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No passado 21 de setembro, faleceu em Lisboa aos 76 anos o cantor, musico e poeta Jorge Palma. A sua partida marca o fecho de um capítulo brilhante da canção e da poesia urbana em Portugal.
O ritual informativo preencheu as redações e as redes sociais de luto. Contaram-se os prémios, os marcos artísticos, somaram-se as notas institucionais e emergiu a memória coletiva de várias gerações que encontraram na sua voz e no seu piano uma bandas sonoras de muitas vidas.
Mas Jorge Palma nunca coube inteiramente nos espaços do poder nem no artifício dos grandes palcos. Trabalhava com a matéria-prima da não perfeição, da madrugada e da fratura urbana que fez do artista um espelho de um país em transição permanente.
As suas mãos de pianista, calejadas pelos anos de estrada não procuraram a precisão académica e a sua voz, funcionava como um diário de bordo em que nos revermos.
Numa era em que a produção musical aposta obsessivamente na correção digital e na perfeição assética, Palma recordava-nos que a verdadeira beleza artística reside na fenda, no erro assumido e na rouquidão áspera de quem viveu, com verdade, o que cantava.
Jorge Palma possuía uma assinatura instrumental e vocal reconhecíveis na primeira nota e no primeiro ataque. Notabilizou-se pela forma como tratava a métrica das suas letras, oscilando com mestria entre o cantar e o falar.
Palma revelou-se sempre um contador de histórias e um letrista nato. Essa faculdade criava as condições perfeitas para dar vida a cenários e personagens, frequentemente vocalizados na primeira pessoa, dotados de uma densidade com a qual o ouvinte se mergulha no amor e no sofrimento do que brotou a canção.
Enquanto a indústria cultural tende a domesticar os seus ícones, transformando-os em produtos inofensivos de consumo rápido, Palma manteve-se obstinadamente incómodo. Num tempo em que uma parte cultura se curva perante algoritmos de popularidade, a sua obra permanece como um manifesto a favor da inconveniência.
Os territórios de Jorge Palma eram um geografia partilhada por quem tenha conhecido o peso da ditadura, a esperança da liberdade e a desordem do desenvolvimento. O cancioneiro de Palma provou que a boa literatura urbana se faz sempre a partir da escuta atenta dos marginais e das periferias.
Agora que o piano silenciou, fica a certeza deixada pelos seus versos: enquanto houver vento, mar e memória crítica, a gente não vai parar de tropeçar, de cair e de recomeçar a cantar: a gente não vai deixar de se sentir frágil.
Fotografias: Redes Sociais Jorge Palma





