Há uma cidade no mundo que foi destruída pelo menos duas vezes, sitiada vinte e três vezes, atacada cinquenta e duas vezes, capturada e recapturada quarenta e quatro vezes. As contas são do arqueólogo Eric Cline. A cidade chama-se Jerusalém.
Muita dessa violência foi feita em nome de Deus. E, nos últimos mil e quinhentos anos, quase sempre em nome do mesmo Deus.
É isto que é preciso ter na cabeça antes de tudo o resto. As três religiões que disputam Jerusalém, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islão, são abraâmicas. Descendem do mesmo patriarca. Partilham profetas. Acreditam num Deus único, ciumento, que exige exclusividade e que, curiosamente, a distribuiu por três famílias ao mesmo tempo.
Abraão é pai de todas. Moisés é profeta para todas. Jesus é central para duas. Maomé é o último mensageiro para uma. E todos são homens. Todos, sem excepção. A genealogia do sagrado é inteiramente masculina. Guardem esta frase, que já lá volto.
No fundo, é uma história de partilhas. Abraão teve dois filhos, Isaac e Ismael, e o mundo ainda anda a discutir a herança. Como qualquer família portuguesa à volta da casa da avó na aldeia: o mesmo pai, os mesmos papéis, e ninguém aceita a parte que lhe calhou.
O Monte do Templo é o metro quadrado mais disputado do planeta. Lá em cima esteve o Templo de Salomão, destruído pelos babilónios em 586 antes da era comum. No mesmo sítio, o Segundo Templo, ampliado por Herodes e arrasado pelos romanos no ano 70. No mesmo sítio, a Cúpula da Rocha, erguida pelo califado omíada em 691, e ao lado a Mesquita de Al-Aqsa. E na base, o Muro das Lamentações, o que resta do muro de suporte da esplanada do Segundo Templo, onde há judeus a rezar todos os dias. Três religiões. O mesmo chão. Literalmente umas por cima das outras.
Quando os cruzados tomaram Jerusalém, em 1099, fizeram da Cúpula da Rocha uma igreja e instalaram os Templários na Mesquita de Al-Aqsa. Os Templários estavam convencidos de que a Cúpula era o Templo de Salomão. Foram os primeiros influencers de arquitectura: viram um edifício bonito em Jerusalém e espalharam a versão deles pela Europa. Copiar e colar, com cruz. Muitos historiadores acreditam que a Charola de Tomar, a dos Templários portugueses, bebeu dessa memória. Uma igreja portuguesa desenhada a partir de uma mesquita, construída em cima das ruínas de um templo judaico. É o que acontece quando o sagrado não tem memória mas tem ambição.
E nem é preciso ir tão longe. Aqui ao lado, em Santiago de Compostela, há um túmulo que pode nem ser do apóstolo. A arqueologia encontrou uma necrópole antiga, não encontrou Tiago. Nunca se fez um teste de ADN. Mas o Caminho existe, as botas gastam-se, os albergues enchem e a Galiza agradece. É o festival de Verão mais antigo da Europa: mais de mil anos de cartaz esgotado, a concha a fazer de pulseira e casa de banho partilhada. Não precisa de ser verdade. Precisa de funcionar. É a lógica de Jerusalém em ponto pequeno: o sagrado como infraestrutura. A fé como economia.
Há uma ironia que raramente se diz em voz alta. Quando certos dirigentes muçulmanos negam que tenha existido um templo judaico em Jerusalém, estão a contrariar o próprio Alcorão: o versículo 7 da Sura 17 fala do templo dos filhos de Israel, destruído duas vezes, e os comentadores clássicos sempre o leram como o Templo de Jerusalém. A negação não é teológica. É política. E nenhuma das três tradições está inocente deste uso. O sionismo religioso usa a narrativa bíblica para justificar a ocupação de terra. As Cruzadas usaram a cruz como bandeira de conquista. Os califados usaram a fé como argamassa de império. Deus, em todos os casos, chegou antes dos advogados. E saiu com o mesmo resultado.
Mas o que me inquieta mais não é a terra. É a veneração.
As três religiões constroem a sua arquitectura espiritual em torno de homens. Não de princípios abstractos: de homens com nome, com história, com corpo, depois elevados a patriarcas, a profetas, a santos, a Deus encarnado. O Judaísmo venera Abraão, Moisés, David, Salomão. O Islão alarga a linhagem até Jesus e Maomé, mas guarda uma fronteira clara: os profetas são humanos, e chamar divino a Maomé seria a maior das heresias. O Cristianismo dá o salto que as outras duas recusam. Pega num judeu da Galileia, carpinteiro, nascido em Belém, que é hoje uma cidade palestiniana cercada por um muro, e declara-o Deus feito carne. Depois canoniza outros homens. Santos, papas, doutores da Igreja. Uma escada inteira de homens entre as pessoas e o céu.
Há mulheres, claro. A Bíblia tem profetisas: a Miriam, irmã de Moisés, a Débora, que foi juíza de Israel. Há Maria. Há Fátima. Há santas. Mas são excepções que guardam a regra. Nenhuma funda. Nenhuma recebe a lei. Nenhuma é a voz de onde nasce a escritura. A mulher existe como mãe, como virgem, como mártir. Nunca como origem. É como um grupo de WhatsApp de família em que só os homens são administradores. Elas podem mandar um coração. Podem partilhar a receita. Não podem mudar o nome do grupo. Nenhuma mulher chega a Deus sem passar por um homem. Em nenhuma das três.
Não estou a fazer um argumento sobre fé. A fé é assunto de cada consciência e não tenho vontade nenhuma de lá entrar sem ser convidada. Estou a falar de estrutura. Do que estas religiões constroem quando saem do espiritual e entram no poder, que é o que acontece sempre que uma religião passa a mandar em terra, em leis, em corpos e em dinheiro.
Em 2026 há um genocídio em curso na Palestina. A linguagem que o justifica é muitas vezes religiosa. A Terra Prometida. A jihad. A missão civilizadora. Muda o sotaque, não muda a lógica. E a lógica é sempre a mesma: Deus deu-nos este sítio. Os outros que se desemmerdem.
E há uma quarta religião que quase ninguém nomeia. O sionismo evangélico americano. Não cabe em nenhuma das três, mas alimenta-se de todas. Acredita que o regresso dos judeus a Israel é condição para a segunda vinda de Cristo. Quer dizer: apoia Israel não por amor aos judeus, mas porque precisa deles no sítio certo para o fim do mundo correr como previsto. Os judeus são figurantes no filme apocalíptico de outra religião. E o filme tem protagonista. Há pastores evangélicos que chamam a Donald Trump o novo Ciro, o rei persa que deixou os judeus voltar da Babilónia. Ele mudou a embaixada americana para Jerusalém. Vendeu Bíblias com a bandeira dos Estados Unidos na capa. Fez-se desenhar como super-herói em cromos digitais. E há viagens pagas para influencers europeus irem a Israel aprender a história certa. A fé é a embalagem. O produto é o controlo. E o cliente é quem acredita que está a ser salvo quando está a ser usado.
Eu vim de fora, mesmo tendo sido gerada por gente de dentro. Nasci longe, filha de pais daqui, e cheguei a este país ainda criança, com outra terra agarrada aos sapatos. Talvez por isso desconfie sempre de quem diz que uma terra é só sua. Cresci entre culturas, entre línguas, entre maneiras diferentes de ler o mesmo mundo. E em todas encontrei o mesmo padrão: homens a usar Deus para legitimar poder. Não todos os homens. Não todas as fés. Mas o padrão repete-se demasiado para ser acaso.
Três religiões que partilham o mesmo patriarca, os mesmos profetas, o mesmo chão. Que durante séculos se mataram por esse chão. E que, enquanto se matavam, nunca perguntaram às mulheres o que achavam daquilo tudo. As mulheres eram consultadas sobre o jantar, sobre os filhos, sobre o comprimento das saias. Sobre o sagrado, não.
E há uma coisa que todas esquecem. Antes de Abraão, antes do primeiro templo, antes da primeira pedra de Jerusalém, houve uma mulher. A ciência chama-lhe Eva mitocondrial: viveu em África há cerca de cento e cinquenta mil anos e todos os seres humanos vivos herdaram dela o ADN das mitocôndrias. Afinal, a genealogia mais antiga do mundo não é a dos patriarcas. É a de uma mãe. E é africana.
Nasceu na terra a que muitos chamam Alkebulan, mãe da humanidade. Viemos todos de lá. O judeu, o cristão, o muçulmano, o ateu, o deputado que fala de fronteiras e o miúdo que as atravessa a nado. Se há uma terra prometida, é a que nos pariu a todos. E ninguém a reclama.
Não sei se Deus existe. É uma pergunta que me parece ao mesmo tempo impossível e fascinante. Mas sei que, se existe, e se é o que as três religiões dizem, omnipotente, omnisciente, criador de todas as coisas, não precisa de homens com espadas para lhe defender o território. Não precisa de cruzadas. Não precisa de muros. Não precisa de bombas. Quem precisa de cruzadas, de muros e de bombas não é Deus. É o poder. É a terra. É o petróleo. É a vontade muito humana de ter mais do que o outro e de arranjar uma história bonita para isso.
Jerusalém é essa história. Contada três vezes.
Há uma pergunta que faço sempre que alguém me usa Deus como argumento para uma política: a quem serve este Deus, neste momento, nesta decisão?
Se serve a quem já tem o poder, não é Deus. É relações públicas.
E se for Deus de verdade, cabe em qualquer chão. Não precisa de um metro quadrado em Jerusalém, nem de um túmulo em Compostela, nem de um muro à volta de Belém. Cabe na mão de quem parte o pão. Cabe na voz de uma mulher. Cabe até em mim, que vim de fora sendo de dentro.




