Maternidade penalizada no desporto de elite: Cátia Azevedo despedida pelo Sporting

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Redação |

Cinco meses após ser mãe, a olímpica Cátia Azevedo viu o contrato com o Sporting terminar após 18 anos de dedicação. Este desemprego surge no momento da preparação para os Jogos de Los Angeles 2028, expondo as dificuldades de conciliar a maternidade com o alto rendimento desportivo.

Após uma proposta inicial de renovação anual acompanhada de um corte salarial, as negociações fracassaram devido à falta de alternativas justas. O impasse culminou em declarações controversas do diretor técnico do Sporting, Paulo Reis, que, segundo a atleta, justificou a relutância do clube ao afirmar: «Foste mãe. És um tiro no escuro, não sei como virás».

Em declarações ao jornal A Bola, a atleta criticou a postura da direção: «Vivemos numa era em que toda a gente acha que oferecer uma proposta é suficiente. Mas eu não mereço uma redução só porque gerei uma vida. Só as mulheres é que o podem fazer». Cátia Azevedo confessou mesmo o sacrifício pessoal feito para tentar segurar a ligação profissional: «Eu retardei a decisão de ser mãe o máximo possível. Duas semanas depois de ter dado à luz já estava a treinar com medo de perder um contrato que agora acabei mesmo por perder».

O caso de Cátia Azevedo expõe uma realidade transversal ao alto rendimento desportivo: a precariedade laboral e a vulnerabilidade das atletas face à maternidade. O receio e a instabilidade refletem um problema generalizado, onde a segurança contratual continua longe de estar garantida.

Por um lado, muitas atletas continuam a temer que uma gravidez resulte em não renovações de contrato, pressões veladas ou na perda de rendimento, uma vez que a proteção jurídica e social não tem a estabilidade desejada.

Por outro lado, reclama-se continuamente a criação de protocolos claros de apoio à recuperação física, integração progressiva nos plantéis e salvaguarda económica durante a licença de maternidade, para que ser mãe não ponha em risco a subsistência ou a continuidade desportiva.

Através das redes sociais, a atleta galega Ana Peleteiro – bronze no triplo salto em Tóquio 2020 – contestou, no passado setembro, a iniciativa da Federação Espanhola de Futebol, de financiar a congelação de óvulos no desporto. A triplista alertou para o risco de estas políticas servirem para assegurar que as mulheres evitem a maternidade durante a carreira ativa, em vez de desafiarem o sistema vigente.

Para Peleteiro, o foco institucional deveria centrar-se em adaptar a estrutura desportiva à maternidade. Para a campeã galega, duas vez mãe, a verdadeira conciliação não passa por forçar as atletas a adiarem a maternidade, mas sim por proteger os contratos durante a gravidez, garantir a reincorporação, respeitar os tempos de pós-parto e apoiar o cuidado dos filhos, evitando penalizações profissionais.

Entre 2022 e 2023, o caso de Sara Björk Gunnarsdóttir veio expor a vulnerabilidade legal a que as futebolistas estão expostas. A internacional islandesa foi mãe enquanto representava o Olympique Lyonnais, mas durante a gravidez e a licença de maternidade o clube cessou o pagamento do seu salário, amparando-se em interpretações contratuais e na lei francesa.

Apoiada pela Federação Internacional de Associações de Jogadores Profissionais, a atleta recorreu ao Tribunal do Trabalho da FIFA. O clube foi condenado a pagar a totalidade da dívida, além de uma indemnização por incumprimento. O veredito criou um precedente na defesa dos direitos das mulheres no desporto profissional.
O basquetebol norte-americano também viveu um escândalo de discriminação no mesmo período com Dearica Hamby, sob contrato com as Las Vegas Aces. Quando engravidou do segundo filho, a atleta denunciou ter sido alvo de retaliação por parte da estrutura do clube, sendo acusada de «irresponsabilidade» por treinadores e dirigentes, forçada a abandonar as habitações cedidas pela equipa e, posteriormente, transferida à força.

Hamby avançou com um processo judicial contra a liga profissional de basquetebol feminino e a antiga equipa. O caso abriu um debate sobre a falta de proteção nas ligas profissionais e gerou uma enorme pressão para reformular os acordos coletivos. Como resposta direta a estas falhas sistémicas, ligas como a NWSL — o futebol feminino norte-americano — introduziram cláusulas pioneiras e protetoras, obrigando os clubes a manterem atletas em licença com salvaguarda contratual e a assegurar o apoio necessário à maternidade.

No atletismo e noutros desportos individuais, onde muitas atletas competem sem contratos de clubes e dependem de patrocínios, a maternidade significava o corte imediato de receitas e o fim do suporte financeiro. Contudo, a pressão pública tem forçado uma mudança de postura por parte das marcas desportivas.
Um dos pontos de viragem deu-se após denúncias públicas de atletas de elite, como a corredora norte-americana Allyson Felix, que revelou que a Nike pretendia reduzir o seu patrocínio por ter sido mãe. Esta e outras denúncias obrigaram empresas a reformular as suas políticas de patrocínio. Atualmente, várias marcas já incluem nos contratos cláusulas de proteção que proíbem a redução de valores devido à gravidez, geralmente entre 12 a 18 meses.

As diretrizes internacionais da Women’s Sport Convention estabelecem orientações claras para salvaguardar os direitos e a autonomia das atletas perante a gravidez. Segundo a WSP, a gravidez deve ser tratada como qualquer outra condição médica temporária. O poder de decisão sobre a continuidade da atividade e os limites físicos cabe exclusivamente à atleta em articulação com o seu médico.


Créditos: Federação Portuguesa de Atletismo

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