Críticos e ativistas acusaram os influencers de integrarem uma estratégia de propaganda de guerra no contexto do genocídio. O criador de conteúdo Kiko is Hot recusou o convite por não querer fazer parte de uma operação de promoção política.
Entre os dias 19 e 25 de julho, oito criadores de conteúdo realizavam uma viagem a Israel financiada pela Embaixada em Lisboa. O itinerário incluiu Telavive, Jerusalém e deslocações a Gaza.
A comitiva foi integrada por Rute Sousa, Andreia de Sousa Viegas, Tiago Sousa, Rute Obadia, Romeu Monteiro, Bruna Fortunato e Filipe M. Vilarinho. O criador de conteúdo Kiko is Hot recusou o convite por não querer fazer parte de uma operação de promoção política.
A partilha de vídeos e conteúdos virtuais desencadeou uma onda de repúdio nas redes sociais. Críticos e ativistas acusaram os influenciadores de integrar uma estratégia para higienizar a imagem de Israel junto do público jovem no contexto do genocídio.
O travelwashing já acontecia muito antes dos conflitos recentes, através de entidades como a Vibe Israel e o Ministério do Turismo, que financiavam viagem de imprensa de luxo para influenciadores de viagens, moda e gastronomia. O objetivo central é focar as publicações no estilo de vida e nas praias de Telavive.
Para mobilizar a direita conservadora dos EUA, os ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Diáspora têm contratado agências de relações públicas norte-americanas para recrutar influenciadores para moldar a perceção dos jovens eleitores no ecossistema político dos EUA.
Enquanto a imprensa internacional e independentes continuam impedidos de cobrir o terreno de forma autónoma, o executivo israelita organizou e financiou visitas guiadas a zonas sob controlo militar para criadores e ativistas digitais. A finalidade é produzir conteúdos para as redes sociais que mostrem a distribuição de ajuda, contestando abertamente os relatórios da ONU e de ONGs s.
Geografias e estratégias da propaganda
Nos EUA, a estratégia prioriza criadores de estilo de vida, ativistas e figuras conservadoras e evangélicas, com o objetivo de travar a mudança de opinião pública entre as gerações mais jovens e preservar o apoio político.
Em outros países americanos, as campanhas focam-se em youtubers de viagens e líderes evangélicos, com forte incidência no Brasil, cruzando a promoção turística com o apelo à ligação religiosa à Terra Santa.
Na Europa Ocidental, o investimento direciona-se a criadores de conteúdo sobre turismo, gastronomia, moda e inovação tecnológica, visando projetar Israel como um polo cosmopolita e progressista e desvincular a sua imagem do genocídio e do conflito geopolítico.
Segundo revelou o investigador Nick Cleveland-Stout (Quincy Institute) no Responsible Statecraft, promover conteúdos pagos a favor de Israel nas redes sociais tornou-se um negócio rentável. A empresa Bridges Partners, a atuar para o Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita, faturou 900 mil dólares ao Havas Media Group Alemanha entre junho e novembro. O valor financia uma campanha de influenciadores em que um grupo de 14 a 18 criadores de conteúdo produz publicações para redes sociais, podendo receber mais 7.000 dólares por cada post.
Em outubro passado, o portal britânico The New Arab também noticiou a batalha de Israel pelo controlo da narrativa nas redes sociais. A estratégia assenta na contratação de influenciadores e ferramentas de inteligência artificial para remodelar a sua imagem pública.
Registos do Departamento de Justiça norte-americano revelam que o governo israelita contratou a Bridges Partners LLC para gerir esta rede de criadores digitais. A iniciativa liga-se ao “Projeto Esther”, articulado pelo think tank conservador The Heritage Foundation. Sob o pretexto de combater o antissemitismo, analistas e organizações de direitos civis alertam que o plano visa criminalizar e desmantelar o movimento de solidariedade com a Palestina nos EUA.
No próprio terreno, investigações jornalísticas e relatórios de observadores independentes — com destaque para o jornal Haaretz e o grupo de investigação Fake Reporter — têm documentado o uso intensivo de influenciadores e operações de comunicação por parte do governo de Israel para moldar a opinião pública internacional e melhorar a sua imagem global.
Israel investiu mais de mil milhões de dólares em diplomacia pública desde 2023, incluindo 100 milhões em operações de influência nos EUA, revela um outro relatório do Instituto Quincy.
Fotografia: Wikimedia Commons





