Vilar de Perdizes celebrou 40 anos de medicinas ancestrais

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Redação |

A 40ª edição do Congresso de Medicina Popular de Vilar de Perdizes encerrou com uma homenagem ao fundador e foco no futuro. O evento preparou a transição para o projetado Centro de Estudos de Medicina Popular e Misticismo, ambicionando também o estatuto de Património Cultural Imaterial.

Sob o lema «Uma tradição de cura», o evento foi organizado pela Associação de Defesa do Património de Vilar de Perdizes, com a colaboração da União de Freguesias de Vilar de Perdizes e Meixide e da Câmara Municipal de Montalegre.

A iniciativa serviu para prestar homenagem ao Padre António Fontes que, em 1983, lançou o projeto com o objetivo de valorizar a medicina popular e o papel das plantas no combate às doenças. A junção do sagrado e do popular, conferiu ao longo quatro décadas a atual notoriedade ao congresso.

Relativamente à candidatura para a inclusão do Congresso no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, intenção anunciada há dois anos, Rafael Vilamarim adiantou que está a ser concluído o dossiê necessário para a submissão final da proposta.

O arranque, no dia 28, incluiu a exibição do filme «A terra dos últimos homens», de Carlos Pires, e a transmissão da reportagem do canal francês Arte intitulada «Dans le nord du Portugal, les sorciéres veillent (Invitation au voyage – Arte)», da responsabilidade de Elisa Helain.

Seguiu-se um debate focado no tema «O poder da comunidade: voluntariado, tradição e o futuro das aldeias», com representantes das associações Vezeira, O Fiadeiro de Pitões, e da Associação de Defesa do Património de Vilar de Perdizes.

O programa destacou ainda a apresentação do livro “Inverno mágico – Ritos e mistérios raianos, de António Pinelo, bem como o tema “Das raízes ao futuro: 40 edições de Congresso Medicina Popular”, que promoveu uma conversa com protagonistas dos primeiros congressos, antigos membros da cooperativa de plantas medicinais Carqueja e os atuais organizadores. Tanto a apresentação da obra quanto o debate foram moderados por Maria José Afonso.

As atividades do segundo dia incluíram a demonstração da elaboração do pão em forno comunitário, a abertura das exposições dedicadas às plantas medicinais e à pintura e escultura de Celestino Gomes.

A manhã prosseguiu com várias oficinas, nomeadamente «Remédios esquecidos: Elaboração de plantas medicinais, conhecimento popular e receitas da botica antiga», orientada pela galega Maria Bagaria; «Desenho realista para adultos», com David Duarte; «Cura de padrões amorosos e relações conscientes», com Cristiana Oliveira; e «Taças tibetanas e gongos – O poder do som e vibração», dinamizada por Lurdes Barreto.

O painel dedicado à linguagem das plantas, simbolismos, rituais e saberes ancestrais, contou com intervenções de Rafael Quintía, da UNED de Ponte Vedra, com o tema «Que podemos aprender da medicina popular»; Joana Vitória Martins, abordando «Porque nos separámos da natureza? A relação com as plantas como um ato de soberania»; Pilar Silva, sobre «Plantas medicinais e remédios curativos da etnobotânica galega»; e o professor emérito da UTAD José Alves, com a reflexão «As plantas nos simbolismos e nos rituais humanos».

Ainda durante a tarde realizaram-se oficinas de arte em cerâmica, orientadas por Pedro Silva e de impressão botânica sobre a arte de estampar a natureza, com Olívia Ferrari. Teve também lugar a apresentação do livro «Mulher Terra, Cura Feminina: Um guia para a consciência e o empoderamento da saúde da mulher», da autoria de Joana Vitória Martins.

O programa também aprofundou na vertente da consciência, equilíbrio e integração interior através das intervenções de Catarina de Sousa, sobre regulação emocional e a compreensão da linguagem do sistema nervoso; Cristiana Oliveira, abordando a transição da emoção à consciência e a espiritualidade como caminho de presença; e Vera Santos, que explorou a dimensão invisível da cura focada na consciência e espiritualidade.

A componente artística e comunitária marcou a tarde com os contributos de Marcelino de Sousa, professor doutor aposentado da UTAD, com a reflexão «O Teatro é uma necessidade humana»; Daniela Mota, doutoranda da Universidade do Minho, sobre as práticas artísticas comunitárias como espaços de criatividade, participação social e cidadania; e o doutor David Carvalho, do grupo Filandorra, que abordou os ritos marcantes dos 40 anos do Congresso.

O derradeiro dia abriu com a cozinha barrosã, integrando reflexão, demonstração e degustação através de uma conversa que juntou a nutricionista Anna Carolina, Graça Saraiva, da Ervas Finas e os chefs António Dias e Agostinho Martins.

Seguiu-se o bloco sobre beleza e bem-estar, focado na transição da tradição natural à cosmética contemporânea, moderado por Aurora Gomes. O painel contou com as intervenções de Ana Horta, sobre o valor das plantas daninhas na cosmética e bem-estar; Paula Sá, abordando o rejuvenescimento natural através de ioga facial, óleos vegetais e cuidados da pele; e Marta Fernandes, discutindo a cosmética natural entre a tradição, os mitos e a evidência científica.

O encerramento ficou marcado por uma aula intitulada «Biodança e a medicina popular – O corpo como caminho de cura», dinamizada por Mário Rocha, seguida pela apresentação do livro «Entre dois mundos: Relação entre o homem, a ciência e a comunicação», de Deolinda Morais.

Paralelamente a todos estes eventos, a feira reuniu cerca de 40 participantes nas ruas de Vilar de Perdizes, oferecendo artesanato, licores, chás e plantas medicinais, cruzados com cartomantes, videntes, osteopatas e outros profissionais da saúde.


Fotografia: Organização do evento

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