Redação |
Investigações académicas, relatórios climáticos e a prática apícola, apontam para alterações profundas nos ciclos ecológicos, o aumento do stresse térmico e o desfasamento na floração como as causas diretas que começam a antecipar a recolha do mel.
Os estudos demonstram a tendência de antecipação do início da floração em espécies nectarmelíferas chave como o eucalipto, o castanheiro, a urze ou o tojo. O aumento da temperatura média na primavera provoca um pico de néctar mais precoce e uma interrupção abruta da secreção durante as secas estivais.
O stresse térmico também se faz sentir, pois as abelhas gastam mais energia a regular a temperatura da colmeia e encontram maiores dificuldades na recolha. Além disso, as alterações nos ciclos biogeoquímicos, através da composição dos solos e da humidade, alteram a secreção de néctar, modificando a quantidade e a qualidade do produto final.
O impacto destas mudanças já se faz sentir no terreno. A apicultora Fé Sixto – responsável pela marca O Trobo e pelo Museu do Mel no Valadouro – explica em La Voz de Galicia que as alterações climáticas e as anomalias térmicas estão a alterar o ciclo natural das abelhas e da flora, obrigando a adiantar os trabalhos de colheita.
Estas observações práticas dos apicultores encontram respaldo na ciência através de investigações recentes. Um estudo de Peter Neumann e Lars Straub, publicado no Journal Apicultural Research em 2023, analisou os impactos ambientais no setor. Os autores concluíram que, embora a abelha melífera ocidental possua uma notável capacidade de adaptação, as alterações climáticas representam uma ameaça real e crescente para a apicultura mundial.
O estudo destaca que eventos climáticos extremos e desastres naturais tornaram-se mais frequentes, elevando os riscos de perda de colmeias. Além disso, o aumento das temperaturas tende a agravar o impacto de ácaros e vírus sobre as colónias. Paralelamente, espécies invasoras como o pequeno besouro da colmeia e a vespa asiática estão a beneficiar-se das novas condições ambientais.
Do mesmo modo, as alterações nos regimes de precipitação e os períodos de seca prolongada reduzem a disponibilidade de recursos alimentares para as abelhas. Por sua vez, tanto a escassez hídrica extrema quanto o excesso de humidade comprometem diretamente a quantidade e a qualidade do pólen. Somado a isso, invernos mais amenos geram uma quebra na harmonia entre plantas e polinizadores. Ao produzirem cria mais cedo na estação, as abelhas frequentemente não encontram alimento suficiente.
Apesar do panorama adverso, o estudo conclui que a crescente conscientização sobre a importância dos polinizadores abre espaço para ações. O estudo aponta iniciativas que podem mitigar esses impactos, como o plantio de árvores para ampliar a sombra nas colmeias, o realocação das mesmas para zonas mais frias ou de maior altitude ao longo da estação, e a promoção de habitats naturais junto à restauração da flora local.
Créditos: Associação Brasileira de Estudos de Abelhas





