para apoiar a atividade tauromáquica, 71% dos inquiridos manifestam-se contra, ao passo que 17% assumem uma posição neutra, apenas 10% se declaram a favor do financiamento público.
Relativamente à consideração das touradas como uma prática agradável, 68% não a considera apreciável, enquanto 20% mantêm uma posição neutra, apenas 10% consideram a prática apreciável.
Quanto à presença destes eventos na sociedade, 55% consideram que as touradas não devem ter lugar, enquanto 24% adotam uma posição neutra e 18% defendem que as touradas devem ter lugar.
No que diz respeito à proteção do bem-estar animal no âmbito das tradições culturais por parte da União Europeia, uma expressiva maioria de 81% dos inquiridos declara-se a favor dessa salvaguarda, ao passo que 12% mantêm uma posição neutra, apenas 6% se manifestam contra a intervenção comunitária.
Sobre o reconhecimento da tauromaquia como um valor cultural, 52% dos inquiridos indicam que não consideram a tourada uma tradição valiosa no país, enquanto 25% assumem uma postura neutra e 20% consideram-na uma tradição valiosa.
Imagem: Basta de Touradas




