Há alguns dias que não consigo tirar da cabeça umas palavras da deputada do PP no Congresso espanhol, Cayetana Alvarez de Toledo. Esta senhora, marquesa de “Casa Fuerte” ¨ (título nobiliárquico outorgado pelo rei Felipe V em 1708), sabe perfeitamente os interesses que representa. A política “liberal” declarou um património de mais de 1,2 milhões de euros.
Habituados ao barulho dos mídia, sob a constante presença de declarações corrosivas e pouco democráticas, nada parece já destinado a surpreender-nos. Não sei como acabaram as suas frases no “meu” algoritmo cerebral, e também achava que não iriam ser piores do que outras, mas estas ressoaram no fundo da minha alma. Devem ser do ano passado, mas lá continuam, a repetir-se até ao infinito.
<<O que é que vocês estão dispostos a sacrificar? >> perguntava-se a política hispano-argentina. <<O bem-estar, as férias, os dias de folga?>> continuava, a ligar estes “supostos” direitos com a defesa da democracia e da liberdade. Sempre no plano pessoal, assinalando ao indivíduo que, se calhar, já tem mais do que merece. O discurso, segundos depois, ia para Macron e para a França. Cortes orçamentais, basta de despesas públicas, é tempo de segurança, é tempo de defesa, é tempo de guerras. E de privilégios dos de sempre.
Sim, parecem mais umas palavrinhas ligadas às políticas de austeridade, de contenção, de precarização. Nada novo. Porém, colocar o sacrifício no mesmo plano dos direitos laborais para seguir com a defesa da democracia e da liberdade, já é demais para mim. Boom! A cabeça ferve.
Há uma contradição cada vez mais evidente nas sociedades contemporâneas: nunca se produziu tanta riqueza, mas para uma parte crescente da população parece cada vez mais difícil construir uma vida minimamente estável. Os ricos, mais ricos, e os pobres, mais pobres. Álvarez de Toledo, como o seu título do século XVIII, parece que não quer ouvir falar de “conquistas sociais” nem do “progresso” alcançado nos últimos 75 anos. Ela entende que já é hora de as suas ideias oitocentistas saírem da poeira do armário. Muitos a rir, poucos a acreditar. Mais uma política a falar. Swipe and scroll, seguinte.
Ela não representa a extrema-direita. Nem sequer a direita extrema. É muito mais do que isso. A marquesa apresenta a carta do Antigo Regime, que achávamos desclassificada, mas que sempre estivo1 aí, à espera do seu momento. Representa a voz dos seus antepassados, quem não quereria voltar à Idade Média? Reis, nobres, burgueses… e servos. Povão. Fome. Miséria. Sem cidadania, sem direitos. Pegas nos restos e desenrascas-te como puderes, amigo.
A crise da habitação é talvez a expressão mais brutal desta “nova” realidade. Trabalhar já não significa necessariamente conseguir pagar uma casa, constituir família ou alcançar autonomia. A isto soma-se o aumento do custo da alimentação, da energia e dos transportes, salários pressionados e uma precariedade laboral que transforma qualquer imprevisto numa ameaça. Fazem falta sacrifícios, pois.
É neste contexto que devem ser entendidos os protestos de uma geração que se recusa a aceitar como inevitável uma vida marcada pelo adiamento permanente. Estudar mais, trabalhar mais, produzir mais — mas continuar sem casa, sem tempo e sem segurança. A resposta de certos sectores políticos é, porém, reveladora: em vez de questionar as estruturas que produzem esta precariedade, questiona-se quem protesta. E como afirma a nossa protagonista, a segurança é a do mercado, a do poder, a da banca. Não a das pessoas que não podem mais e que levam esses protestos à frente, no nome das maiorias sociais.
Férias, descanso, redução do horário de trabalho, educação ou saúde públicas passam, então, a ser apresentados como privilégios. A jornada laboral mais curta é acusada de destruir a produtividade; os serviços sociais são classificados como despesas excessivas; a proteção laboral é tratada como obstáculo à competitividade. O direito transforma-se em “regalia” e a conquista social em sinal de decadência.
Em vez de se discutir a concentração da riqueza, o preço da habitação ou a distribuição dos ganhos de produtividade, aponta-se o dedo ao imigrante, ao desempregado, ao funcionário público ou ao beneficiário de apoios sociais. Produz-se, assim, uma guerra entre os que têm pouco contra os que têm menos ainda, enquanto aqueles que concentram poder económico permanecem convenientemente fora do debate. A festa acaba, amigos “não-cidadãos”.
A questão central não deveria ser se uma geração quer “trabalhar menos”, como talvez a senhora marquesa. Deveria ser por que razão o progresso económico não se traduz numa vida melhor para quem trabalha. A redução do horário laboral, as férias, a saúde e a educação públicas não são aberrações históricas: foram conquistas a custo de sangue de sociedades que entenderam que o desenvolvimento económico deveria servir também para libertar tempo e garantir dignidade.
O verdadeiro conflito político do nosso tempo é, portanto, sobre o significado de progresso. Uma economia que exige mais trabalho, mais produtividade e mais sacrifício, mas oferece menos habitação, menos segurança e menos tempo livre; enfim, menos direitos, dificilmente pode continuar a apresentar-se como promessa de futuro.
Quando uma geração protesta porque não consegue imaginar uma vida digna, talvez o problema não seja a sua falta de ambição. Talvez seja o sistema que deixou de lhe oferecer um futuro pelo qual valha a pena trabalhar.
Agora, a que sacrifícios é que estás tu disposta, Cayetana? Queremos saber.
Fotografia: wikipedia (adaptada)
- O autor escreve numa variedade de português com particularidades galegas ↩︎




