Ciclo de Cinema Galego-Português resgata voz das mulheres, a terra e a emigração

   Tempo de leitura: 6 minutos

Redação |

Nos dias 26 e 27 de setembro, o Museu de Arte Contemporânea de Vigo foi palco da oitava edição do Ciclo de Cinema Galego-Português promovida pelo Conselho da Cultura Galega em colaboração com o Instituto Camões.

O programa abordou a escrita íntima como arquivo coletivo e político, através de Crías, bem como a recuperação da memória das mulheres ligadas à terra, à emigração e às transformações sociais, mediante Cienfuegos, 1913 e Mulheres, Terra, Revolução.

Crías, de Xiana do Teixeiro, propõe um exercício de reabilitação literária ao imaginar um arquivo para os diários escritos por meninas na adolescência. Partindo de dezenas de documentos cedidos pelas próprias autoras após anos de investigação, a obra cruza a escrita íntima com a vida, explorando a criação e a destruição do texto num processo de revisão contínua.

O filme de 122 minutos transforma estes escritos invisíveis — relegados aos recantos da literatura — num arquivo geracional e num fanzine feminista. A diretora justapõe a força, a violência e a ternura destas primeiras palavras com a estética infantil concebida para as silenciar, como purpurina e cadeados.
Colocando a questão de para quem escrevemos quando o fazemos para nós mesmas, a película aborda a intimidade, o segredo e a construção da própria voz. Ao fazê-lo, recupera as escrituras privadas das mulheres como uma contra-biografia coletiva da adolescência feminina, metamorfoseando vergonhas pessoais em discursos comunitários.

Cienfuegos, 1913, com argumento e realização de Margarita Ledo Andión e Belkis Vega, é uma curta-metragem de 15 minutos que aborda a emigração galega para Cuba e o papel fundamental das mulheres. A obra destaca como os seus corpos e experiências sustentam a história num contexto de desigualdade na posse da terra, foros e pobreza estrutural.

A peça estrutura-se como um exercício de correspondência em formato de vídeo-carta, que arranca quando Margarita Ledo pede a Belkis Vega que filme, Cienfuegos, a cidade natal da sua mãe. Na segunda parte, a realizadora galega explora a sua própria casa familiar na Terra Chá, em Lugo. Trata-se de uma criação profundamente íntima que cruza a memória pessoal, a pegada coletiva, a diáspora e os fortes laços transatlânticos.

Mulheres, Terra e Revolução, de Rita Calvário e Cecília Honório, resgata – em 58 minutos – histórias silenciadas e coloca as trabalhadoras agrícolas no centro do processo revolucionário português. Cruzando fontes escritas e testemunhos orais, o documentário revela como agricultoras, cooperativistas, dirigentes, historiadoras e jornalistas resistiram à ditadura, participaram na Reforma Agrária e transformaram as suas comunidades.

O filme explora o seu papel nas lutas laborais antes, durante e após o PREC. Na primeira parte, foca-se nas reivindicações dos anos 60 por condições dignas, contrapondo memórias de uma infância marcada pela pobreza violenta e pela dupla jornada de trabalho, maternidade e lida doméstica.

Numa segunda fase, com os direitos laborais assegurados, a obra aborda a persistente desigualdade de género dentro da mesma classe. Destaca como o aumento do tempo de repouso permitiu a auto-realização destas mulheres enquanto cidadãs e agentes políticas, abrindo caminho para a busca ativa pela felicidade, pelo lazer e pela liberdade.

As trajetórias das criadoras e investigadoras presentes neste ciclo cruzam-se na urgência de contar o mundo a partir de uma perspetiva crítica, social e enraizada na memória coletiva.

A realizadora e investigadora Xiana do Teixeiro imprime nos seus trabalhos uma matriz feminista e ecologista. O seu olhar sobre os espaços invisibilizados e as violências quotidianas reflete-se em obras como Estrada de sentido único (2015), que mapeia os prostíbulos de estrada, e Todas as mulheres que conheço (2018), focado no medo das jovens perante a ameaça de agressões.

Essa mesma contundência política e histórica atravessa a obra de Margarita Ledo, jornalista, cineasta, catedrática de comunicação audiovisual e primeira decana da Faculdade de Ciências da Informação da Universidade de Santiago de Compostela. Com linhas de investigação voltadas para as teorias feministas, as políticas culturais e a fotografia, Ledo assina marcos do cinema documental como Santa Liberdade (2004), sobre o sequestro do navio Santa Maria em 1961 contra as ditaduras ibéricas, e Nação (2020), que evoca a luta das operárias da fábrica Pontesa através de arquivo, ficção e testemunhos.

O diálogo transatlântico e a vastidão da experiência da emigração galega a Cuba encontram-se entre Margarita Ledo e Belkis Vega, realizadora, argumentista e professora no Instituto Superior de Arte de Havana. Ao longo de mais de quatro décadas, a sua trajetória levou-a desde as frentes de guerra na Àsia Ocidental até escolas de cinema ibero-americanas, somando mais de cinquenta filmes entre o documentário e a ficção.

Completando este painel de análise sobre o território e a sociedade, a investigadora Rita Calvário, do Centro de Estudos Socioeconómicos e Territoriais da Universidade de Lisboa, dedica-se aos movimentos sociais rurais, às mudanças agrárias e às desigualdades de género. Calvário lidera projetos que analisam o papel das mulheres na agricultura em Portugal, na Galiza e no País Basco.

A juntar-se a esta reflexão sobre o mundo rural e político está Cecília Honório, doutorada em História das Ideias Políticas e professora do ensino secundário. Antiga deputada da Assembleia da República, Honório integrou comissões dedicadas a assuntos constitucionais, direitos, liberdades, garantia, ética e igualdade, trazendo para o debate a bagagem da intervenção cívica e parlamentar.

O programa do Ciclo de Cinema Galego-Português completou-se com um workshop de escrita íntima, orientado por Xiana do Teixeiro e, no final das projeções, realizou-se um colóquio com Bruno Tiago Jesus Madeira, professor auxiliar no Departamento de História do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho.

Share