O país encontra-se sujeito aos interesses da Casa Branca desde o sequestro do Presidente Maduro por parte dos EUA a 3 de janeiro deste ano.
Redação |
Com publicações quase em simultâneo nas redes sociais, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, e o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciaram um “Acordo Petrolífero” entre os EUA e a Venezuela.
O acordo apresentado no passado dia 28 de agosto, representa um ponto de viragem para a relação bilateral entre Washington e Caracas, bem como para o futuro da nação caribenha. O país encontra-se estruturalmente sujeito aos interesses da Casa Branca desde o sequestro do Presidente Maduro por parte dos EUA a 3 de janeiro deste ano.
Em comparecência pública, Delcy Rodriguez detalhou os contornos do acordo prevendo a exploração conjunta de 17 campos petrolíferos e oito blocos verdes na Faixa Petrolífera do Orinoco. Com uma vigência de 25 anos, o pacto fixa uma meta de produção superior a 1,5 milhões de barris diários.
Trump apresentou o acordo como uma vitória económica e geopolítica, afirmando tratar-se do “maior acordo petrolífero da história mundial”. Segundo o presidente, os EUA garantiram o “controlo maioritário” sobre mais de um quinto das reservas comprovadas da Venezuela, o que permitiria “duplicar largamente as reservas de petróleo norte-americanas”.
Segundo a presidência venezuelana, o modelo de cooperação assenta numa repartição de competências: a Venezuela entra com os recursos petrolíferos, a infraestrutura industrial e a experiência técnica dos seus trabalhadores, enquanto os EUA contribuem com capital e tecnologia para recuperar e desenvolver os ativos envolvidos.
As estimativas oficiais venezuelanas apontam para que, tendo por base um preço de referência de 65$ por barril, o Estado possa arrecadar cerca de 209.335 milhões de dólares ao longo da vigência do projeto. A Presidente Delcy Rodríguez sublinhou que cerca de 19$ por cada barril comercializado reverterão diretamente para o país, ficando o encaixe final dependente das flutuações do mercado internacional, do ritmo de investimento e da efetividade produtiva.
O Executivo da Venezuela disse garantir que a soberania e a propriedade das reservas se mantêm na esfera estatal, canalizando as receitas obtidas para a modernização dos serviços públicos, saúde, educação e infraestruturas, além de perspetivar novos entendimentos com companhias internacionais como Chevron, Repsol, Eni, Shell e BP.
Com este acordo, Donald Trump alivia a pressão interna do Partido Republicano para destituir a presidente interina antes das eleições intercalares e atrai petroleiras norte-americanas com a promessa de lucros, tendo o Pentágono como fiador da segurança.
Do lado de Caracas, o governo de Miraflores instrumentaliza o acordo para neutralizar críticas de submissão aos EUA, relativizando o regresso a um modelo de concessões semelhante ao do século passado. O governo utiliza a promessa de recuperação económica para legitimar a política e atenuar o desgaste em torno da soberania nacional. Para isso, argumenta que o modelo atual não representa uma cópia do passado colonial, mas sim uma adaptação pragmática para garantir a arrecadação de fundos e a sobrevivência financeira do país face à crise estrutural.
A dimensão geoestratégica do acordo ocorre num cenário de reconfiguração dos mercados energéticos globais, condicionado pelas ruturas no fluxo tradicional de hidrocarbonetos e pelos conflitos Rússia-Ucrânia e Irão-USA. Com este movimento, Washington procura assegurar zonas de aprovisionamento geograficamente próximas e mitigar a volatilidade nos mercados internacionais.
Analistas manifestam reservas quanto à viabilidade operacional a curto prazo do acordo, apontando décadas de desinversão e o impacto severo das sanções na infraestrutura petrolífera da Venezuela. Por essa razão, estima-se que os poços exijam entre cinco a dez anos de obras intensivas para conseguirem atingir a sua plena capacidade operativa.
Créditos: PDVSA – Petróleos de Venezuela. Redes Sociais





