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A contestação à instalação de um hotel no Quartel da Graça ganhou um novo impulso com a última assembleia geral convocada pelos moradores e ativistas no passado 28 de junho. Após semanas marcadas por avanços significativos — incluindo a entrega no Parlamento de uma petição assinada por cerca de 11 mil cidadãos e a ação cultural coletiva do movimento Primavera dos Coros —, a Assembleia da Graça voltou a reunir-se para traçar os próximos passos na defesa do património do bairro.
A vizinhança lisboeta da Graça está a se mobilizar contra a decisão estatal de entregar um dos principais monumentos do bairro ao grupo Sana para a instalação de um hotel. Esta onda de contestação, no entanto, assenta numa reivindicação antiga.
Em 2016, o executivo socialista lançou uma lista de 30 monumentos integrados no programa Revive, uma iniciativa destinada a recuperar e valorizar o património histórico através do turismo. O projeto previa a concessão destes imóveis a privados para a exploração de hotéis ou restaurantes.
Em 2019, o grupo Sana Hotels garantiu a concessão do Quartel da Graça por 50 anos, mediante um contrato com o Estado que previa a sua transformação num hotel de cinco estrelas no espaço de quatro anos.
Entretanto, o projeto passou por sucessivas modificações e a sua aprovação só se concretizou em 2024, numa reunião do executivo da Câmara Municipal de Lisboa. A viabilização ocorreu após um empate nas votações, tendo sido garantida a aprovação pelas três abstenções do Partido Socialista.
Abandonado desde o início da concessão, o Quartel da Graça foi ocupado por ativistas da habitação em 2023. No ano seguinte, o coletivo Stop Despejos lançou uma campanha contra a construção do hotel de luxo, alertando para o estrangulamento de uma cidade saturada pelo turismo. A organização denunciou que a expulsão de moradores e do comércio tradicional transformou o bairro num parque de diversões turístico, sacrificando serviços essenciais da comunidade em favor do setor hoteleiro.
Com 10.785 assinaturas, a petição criada em maio de 2025 pela Assembleia “Parar o Hotel no Quartel da Graça”, foi entregue na Assembleia da República no passado dia 18 de junho. O documento exige a revogação da concessão por parte do Estado, de forma a proteger o Monumento Nacional da degradação e do abandono, garantindo que o espaço seja colocado ao serviço da cidadania.
O documento argumenta que, com um número crescente de habitações turísticas, o comércio tradicional convertido em bares e lojas de recordações, e a constante circulação de veículos turísticos pelo bairro, a identidade local está sob ameaça.
Em alternativa aos lucros do setor hoteleiro privado, o documento reclama o uso do antigo quartel para fins sociais e comunitários. A proposta advoga pela criação de habitação, espaços educativos e artísticos, bem como de serviços de assistência focados na qualidade de vida dos moradores.
O Convento da Graça foi fundado no século XIII e reconstruído após o terramoto de 1755. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o espaço passou a acolher o Exército e, posteriormente, a GNR, razão pela qual é conhecido como «Quartel da Graça».
A construção deste hotel poderá ser o golpe fatal num bairro onde o Convento das Mónicas também está destinado a ser convertido numa unidade hoteleira.
Fotografia: Assembleia da Graça.Redes Sociais





