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A pele do peixe tilápia para o tratamento de queimaduras está prestes a ganhar escala industrial no Brasil. Um novo empreendimento empresarial prevê a instalação de uma fábrica no município de Jaguaribara, no sertão cearense, com previsão de início das operações para 2028.
De acordo com as projeções iniciais, a unidade fabril deverá produzir cerca de 4.500 curativos biológicos por dia na fase de lançamento, com potencial para expandir a capacidade de produção até 13 mil unidades diárias no segundo ano de funcionamento.
As investigações brasileiras com a pele da tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus) como curativo biológico consolidou-se como uma das maiores inovações da medicina regenerativa mundial nas últimas décadas.
O grande fundamento científico da investigação reside no alto teor de colágeno da pele da tilápia, com destaque para o tipo I. Essa concentração apresenta uma semelhança notável com a estrutura da pele humana, conferindo ao material excelente resistência tanto à tração quanto à compressão.
Além disso, atua como um biocurativo oclusivo altamente eficaz na retenção de humidade e proteção da área afetada. Ele impede a perda excessiva de líquidos e proteínas — um quadro clínico crítico em pacientes com grandes queimaduras —, ao mesmo tempo em que funciona como uma barreira segura contra bactérias e contaminações externas.
Destaca-se também a significativa redução da dor e da necessidade de intervenções frequentes no tratamento. Graças à sua aderência firme à ferida, o curativo diminui a frequência de trocas diárias — que, nos métodos tradicionais com sulfadiazina de prata, provocam intensa dor e trauma psicológico —, o que resulta também em uma diminuição direta no uso de analgésicos e opioides.
Outro aspecto fundamental é a aceleração da cicatrização, comprovada por estudos clínicos que demonstraram a eficácia do xenoenxerto. O uso desse material promove uma reepitelização rápida e eficiente, especialmente em casos de queimaduras de segundo e terceiro graus.
Hoje, essa inovação não se limita apenas a queimaduras ela também vem sendo estudada com sucesso em cirurgias reconstrutoras ginecológicas, feridas crónicas – como úlceras de pé diabético – e na medicina veterinária.
Marcos e evolução da investigação
A ideia de usar a pele da tilápia no tratamento de queimaduras nasceu em 2011, quando o cirurgião plástico pernambucano Marcelo Borges assistiu a uma reportagem mostrando que esse tecido era um subproduto descartado, com apenas 1% de aproveitamento no artesanato local. Contudo, o médico só conseguiu viabilizar a pesquisa em 2014, após firmar uma parceria com o presidente do Instituto de Apoio ao Queimado.
O ponto de partida das investigações começou sob a liderança do Dr. Edmar Maciel e de uma equipa de cientistas da Universidade Federal do Ceará. Em um esforço conjunto com o Instituto de Apoio ao Queimado e o Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos, a pesquisa nasceu de uma necessidade urgente. Essa urgência consistia na drástica carência de pele humana e de xenoenxertos (pele suína) nos bancos de tecidos do país para o atendimento a pacientes com queimaduras graves.
Seguiram em 2015-2016 análises laboratoriais e microbiológicas. Estudos físico-químicos e histológicos comprovaram que a pele da tilápia possui alta resistência à tração e uma quantidade elevada de colágeno dos tipos I e III, proteínas fundamentais para a cicatrização. Além disso, testes rigorosos demonstraram a ausência de transmissão de patógenos, assegurada por um processo minucioso de esterilização que utiliza glicerol associado à irradiação.
Em 2016 começaram os ensaios clínicos em humanos. A primeira aplicação do curativo biológico realizou-se no Instituto Dr. José Frota, situado em Fortaleza. Os resultados superaram as expectativas, demonstrando uma regeneração altamente eficaz em casos de queimaduras de segundo e terceiro graus, tanto em adultos quanto em crianças.
Fotografia: Instagram/ Pele de Tilápia





