II Festival Galego de Podcast consolidou Fene como ponto de encontro da inovação na rádio local

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Redação |

O II Festival Galego de Podcast, promovido pelas Emisoras Municipais Galegas (EMUGA), encerrou a sua segunda edição no passado mês de junho de 2026, reafirmando-se como um espaço de reflexão, partilha de experiências e valorização do podcast enquanto ferramenta de comunicação, cultura e serviço público.

Durante dois dias, o Círculo de Perlío, em Fene, reuniu profissionais da rádio, investigadores, docentes, criadores de conteúdos e representantes de emissoras municipais galegas para debater o presente e o futuro do áudio digital, num programa que combinou palestras, apresentações de projetos, debates e momentos culturais.

Um dos momentos altos do festival foi a distinção atribuída ao podcast de Núria López, “A ferida aberta no 36”, reconhecido pela sua contribuição para a recuperação da memória histórica (Guerra Civil espanhola, franquismo e transição à democracia). O júri destacou o rigor da investigação, a qualidade da produção e documentação, bem como a capacidade de dar voz a familiares, historiadores e investigadores, preservando testemunhos fundamentais para compreender um dos períodos mais traumáticos da história contemporânea da Galiza.

A programação deu igualmente destaque ao podcast “Sábados no Cruceiro” (especial acerca dos desafios das cidades sustentáveis do futuro), desenvolvido pelos professores da Universidade da Corunha Joaquín Enríquez, Begoña Álvarez e José Javier Orosa, em colaboração com a investigadora Andrea Bello. O projeto aborda os desafios da sustentabilidade urbana, demonstrando como o formato podcast pode aproximar o conhecimento científico do grande público.

A palestra dedicada ao papel do podcast nas rádios locais constituiu um dos principais momentos de reflexão do festival. Moderada por Xosé Cendán, diretor da Radio Eume, contou com a participação de Germán Estévez (Radio Alhariz), Bernardo Penabade (Radio Foz), Iván Touris (“A Xente de Teo”) e Xurxo Estévez, fundador da Radio Piratona.

Ao longo do debate, os participantes convergiram na ideia de que o podcast representa uma evolução natural da rádio tradicional. Xosé Cendán recordou que, de certa forma, o formato recupera o espírito das antigas rubricas radiofónicas produzidas por colaboradores, sublinhando que “as pessoas querem contar histórias”.

Para Germán Estévez, ganhador na edição de 2025 do prémio ao melhor apresentador pelo seu programa “Galiportus“, sobre tópicos partilhados entre a Galiza e Portugal, o podcast é “uma rádio à la carte“, capaz de adaptar os conteúdos aos ritmos de consumo atuais, sem comprometer a essência do meio radiofónico. Na sua opinião, a rádio mantém uma vantagem única: permite informar e acompanhar os ouvintes enquanto estes realizam outras atividades.

Já Xurxo Estévez destacou o caráter democrático do podcast, defendendo que qualquer pessoa, independentemente da idade ou da formação, pode hoje comunicar diretamente com o seu público. Considerou ainda que este formato tem sido particularmente eficaz na aproximação das gerações mais jovens aos conteúdos sonoros.

Iván Touris enfatizou que, tanto na rádio como no podcast, o essencial é estabelecer uma ligação genuína com quem escolhe ouvir determinado conteúdo. Bernardo Penabade, por sua vez, defendeu um reforço da rádio educativa, propondo uma colaboração regular entre escolas e emissoras municipais para a produção de programas desenvolvidos pelos próprios alunos.

O debate abordou igualmente a crescente concentração dos meios de comunicação e a necessidade de existirem projetos capazes de oferecer visões alternativas ao discurso dominante. Enquanto Xurxo Estévez defendeu a criação de um forte grupo mediático galego assente nas rádios locais e municipais, Germán Estévez mostrou-se mais cético, considerando que o atual contexto de sobreinformação e desinformação dificulta o surgimento de novos projetos de grande dimensão, lamentando igualmente a reduzida presença dos meios comunitários no panorama mediático.

A importância do podcast como instrumento de preservação da memória coletiva voltou a estar em destaque numa conversa moderada por Daniel García, do Canal “Rias Baixas“. Participaram Núria López, responsável por “A ferida aberta no 36“, Vera Varela, autora de “Mugardos, lugar dos silêncios” e o arquiteto Jorge Salgado refletindo sobre a forma como o áudio permite recuperar histórias locais frequentemente esquecidas ou silenciadas.

Outro dos painéis abordou um dos temas mais atuais da sociedade contemporânea: a inteligência artificial. Os professores Óscar Rey e Fina Paulos defenderam uma utilização responsável, ética, crítica e profundamente humana destas tecnologias, num debate moderado pela docente Anxos García Fonte.

O encerramento do festival ficou marcado pela atuação do grupo de cantos de taberna Son d Cantos, de Perlio (Fene, Ferrolterra), dirigido por Diego Maceiras, que proporcionou um ambiente de celebração e valorização da cultura popular galega.

A segunda edição do Festival Galego de Podcast confirmou a crescente importância deste formato na comunicação contemporânea, particularmente para as rádios municipais, que continuam a desempenhar um papel essencial na promoção da proximidade, da participação cidadã, da língua galega e da preservação da memória coletiva.

Num momento em que o consumo de conteúdos sonoros cresce em todo o mundo e o podcast se afirma como um dos formatos digitais de maior expansão, iniciativas como a promovida pela EMUGA demonstram que a inovação tecnológica pode caminhar lado a lado com a valorização da identidade local, do jornalismo de proximidade e do serviço público de comunicação.

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