A 87.ª Volta a Portugal enfrentou protestos ambientalistas devido ao traçado de uma das suas etapas. No centro do debate aberto entre organizadores, autoridades e organizações ambientalistas esteve a 7.ª etapa, entre Vieira do Minho e as Termas do Gerês.
Redação |
O percurso atravessou o Parque Nacional, com passagem pela Mata de Albergaria, Portela do Homem, o concelho galego de Lóvios e a subida ao Alto do Germil. A Mata de Albergaria integra a Reserva Biogenética do Conselho da Europa, a Rede Natura 2000 e está classificada como Reserva da Biosfera pela UNESCO, representando um dos carvalhais de maior valor ecológico e patrimonial da faixa atlântica.
Por este motivo, associações ambientalistas como a FAPAS, a Liga para a Protecção da Natureza, a Natureza Viva, a ZERO e a ASPA apressaram-se a denunciar que o problema em causa extravasava a simples passagem dos ciclistas.
O impacto residiria principalmente na dimensão da logística que acompanhou o evento, já que mobilizou centenas de viaturas de apoio, forças de segurança, motos, órgãos de comunicação social, sirenes e altifalantes. Esta estrutura atravessou o parque em pleno pico do verão, período considerado crítico devido ao risco elevado de incêndios e à perturbação sobre a fauna em fases de reprodução e nidificação.
Sob o ponto de vista regulamentar, as organizações ambientalistas recordaram que o Plano de Ordenamento do Parque e a Portaria número 31/2007 impõem regras rígidas de acesso e circulação, estando a realização de provas desportivas sujeita a parecer obrigatório e vinculativo do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas.
As associações ambientalistas denunciaram publicamente que o percurso foi aprovado, comercializado e apresentado antes mesmo que o parecer técnico do ICNF fosse conhecido. A esta crítica juntaram-se vozes como a do presidente do Conselho Estratégico do Parque Nacional, Miguel Dantas da Gama, que considerou a escolha do trajeto “uma decisão consciente”, sublinhando à TSF que “existiam alternativas” fora da área protegida. Para o responsável, passar no coração do Gerês compromete a conservação do parque e tem impactos que vão além dos ciclistas.
Também o Bloco de Esquerda questionou a ministra do Ambiente sobre o percurso. Em resposta, o Ministério esclareceu que não interfere nas decisões técnicas do ICNF, garantindo apenas que a avaliação e o cumprimento das normas ambientais serão salvaguardados.
A posição da organização
Perante as preocupações levantadas, a organização da prova, a cargo da empresa Emesport e da Federação Portuguesa de Ciclismo, defendeu a viabilidade do percurso. Empresa e Federação sublinharam que o processo seguiu os trâmites habituais de licenciamento e coordenação com as entidades tutelares. Além disso, garantiram total abertura para adaptar a logística às exigências ambientais, assegurando que a prova atravessaria o Parque Nacional com o máximo respeito pelo património natural e encarando a etapa como uma oportunidade de valorização e promoção sustentável do território.
Ezequiel Mosquera, da Emesports, – ex-ciclista galego e organizador também da prova galega O Grão Caminho – assegurou que o objetivo não era invadir, mas valorizar, cumprindo todas as condicionantes fixadas. Por sua vez, o presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo, Cândido Barbosa, desdramatizou o impacto, argumentando que a caravana reduzida terá um efeito inferior ao tráfego diário no local. Segundo o responsável, passam na Mata de Albergaria mais de 22,000 veículos durante o mês de agosto — uma média diária superior a 700 carros —, valor claramente acima do contingente afeto à prova.
O parecer oficial: aprovado com proibição de público
Perante a escalada da polémica e os pedidos formais de esclarecimento de associações, o ICNF acabou por dar aprovação à etapa sob o compromisso do cumprimento de um conjunto de restrições. Ficou proibida a presença ou aglomerado de espetadores nos troços mais vulneráveis, nomeadamente na Mata de Albergaria. Adicionalmente, foram aplicadas limitações ao uso de buzinas, sirenes e viaturas com altifalantes, para além do condicionamento da circulação de veículos ao número estritamente indispensável.

No entanto, fora da estrada, o debate ambiental continua em aberto. Apesar de admitir que as medidas impostas reduzem significativamente o impacto direto sobre o habitat e respondem às exigências de salvaguarda, o movimento ambientalista considera que se abriu um precedente perigoso.
Para muitas organizações e cidadãos, as zonas de proteção máxima do Gerês não podem, em circunstância alguma ou sob qualquer pretexto promocional, servir de cenário a eventos de massas.
Crédito do gráfico: Site da Volta a Portugal, Fotografia: Wikipedia





