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No 12 de setembro, a Biblioteca Amílcar Cabral, em Bolonha, sediou o encontro “Il Pensiero, le Lettere, la Rivoluzione: I 100 Anni di Amílcar Cabral”. O evento explorou a trajetória humana, intelectual e política do líder da libertação da Guiné-Bissau e de Cabo Verde.
O painel principal reuniu Filinto Elísio – poeta e da Academia Cabo-Verdiana de Letras – e Márcia Souto, responsáveis pela editora Rosa de Porcelana, reconhecida pela curadoria e publicação da correspondência de Cabral.
O diálogo contou também com a participação dos académicos Elisa Alberani e Vincenzo Russo – ambos da Università degli Studi di Milano – e Alessia Di Eugenio e Roberto Vecchi – os dois da Università di Bologna – que examinaram os laços históricos entre as lutas africanas e o anticolonialismo italiano.
Vida, praxe e pensamento
Nascido em 1924, em Bafatá (Guiné-Bissau), Amílcar Cabral foi o ideólogo e um dos líderes anticoloniais mais influentes do século XX. Como cofundador do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) em 1956, liderou a luta armada e política contra o colonialismo português, articulando a libertação com um profundo projeto de emancipação cultural e social.
Para Cabral, a verdadeira libertação ia além da independência e da expulsão do colonizador, exigindo uma transformação profunda das estruturas sociais e mentais. O seu pensamento articulava a emancipação económica com a valorização da cultura autóctone, que encarava como a arma fundamental de resistência contra a dominação colonial.
Paralelamente, defendia que a soberania só se consumava se o povo assumisse plenamente o controlo da sua história, da sua terra e dos seus recursos. A sua visão humanista e coletiva continua a interpelar os debates contemporâneos sobre justiça social, soberania dos povos e descolonização.
Amílcar Cabral foi assassinado em janeiro de 1973, em Conacri, por dissidentes do PAIGC em articulação com a PIDE portuguesa.
A escrita de Amílcar Cabral: da poesia à estratégia revolucionária
Entre as publicações que sistematizam o seu pensamento político, filosófico e estratégico destaca-se “Unidade e Luta”, lançada em Lisboa pela Seara Nova em 1977. Coordenada por Mário Pinto de Andrade, a obra divide-se em dois volumes. O primeiro – A Arma da Teoria – agrupa os ensaios e discursos teóricos nos quais Cabral cunhou conceitos como a centralidade da cultura e da história na descolonização; o segundo – A Prática Revolucionária – reúne textos estratégicos, diretrizes políticas, relatórios militares e orientações operacionais aplicadas no terreno pelo PAIGC.
O ensaio “Nacionalismo e Cultura” – dedicado ao papel da identidade e da cultura autóctone como instrumentos de resistência – foi publicada em 1975, integrada na edição Unité et Lutte pela editora François Maspero, em Paris, surgindo posteriormente na histórica edição portuguesa de Unidade e Luta em 1977. A obra encontrou também espaço na Galiza, com a publicação pela Edicions Laiovento, em Santiago de Compostela, no ano de 1999, numa edição organizada por Xosé Lois García.
A este marco editorial junta-se “A Luta Criou Raízes”, uma recolha publicada pela Fundação Amílcar Cabral que compila intervenções, entrevistas, reflexões e artigos produzidos entre 1964 e 1973, em tempo de guerra.
A faceta literária e lírica de Amílcar Cabral fica patente em “Emergência da Poesia em Amílcar Cabral: 30 Poemas”, organizada por Oswaldo Osório, publicada originalmente pela cabo-verdiana Grafedito em 1980.
Memória viva
Para além do seu impacto histórico e teórico, a memória de Cabral permanece viva através de espaços de relevo que homenageiam o seu legado. Entre eles destacam-se a Universidade Amílcar Cabral, principal instituição pública de ensino superior da Guiné-Bissau e o Aeroporto Internacional Amílcar Cabral, em Cabo Verde.
A estes somam-se a Biblioteca Amílcar Cabral em Bolonha, Itália, que atua como centro de documentação e estudos dedicado a movimentos anticoloniais e direitos humanos, e a Fundação Amílcar Cabral, sediada na Praia, dedicada à preservação, estudo e difusão do seu pensamento e espólio documental.
A rede de homenagens estende-se ainda a estruturas como o Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral em Portugal, o Liceu Amílcar Cabral em Santa Catarina, além de comités de solidariedade internacional e centros culturais na Europa e em África.
Fotografia: Bruna Polimeni (1971), Fundação Mário Soares e Maria Barroso.





