Conheci a obra e a vida de Maria Archer através da doutora Manuela Aguiar, ilustre intelectual e política portuguesa. Professora de Direito na Universidade de Coimbra e com diversos cargos políticos, nomeadamente pelo que diz respeito à problemática da mulher migrante1.
Maria Archer foi uma mulher migrante por força das suas ideias políticas e como consequência da pressão a que foi submetida pola2 censura do governo do Estado Novo de Salazar. Seus livros foram proibidos e passou também a encontrar dificuldades para qualquer das suas publicações. Vivia delas, como jornalista e escritora.
Segundo ela mesma declara: “Vim para o Brasil, porque já não podia viver em Portugal. A acção da censura axfisiou-me e tirou-me os meios de vida. Apreenderam-me dois livros publicados, assaltaram-me a casa com polícias e levaram-me um original que ainda estava a escrever, violência inédita em países de civilização europeia3”
Em Maria Archer confluem a rebeldia social com a revolta contra a situação repressiva do Estado Novo em Portugal e a rebeldia feminista que a posiciona contra a situação da mulher portuguesa de total dependência do homem e tratada como um ser infantil e desvalorizado.
Achei que essa duas circunstâncias tornavam muito atraente a figura desta ilustre, avançada e prolífica escritora, ao ponto de fazer uma tentativa de compreensão do seu mundo e, ainda do seu relacionamento com a sociedade galega do seu tempo e do mundo da lusofonia, para estabelecer pontes culturais. Maria Archer viveu em quase todos os países hoje chamados PALOPS, no seu tempo colónias portuguesas, e lá escreveu uma grande parte da sua obra, que não se esquivou ao compromisso com a sociedade em que viveu, como seria de esperar de uma mulher comprometida com o seu tempo e a sociedade.
A respeito do mundo da mulher migrante que Maria Archer viveu, é oportuno relacionar este fenómeno social com Galiza. Cá sabemos muito de emigração e também de mulheres que tiveram a coragem de partir para outros destinos longe da Terra com o intuito de defenderem a família. Há muita literatura galega a respeito da emigração, nomeadamente desde o século XIX :
Rosalia, Curros, Celso Emilio e um longo elenco de escritores e escritoras têm-se ocupado largamente sobre a matéria. Tentarei, neste trabalho fazer uma referência da faceta da Escritora Maria Archer junto da problemática da mulher migrante que defende a doutora Manuela Aguiar, e na qual ela tem trabalhado a partir das instâncias governamentais portuguesas.
E, como não, também incorporar esta problemática no espaço luso-galaico. Isto porque o modelo de sociedade e a estrutura político-social de Portugal e da Galiza guardam muitas semelhanças que vão além da simples coincidência linguística. Aquelas que atingem a história, situação socioeconómica, os costumes, a cultura e um longo paralelismo ambiental.
A respeito da emigração galega do século XX realizada de preferência a Europa, o livro mais interessante é o Galegos de Londres de Carlos Durão, ( Edicions do Castro 1978) a quem vai dedicar uma homenagem a Academia Galega da Língua Portuguesa no mês de Outubro 2026.( Obra e Personagem).
Nesta obra, embora seja fulcral para compreender e conhecer o fenómeno da emigração galega para a Europa e para Londres, o nosso escritor não trata a problemática específica da mulher migrante, mas sim dos emigrantes galegos em geral. São os homens quem têm o protagonismo do livro, aparecendo as mulheres pouco citadas e mais como tela de fundo que outra cousa. Apenas Lucrecia, nomeada como a mulher de Touza que, como a maioria das mulheres, trabalha fora e dentro de casa onde desenvolve o papel de dona de casa ocupando-se da intendência de jeito natural como era costume nas mulheres galegas — o que torna a vida muito mais agradável aos homens, mas não às mulheres. Aparecem Balbina, Tourona, e Mercê que traz a problemática do filho deficiente que resulta um drama para quem parte da sua terra com o intuito de “fazer uns cartinhos4” para voltar para Galiza e poder construir uma casinha e montar um bar ou outra pequena empresa na Terra. E que soma a sua problemática à geral da família. Mas, para e época de que estamos a falar, também mostra como a sociedade Inglesa era muito mais assistencial do que era a espanhola ou a galega naqueles tempos, dando apoio à criança com deficiência.
A obra Virtudes (e misterios) do galego Xesús Fraga, (Galaxia 2020) constitui também um notável testemunho da diáspora galega feminina em Londres. Protagonizada por mulheres que partem para fora da sua Terra e arrastam consigo a sua família — no papel da sua avó. Em muitos casos deixam as crianças ao cuidado dos pais na casa familiar.
No segundo quartel do século XX isto foi bastante frequente na Galiza. E em Portugal. A epopeia do povo português e galego a emigrar para a Europa no século XX é de grande semelhança. Sabemos que este “abandono” das crianças deixadas nas mãos dos “mais velhos” gerou traumas e carências afetivas em muitas pessoas de ambos países, na geração dos anos 70. Anos da emigração massiva a países europeus. Além de desenraizamento familiar, caso bastante frequente no povo galego para a faixa etária dos 50 anos na atualidade.
Eu tive a oportunidade de viver uma experiência muito particular quando viajei pola primeira vez à França. Ia num autocarro chamado ANPIAN5 que tinha linha direta Santiago-Paris. Ao chegarmos a Ourense subiu um contingente de migrantes portugueses, de maneira que posso afirmar que, aos meus 16 anos, ( em 1964) tive a primeira experiência de encontro entre estes dois mundos. Comprovei o que me tinham ensinado em casa. A identidade linguística e cultural entre galegos e portugueses. E o comportamento semelhante de ambos os povos perante o desafio de superar a situação adversa em que as ditaduras da Península Ibérica ( Salazar e Franco) os tinham submetido.
Normalmente, neste género de emigração iam os dois elementos do casal para o estrangeiro. Mas também se deu o caso, bastante frequente de ser a mulher a migrar, como o caso referido na obra de Xesús Fraga.
No poema “Um adeus a Mariquinha” de Curros Enriquez, fala-se também da emigração a partir de uma perspetiva feminina. ( “Coma ti vais p’ra longe e eu vou p’ra velho, um adeus Mariquinha mandar-che quero..”) Este poema é um caso excecional dentro da lírica galega do seu tempo, pois até então dominava, na literatura, o apelo ao drama vivido por emigrantes homens ( “Este vai-se, aquele vai-se e todos todos se vão” de Rosalia de Castro. Poema muito valorizado em Portugal onde foi musicada. (“ Este parte e aquele parte, e todos todos se vão. Galiza ficas sem homens , que possam ceifar teu pão..” )
Um pranto por aqueles que deixam o lar e por quem fica, polas viúvas de vivos e mortos que ninguém consolará.
Manuela Aguiar colocou-me perante o drama da emigração feminina portuguesa depois de ter coordenado diferentes atividades em torno da “ Mulher migrante” e sendo assim tomando como exemplo o percurso vital de Maria Archer.
Nos tempos da pandemia fazíamos encontros virtuais um grupo de poetas galegas e portuguesas coordenados pola escritora de Espinho Esther de Sousa Sáa aos que também assistia Manuela Aguiar, emprestando-nos a sua casa e sua ligação a ZOOM para fazermos os encontros poéticos virtuais. E, com frequência, participava ela também destes encontros poéticos.
Leituras poéticas e informação sobre Maria Archer e os trabalhos sobre a mulher migrante que a Doutora Manuela Aguiar tinha coordenado desde o seu cargo de Secretária de Estado e representante de Portugal perante o Conselho da Europa para as Migrações.
Na minha descoberta de Maria Archer despertaram-se em mim interesses confluentes sobre toda a problemática que envolve a figura. Escritora feminista, destacada militante de esquerdas, interessada polos diferentes países da Lusofonia em que passou importantes etapas da sua vida: Moçambique, Angola, Portugal e Brasil. Só lhe faltou a Galiza, mas veremos que teve relações políticas com galegos apoiando certos atos de rebeldia bem significados como o assalto ao barco Santa Maria. Para não misturar diferentes temáticas deixarei este episódio para mais adiante.
(II parte na próxima semana)
- Maria Manuela Aguiar:https://pt.wikipedia.org/wiki/Manuela_Aguiar ↩︎
- pela. A autora escreve numa variedade de português com particularidades galegas ↩︎
- Salvato Trigo, Em destaque. Revista As artes e as Letras.Jan 2024. ↩︎
- juntar uns tostões, arranjar dinheiro ↩︎
- ANPIAN são as siglas de António Pinha Antón ( 1916-2026). Empresário de Ourense que criou esta linha de transportes. ↩︎



