Maria Archer III – Escritora da lusofonia

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Maria Archer tem uma vasta produção literária. Inclusivamente obras ambientadas nos diferentes países da Lusofonia por onde passou a sua vida. Merece, por isso ser tratada como escritora da Lusofonia, pois passou uma boa parte da sua vida nos diferentes países africanos (Moçambique onde morou em criança, Angola casada, Portugal, de onde teve de se exiliar para o Brasil perseguida pela PIDE). Assim diz-nos Elisabeth Batista, da UNEMAT do Brasil:

“ A literatura de Maria Archer singrou as águas do Indico, do Atlântico e aportou no Brasil. Pode-se dizer que, assim como a força unificadora da língua de expressão portuguesa, a sua produção criativa provou ter vocação marítima, pois transpôs os hostis entraves das fronteiras geográficas e passou a ser abertura para o estreitamento dos laços identitários entre os países lusófonos”.

E tem obra dedicada aos diferentes cenários dos países onde morou, além de colaborações em diferentes jornais , quer de Moçambique, quer de Angola ou do Brasil. Pode ser considerada como uma autora da lusofonia.

Ainda encontramos uma referência sua à Galiza, embora esta seja pouco afortunada. No conto “ A Terra chama aos seus homens”, fala-se da Galiza, as suas festas e “Sabats” do outro lado do Minho. O contrabando e os costumes mais relaxados do que em Portugal. É neste que Archer se deleita com a paisagem quer da raia seca, quer da bacia do Lima e do Minho. Os rios como o Leboreiro e as montanhas agrestes são suporte formoso para aventuras perigosas e arriscadas como o contrabando, e de paixões mesquinhas como a traição e as mortes por balas. A autora escolhe este cenário idilico para uma história cruel e amarga.

detalhe no livro Terras onde se fala português (1957)

É linda a descrição que se faz da casa da Bety::

“ A casa da Bety aninhada nos castanheiros, circundada pelos amieiros da beira do rio, tinha o jeito duma pomba branca acolhida à sombra da folhagem”

E o galego Pepe vai ser quem engana a Bety, que crê que vai casar com ele. O Pepe com más artes promete levá-la para Barbantes, mas rouba-lhe o dinheiro todo que ela guardava sob a pedra da lareira.

E o Pepe fala galego. Maria Archer transcreve sua fala:

-“Muitos contos, muller?

-Não contei…

– Y non o terás mal gardado?

-Não te aflijas, onde está bem está…

-Podo axudarte a escondelo mellor”

O Pepe, ladrão, trapaceiro, fala, para Maria Archer, com grafia ao jeito do ILGA-Academia, ou seja à espanhola. Achei isso engraçado, e também fiquei nada contente por ver o papel que desempenha o único galego que sai na sua obra. Certo é que o resto dos homens também não tem condutas muito exemplares, mas o galego de Barbantes é um enganador típico dos que roubam o dinheiro às velhas com palavras melindrosas e promessas impossíveis de casamento. Para mim este é o conto mais galego de todos os que lhe li a M. Archer. Partilha o humor agridoce de Castelão ou Blanco Amor ou mesmo de Risco. Pode até ter certas semelhanças com Valle-Inclán. Diríamos um remedo de “ Os Velhos não devem namorar”, só que neste caso os papéis estão mudados de género. A burlada é a velha, e o jovem é um moço “espertinho” de Barbantes.

Archer tem uma obra vasta cujos títulos podem ser consultada na Wiquipedia e nos diferentes trabalhos que se lhe dedicaram. Muitos destes trabalhos foram recolhidos no volume “ Maria Archer e a partilha do Insensível”, coordenado por Elisabeth Batista e Manuela Aguiar ( Alta Performance, Goiânia, 2022) como a Homenagem aos 40 anos do seu falecimento.

Neste volume aparecem trabalhos de diferentes autorias que vão debulhando1 os diversos aspetos desta autora. Entre eles, assinalo o anexo do Círculo de Culturas lusófonas Maria Archer recolhido por Manuela Aguiar, porque põe em destaque este aspeto de escritora da lusofonia que acho de grande interesse.

Também gostei polo seu carácter de cercania e afetividade o texto de Blanche de Bonaval ( São Paulo) em que refere a sua relação com Maria, enquanto esta morava na sua casa como preceptora:

“ Depois das aulas sentávamos em volta da grande mesa da sala de estudos e líamos trechos dos livros que ela escrevia quando trabalhava em casa: “África sem luz” “Brasil fronteira d’África”.Também escrevia regularmente artigos para grandes Jornais e revistas Paulistas.

E, continua:

“Maria Archer foi muito importante na minha vida porque me ensinou que eu podia, através do meu próprio talento ter uma vida interessante bem remunerada e independente. Também aprendi dela que todas as pessoas precisam de ser respeitadas independentemente da sua cor ou nível social”

Eu acho que este testemunho de uma pupila é muito importante, pois não só mostra o pensamento da autora, como também a sua capacidade para transmitir, por via da pedagogia, os valores sociais que constroem uma sociedade democrática.

Gostei também das referências da sua sobrinha Olga Archer Moreira, ( Só quero um futuro. Maria Archer 1899-1982), onde refere como ela era habilidosa e criativa. Cosia muito bem, sendo capaz de fazer a sua própria roupa e os arranjos que fossem precisos, e também pintava.

Do ponto de vista literário, abordou todos os géneros : Ensaio, romance, contos , relatos, literatura infantil — venceu o prémio de Literatura Infantil Maria Amália Vaz de Carvalho no ano 1938 com o livro de contos “Viagem à Roda de África”.

No campo ideológico Maria foi militante de esquerda próxima do Partido Comunista, e teve um posicionamento comprometido alinhando com Henrique Galvão, militar colonial que voltou de Angola desenganado do regime colonialista e comandou uma revolta contra o regime do Estado Novo de Salazar e o de Franco na Espanha.

A relação entre os dous, está fundamentada não apenas na sua simpatia ideológica , mas também por ser Galvão escritor ( tem varias obras sobre a vida nas colónias e de teatro) e, como ela ser considerado representante da Literatura colonial portuguesa.

“Em 1961, Portugal e o mundo foram surpreendidos com o desvio do paquete de luxo Santa Maria, que navegava a caminho de Miami. O comandante dos revoltosos era Henrique Galvão. O que leva um capitão do Exército, antigo defensor de Salazar, a um gesto desta natureza? Apoiante convicto do Estado Novo, que ajudou a criar ao participar na revolução de 28 de Maio de 1926, Henrique Galvão foi passando de salazarista fervoroso a desiludido pelo rumo da política portuguesa”.

Há um filme de Margarita Ledo Andión chamado Santa Liberdade2, no qual se descreve a tomada do barco Santa Maria pelas mãos de Galvão dos seus aliados galegos. Um filme interessante e bem documentado, que recomendo ver.

Henrique Galvão e os galegos Xosé Velo (Pepe Velo) e José Fernández Vázquez ( Jorge de Soutomaior) lideraram, em Janeiro de 1961, a Operação Dulcinea, o famoso sequestro do transatlântico português Santa María (rebatizado pelos assaltantes como Santa Liberdade). Realizaram esta ação como elementos do DRIL —Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação— para denunciar e desafiar as ditaduras ibéricas de Salazar e Franco.

Maria Archer mostrou publicamente a sua adesão a este movimento, o que lhe custou que as suas obras fossem censuradas e ter de abandonar Portugal e fugir para Brasil.

Exilada no Brasil viveu da sua escrita publicando nos mais importantes jornais de Rio de Janeiro e de São Paulo, mas em Portugal os seus livros foram eliminados do ensino e, tristemente, não foram repostos depois do 25 de abril. Morreu em Portugal na pobreza, num lar em Marvila em 1982, sem ter sido reabilitada social nem intelectualmente. Ainda hoje é difícil encontrar obras dela nas livrarias e mesmo nos alfarrabistas como livro usado.

Maria Isabel de Jesús, escreve:

“ Recordar essa mulher original e cidadã comprometida e discutir o interesse e atualidade da sua obra, são de grande oportunidade no ano em que se comemoram os 50 anos do 25 de abril. Agora, em liberdade . O Portugal em que ela combateu e pelo qual combateu” na feliz evocação de Manuela de Aguiar” (Revisitar Maria Archer, As artes entre as Letras. 17/jan/2024. Nº354. Maria Archer: Nada lhe foi fácil)

A sua sobrinha neta, Olga Archer Moreira, no “Encontro mundial de mulheres na diaspora3” celebrado na Maia em 2011 diz-nos:

“Passados mais de 100 anos, que ficou então? Ficaram os valores e os princípios. Ficaram os fins e os propósitos. Ficou o espírito de pioneirismo”

“ Não é possível que depois de tantos anos de luta, a ideia duma humanidade redimida num mundo justo possa ser sufocada ( carta de Ferreira de Castro, 9 de agosto 1936)”.

Como última homenagem reproduzo o poema “ A morte de Maria Archer” do poeta Sebastião Alba

“Esta melancolia andou desocupada
que há sempre um guizo mudo
o do cordeiro que seus pastos nos evocam.

Direi da minha vida
não é plena mas contém-me
e ao devaneio em que lhe sou infiel
já sem nenhum recato.
Da sua
que uma escápula no asilo
lhe suspendeu pela gola a sombra”


  1. debulhando: explorando. A autora escreve numa variedade de português que inclui particularidades galegas ↩︎
  2. Santa Liberdade: https://www.programaiberme dia.com/proyectos/santa-libertade/ ↩︎
  3. Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas na Diáspora. Novembro 2011 Forum Maia.( Associação de Estudo, cooperação e solidariedade MULHER MIGRANTE) ↩︎

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