Canal Pinglu, a nova rota da China para o Sudeste Asiático

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A China inaugurou no passado dia 16 de setembro o seu primeiro canal rio-mar moderno, após aproximadamente quatro anos de obras. Esta grande infraestrutura faz parte dos projetos estratégicos fundamentais do 14.º Plano Quinquenal do país.

O seu principal objetivo é reduzir as distâncias marítimas entre o interior do sul chinês e o Sudeste Asiático. Localizada em Guangxi — região que faz fronteira com o Vietname e se abre para o Mar da China Meridional —, a nova hidrovia de 134 km liga o rio Xijiang ao Golfo de Beibu. Seu custo estimado é de cerca de 72,7 bilhões de yuans.

O canal representa uma rota mais curta para o mar e para os mercados do Sudeste Asiático, encurtando em cerca de 560 km a distância. Esta hidrovia integra o Novo Corredor Internacional de Comércio Terrestre-Marítimo, que por sua vez faz parte da Iniciativa Cinturão e Rota — uma vasta rede global de rodovias, portos e ferrovias que visa ligar a China à Europa e a África.

Estima-se que o canal reduza os custos logísticos entre 18% e 30%, com projeções oficiais a apontarem para uma diminuição de mais de 5 mil milhões de yuans anualmente apenas nos custos de transporte. Além disto, a infraestrutura foi concebida para permitir a passagem de navios com capacidade até 5.000 toneladas.

Para vencer o terreno montanhoso ao longo do seu trajeto, a escavação da obra atingiu 315 milhões de m3, enquanto o despejo de betão para os três complexos de eclusas em cascata alcançou 5,84 milhões de m3. Estas estruturas conseguem gerir uma queda no nível da água de aproximadamente 65 metros, sendo essenciais para a navegação segura das embarcações.

O projeto inclui ainda centros de controlo de comportas com mais de 100 metros de largura, três hubs de eclusas de duas pistas, 27 pontes recém-construídas ou reconstruídas e diversas instalações de apoio.

“Ao contrário dos canais de Suez ou do Panamá, o Canal Pinglu foi projetado como uma via navegável moderna e multifuncional que integra navegação, controle de enchentes, abastecimento de água, irrigação e preservação ecológica”, explicou disse Yan Qiang, diretor do departamento de informação científica e tecnológica do Grupo do Canal de Pinglu. “Construir um sistema tão complexo sob prazos apertados, dentro de terrenos desafiadores e restrições ambientais rigorosas, tem sido um desafio de engenharia formidável.”

Para além da vertente de transporte, o projeto deu origem ao Cinturão Económico do Canal Pinglu, concebido para atrair e expandir indústrias ao longo do novo corredor, ligando-as diretamente a portos, redes de transporte e cadeias de abastecimento.

Foram também desenvolvidas zonas industriais perto dos portos para aproximar os locais de produção dos centros de navegação. Para incentivar a utilização da rota, Guangxi adotou um sistema de taxas de trânsito escalonadas: até 31 de dezembro de 2026, a circulação para embarcações comerciais é totalmente gratuita, enquanto entre 2027 e setembro de 2031 passará a ser aplicada uma taxa calculada com base na capacidade de tonelagem de cada embarcação.

Estas mudanças ocorrem num momento de rápido crescimento do comércio entre a China e o Sudeste Asiático: segundo a Administração Geral das Alfândegas da China, o intercâmbio bilateral no primeiro semestre de 2026 alcançou cerca de 4,34 biliões de yuans, registando um aumento de 18,2% em relação ao período homólogo.

No extremo sul do canal, o Porto do Golfo de Beibu tem acompanhado esta expansão, vendo a sua capacidade de movimentação de contentores disparar de 2,28 milhões de TEU em 2017 para 10,06 milhões de TEU em 2025, sustentada por uma rede de navegação que já cobre os principais portos do Sudeste Asiático.

Para Koh King Kee, presidente do think tank malaio Centre for New Inclusive Asia e observador de longa data da cooperação China-ASEAN, a verdadeira dimensão histórica da infraestrutura reside no facto de «fortalecer as conexões entre o interior sudoeste da China e as economias marítimas dos países da ASEAN».

O especialista salienta ainda que, num momento em que «os riscos de fragmentação económica global aumentam devido à competição geoestratégica entre grandes potências, a estabilidade e previsibilidade da cooperação China-ASEAN servem como a pedra de lastro da estabilidade e prosperidade regionais», sendo o Canal Pinglu a nova ligação de transporte capaz de apoiar e consolidar esses laços económicos.

Esta forte ligação económica apoia-se numa dinâmica de interdependência produtiva: os países da ASEAN produzem matérias-primas, componentes e bens intermediários que são exportados para a China para processamento, integrando assim ambas as partes nas mesmas cadeias globais de valor e de suprimentos interconectadas.

A solidez desta parceria reflete-se nos números oficiais — a China mantém-se como o maior parceiro comercial da ASEAN desde 2009, enquanto a ASEAN ocupa a mesma posição de liderança face à China há seis anos consecutivos, representando 21,8% do comércio externo total chinês.

“O transporte por via navegável interior oferece vantagens substanciais sobre ferrovia e estrada. Ela lida com volumes maiores de carga, custos mais baixos e redução das emissões, tornando-se um elemento crítico na otimização da infraestrutura de transporte da China”, disse Yan Qiang.

Yan enfatizou que a construção do canal é impulsionada por seu valor estratégico significativo e único. “Uma vez operacional, isso aumentará muito a eficiência do comércio entre Guangxi, sudoeste da China, ASEAN e além. Comparado à rota pelo Porto de Guangzhou, o canal encurtará a viagem em mais de 560 quilômetros e economizará mais de 5,2 bilhões de yuans em custos anuais de frete.”

A reta final para a abertura da hidrovia foi marcada por marcos técnicos cruciais ao longo de meados de 2026. A 3 de junho, o canal conseguiu a passagem de água em todo o seu percurso, entrando na respetiva fase de testes hídricos.

Em agosto, arrancaram os testes com embarcações reais e, a 28 de agosto, a infraestrutura passou com sucesso na aceitação da entrega da obra — atingindo um progresso global superior a 98% —, ao mesmo tempo que a Plataforma Integrada de Despacho Inteligente do Rio Guangxi e do Transporte Marítimo entrou totalmente em comissionamento de testes. Por fim, a 3 de setembro, realizou-se o maior e mais abrangente exercício de navegação de todos os elementos antes da inauguração oficial.

Segundo fontes oficiais, o processo de reassentamento afetou 2.764 famílias (um total de 11.228 pessoas) em quatro condados e cidades de Guangxi. Concluída em apenas 39 dias, a operação incluiu compensações financeiras, apoio à formação profissional, promessas de emprego e a criação de 21 modelos habitacionais diferentes para respeitar os costumes locais. No entanto, persiste um sentimento de perda entre muitos moradores, ainda que atenuado pela esperança no futuro.

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