Sob pressão do sector elétrico o governo espanhol prorrogou até 2030 a licença de exploração de central nuclear a 100 km de Portugal. Ambientalistas acusam o executivo de quebrar compromissos eleitorais.
Redação |
No passado agosto, o governo espanhol prorrogou a licença de exploração da central nuclear de Almaraz (Cáceres) até 2030. De acordo com o Executivo, a extensão é segura sob o ponto de vista radiológico e da garantia de abastecimento elétrico.
Com esta decisão, o Governo procura proteger os consumidores e evitar aumentos drásticos nas faturas de eletricidade. De acordo com o comunicado oficial, o plano da transição energética não sofre alterações, mantendo-se o encerramento definitivo do parque nuclear agendado para 2035.
A sociedade gestora — composta pela Iberdrola (52,7%), Endesa (36%) e Naturgy (11,3%) — considerou a decisão um reconhecimento pelo trabalho e pelos investimentos em segurança e modernização, reafirmando o compromisso com uma operação fiável e eficiente.
As proprietárias destacam que o complexo é essencial para o abastecimento e asseguram que a infraestrutura possui condições para operar até aos 80 anos. Contudo, as elétricas mantêm a reivindicação de uma redução da carga fiscal para garantir a viabilidade económica a longo prazo.
Sem a publicação de contas, os relatórios de atividade e dados fiscais das empresas permitem estimar a sua dimensão económica. Em 2025, o complexo registou uma produção que responde por cerca de 7% da procura elétrica no estado espanhol. Com base nas cotações médias do mercado elétrico ibérico, esta produção representa uma faturação bruta anual estimada entre 800 e 1.200 milhões de euros, estando a margem final sujeita a custos operacionais, investimentos e encargos fiscais.
O anúncio da prorrogação gerou divergências entre os partidos do governo. O PSOE defende a medida com base no pragmatismo técnico e no combate à volatilidade internacional. Em sentido oposto, o Sumar rejeitou a decisão por considerá-la uma cedência ao oligopólio elétrico e um obstáculo às energias renováveis.
À direita, o Partido Popular celebrou o recuo governamental como uma vitória para o emprego regional e defendeu a extensão prolongada de todo o setor. Regionalmente, a Junta de Extremadura manifestou alívio e satisfação pela preservação de postos de trabalho e pela estabilidade socioeconómica assegurada.
Em Portugal, Almaraz, gera historicamente preocupação ambiental e diplomática. A posição do arco parlamentar é predominantemente crítica e transpartidária, exigindo de Madrid transparência e o cumprimento dos prazos de desativação.
Na sociedade civil, residentes do Alto Alentejo e a Beira Baixa mantêm apreensão histórica quanto à segurança operacional e ao armazenamento de resíduos. Paralelamente, coletivos ambientalistas classificam a infraestrutura como obsoleta e perigosa devido aos riscos radiológicos.
Uma destas organizações, a espanhola Ecologistas en Acción denunciou fraude e traição à cidadania, acusando o governo de blindar as elétricas e quebrar compromissos eleitorais. Para a ONG, a medida perpetua um modelo ultrapassado, sobrecarrega a sociedade e paralisa a transição verde. A associação criticou reproduzir argumentos pró-nucleares e denunciou que o executivo ignora deliberadamente falhas críticas priorizando interesses corporativos em detrimento da segurança e do abastecimento.
A Greenpeace classificou a prorrogação como um erro histórico e uma cedência ao oligopólio elétrico que garantirá receitas anuais milionárias às empresas. Segundo a ONG, o prolongamento custará 3.800 milhões de euros aos contribuintes e bloqueará 26.000 milhões em investimentos renováveis.
A associação ambientalista ZERO manifestou oposição à prorrogação exigindo que o Governo português adote uma postura crítica e leve o tema à Cimeira Luso-Espanhola. A organização insta Lisboa a cobrar de Madrid o cumprimento do calendário de fecho e a garantir transparência sobre a segurança operacional. Propõe ainda um plano luso-espanhol de flexibilidade elétrica para reduzir a dependência do gás.
O Movimento Ibérico Antinuclear exigiu ao governo espanhol uma Avaliação de Impacte Ambiental Transfronteiriça ameaçando recorrer à Comissão Europeia caso o pedido seja ignorado. Para a plataforma, a decisão de prolongar a atividade reflete a pressão da indústria nuclear e criticou a ausência de debate público, detalhou falhas de segurança e manifestou total oposição ao alargamento do funcionamento do complexo.
O Partido Ecologista “Os Verdes” endereçou uma carta aberta à Ministra do Ambiente e Energia, a apelar para que o executivo diligencie junto do governo espanhol a rejeição à prorrogação. Para “Os Verdes”, prolongar o período de atividade mantém uma ameaça à porta, em particular nos distritos de Castelo Branco e Portalegre, estendendo-se as populações da bacia do Tejo, nomeadamente de Santarém, Setúbal e Lisboa.
Encerramento de nucleares no mundo
Desde o início da utilização civil da energia nuclear em 1954, 218 reatores cessaram a atividade definitivamente. Destes, apenas 2 ultrapassaram a barreira dos 50 anos de vida útil, ambos no Canadá.
Entre 1954 e 2024, a idade média global de encerramento situou-se nos 28,7 anos. No entanto, analisando o período 2020-2024, verificou-se a desconexão da rede de 28 reatores nucleares, registando um tempo médio de operação superior aos 43 anos.
No contexto espanhol, o plano de encerramento prevê o fim da exploração do parque nuclear entre 2027 e 2035, momento em que a idade média dos reatores superará os 46 anos, superando a média histórica global e a média de 43,2 anos dos encerramentos nos últimos cinco anos.
Créditos: GreenPeace



