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Das praias da Corunha às ruas do Porto, o aroma a sardinha assada, os rituais ancestrais e a festa popular dominaram a noite mais longa do ano. Sob o signo do solstício de verão, o São João transformou o quotidiano de aldeias, vilas e cidades, com rituais de purificação pelo fogo e pela água que se fundiram com a devoção, música e partilha nas fogueiras comunitárias e familiares por toda a Galiza
No Porto, o habitual duelo pacífico entre o aroma do alho-porro e o ruído dos martelinhos de plástico marcou o ritmo dos portuenses. Mas não só, diz a tradição que, na noite de São João, namorados oferecem um manjerico conhecida como a “erva dos namorados” -, como prova de amor e compromisso, com todo um ritual e um significado muito próprio
Braga orgulhou-se de ostentar o título da “maior festa popular de Portugal”, pautando-se pela sua matriz fortemente etnográfica e religiosa. O encontro de gigantones e cabeçudos, as rusgas populares e os cortejos de sanjoaneiras culminaram nas celebrações litúrgicas na capela de São João da Ponte e nos casamentos comunitários promovidos pelo município.
Em Moimenta da Beira, o feriado municipal encerrou um programa que decorria desde o início do mês, marcado pelo desfile das marchas populares. Na Figueira da Foz, o ambiente balnear uniu-se às tradicionais fogueiras e ao emblemático “banho santo” nas águas atlânticas ao amanhecer.
Na Corunha —cuja festa está declarada como de Interesse Turístico Internacional— as praias urbanas de Riaçor e Orçám transformaram-se num mar de chamas purificadoras. Milhares de pessoas acenderam centenas de fogueiras na areia, culminando com a queima da Fogueira Maior.
Cumprindo a tradição para afastar o mau-olhado – ou meigalho – milhares reviveram mais um ano o ritual de saltar as brasas um número ímpar de vezes, seguindo a prece tradicional : “Salto o lume de São João para que me não trave nem cobra nem cão”.
A manhã do dia 24, acordou com o cheiro fresco do ramo das sete ervas de São João (composto por funcho, feto, dedaleira, giesta, hipérico, malva e alecrim). Deixadas ao relento para receber o orvalho da noite, as ervas e os céus libertaram as suas propriedades na água com que, manda a tradição, lavar o rosto logo pela manhã para garantir saúde e proteção para o ano que se segue.
Se há elemento que une indissociavelmente galegos e portugueses nesta noite mágica é o aroma a fumo e a peixe assado. A sardinha assada na brasa comeu-se quente sobre a broa, seguindo a regra do ditado popular “Pelo São João, a sardinha pinga no pão”.
Com as fogueiras já extintas e as praias e ruas recolhidas para limpeza, o regresso à normalidade, deixou viva a memória de uma noite que prova, ciclicamente, que as raízes que unem a faixa atlânticas ardem na mesma fogueira.
Fotografia: Noite de São João na Corunha. Fonte: Wikkimedia Commons.


