Maria Archer II – Escritora comprometida com seu tempo

   Tempo de leitura: 7 minutos

Maria Archer foi uma destacada escritora, com habilidade especial para salientar e denunciar o papel que a sociedade conservadora e repressiva da época reservava às mulheres. Como entes dependentes sempre dos homens, quer pola economia (por serem eles quem tinha a chave do cofre) quer pola pressão social que dominava o corpo e o espírito das mulheres.

As ditaduras debruçam-se sempre sobre os corpos e a capacidade de decisão social das mulheres. Quer a Igreja, quer o poder político entram com toda a impertinência nos lares até ao mais íntimo das alcovas, tentando controlar o processo reprodutivo humano. Censurando toda capacidade de livre gozo dos corpos na intimidade dos cônjuges e a livre expressão do desejo feminino, culpabilizando as mulheres pola sua própria sexualidade.

A esse respeito a literatura de Maria Archer é uma bomba que tenta desfazer toda a parafernália repressiva que envolve o corpo e a esfera social da mulher e sua capacidade de decisão sexual, física, económica e social, e que minora a sua independência. Por isso, aconselha as mulheres a não deixarem o trabalho para se casarem, pois é claro que não há independência social se não houver independência económica.

Todos os livros de Maria Archer abordam este paradoxo social. São denúncias da situação de injustiça em que se encontra a mulher, nomeadamente a mulher casada. Chega até mesmo a desaconselhar o matrimónio por ser lesivo para a independência das mulheres e por constituir, devido às leis repressivas do “ Estado Novo” português, uma autêntica armadilha em que as mulheres se veem encurraladas.

Li com avidez o romance “Casa Sem Pão”, primeiro livro que consegui de Maria Archer, comprado num alfarrabista pois é difícil encontrar obras desta autora no mercado. Uma prosa direta incisiva e denunciadora guiou-me através do texto que não era capaz de largar. Maria descrevia factos, situações e pensamentos sem fazer diretamente o juízo de valor. Este faz-se por si só. Basta mostrar os factos na obra. Eles falam por si. Comecei a procurar mais obra desta autora excecional, mas não era fácil. Foi-me enviado pela UNICEPE do Porto “Filosofia duma mulher Moderna” livro de contos ácidos, reivindicativos, em que a rebeldia fica mais implícita que explícita — como seria de esperar para uma leitora capaz de ver para além da simples leitura direta.

Resenha do livro “A primeira vítima do Diabo” no jornal do comércio (1954)

Manuela Aguiar deu-me “A primeira vítima do Diabo” também uma coletânea de relatos com nome de mulher. Um texto duro e inclemente como o modelo social que aferrolha as mulheres. Aqui a Escritora permite-se emitir juízos e recomendações. Encontramos um testemunho brilhante, por exemplo, no relato “Sara”, sobre uma mulher que perde o seu primeiro filho num parto prematuro. A partir daí o seu homem perde o interesse nela. Finalmente abandona-a por outra mulher que lhe dá descendência. Nesta história Maria Archer faz uma declaração moderna sobre o direito das mulheres, enquanto cidadãs a serem tratadas em igualdade com os homens, sob uma análise marxista de materialismo histórico e de justiça social:.

“A mulher que se dedica ao seu lar fá-lo como profissão, é doméstica de profissão, é esposa de profissão e, portanto, é justo e moral que encontre na profissão a que se dedica uma recompensa correspondente de segurança no presente e no futuro com as suas consequências de segurança. Mas todos os profissionais admitem que há circunstâncias inibitórias da sua suficiência na profissão e a esposa nunca o reconhece. A orgânica social, porém, não lhe garante uma pensão de reforma de harmonia com os proveitos usufruídos na efetividade do cargo.”

Hoje não existe direito a uma pensão para donas de casa em nenhum país — apenas uma ajuda como pensão não contributiva para pessoas com mais de 65 anos, se não tiverem outros rendimentos.

Por isso Maria Archer aconselha pola voz de Lídia no mesmo livro de relatos:

“É por isso que agora digo às raparigas: Cuidado com o casamento! Não julguem que o casamento é um amparo, para nós, mulheres, é o nosso emprego, o nosso trabalho, o nosso ordenado ou salário, é o que é bem nosso, pessoal, apanágio da nossa pessoa e da nossa vida. Tudo o mais, o casamento incluído, são contingências do mundo e da sorte, que, como o jogo da lotaria, saem em branco para muitos e só a raros dão o prémio grande.”

Do meu ponto de vista a escritora Maria Archer é uma pioneira revolucionária, como diz João Gaspar Simões «Não conheço outra escritora portuguesa que à audácia dos temas e das ideias alie uma expressão tão enérgica e pessoal. O seu estilo respira força e solidez» —citado por Guilherme d’Oliveira Martins, As Artes entre as Letras, 2024.

Seguindo Guilherme d’Oliveira, “Maria Archer soube entender o feminino até ao âmago, como nenhuma outra, o feminino nos seus sonhos, nos seus anseios e denunciar corajosamente a teia dos preconceitos absurdos que pendiam sobre as mulheres, sobretudo as que procuravam lutar pela sua dignidade”.

Com efeito, Maria Archer sofreu perseguição polas suas obras. Nomeadamente os seus romances “Casa sem Pão” e o “Ida e Volta duma Caixa de Cigarros”, que lhe foram retirados do mercado.

Também o seu livro “Três Mulheres”, publicado quando vivia em Moçambique, custou-lhe a reprovação da sua família que se considerou ofendida por se sentir refletida em alguns trechos do livro.

Eu pessoalmente achei “Casa Sem Pão” uma obra dura descarnada em que se descrevem os costumes da burguesia com toda a crueza. A procura de marido, os abusos a menores desamparados como o caso da criadinha que o pai da protagonista, Adriana, arranja num hospício para vir trabalhar pola comida e polo vestir. A própria Isménia ( a criadinha ) é abusada polo pretendente de Adriana — o mesmo que abusa também da irmã desta, que é ligeiramente deficiente. Perante estes abusos desonestos e degradantes, a moral burguesa e patriarcal sentencia:

“Rapaziadas!. Todos os homens fazem as suas rapaziadas… Elas é que são umas descaradonas, que os desafiam…”..

O pretendente para marido abusa da irmã débil, mas fogosa:

“ -E então, apareceu a coisa?.
-Veio-me esta manhã, e até com bastantes dores.
-Ah bem, bem, – Diz ele aliviado… Nem um beijo, nem uma carícia, nem uma palavra terna..”

Nestas passagens literárias a escritora não hesita em mostrar os quadros típicos da dupla moral da burguesia e o castigo que cai sobre as mulheres como responsáveis por orientar uma casa, gerir as economias e atender às “necessidades” dos seus homens. Não falta também a denúncia da desproteção em que se encontram as mulheres, de maneira que lhes seria melhor ficarem divorciadas ou solteiras do que casadas, pois este estado acaba por representar um duro jugo, uma grade invisível e denegridora que condiciona o seu bem-estar e a sua dignidade.

(III parte na próxima semana)

Share