Entrevista | Pedro Rocha : “É bom desligar-nos dessa sociedade moderna tão acelerada…”

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“É bom respirarmos fundo e desligar-nos dessa sociedade moderna tão acelerada e intoxicada…”Pedro Miguel Rocha, escritor português “de alma galega”, define-se como um “sonhador atento ao mundo”, . Divide a sua vida entre o ensino público, a escrita e a reflexão crítica sobre o tempo contemporâneo. Frequentou a Galiza em inúmeras vezes quando estudava na Universidade do Minho, e foi aí que ficou apaixonado, focando as suas obras num universo místico e envolvente. Recuperamos a conversa que tivemos com ele em outono.

Entrevista |

O Pedro é professor em uma escola com um nome pouco frequente, não é?
Curiosamente, estou a lecionar na escola EB 2,3 da Galiza, aqui no Estoril. É mesmo assim que se chama a escola, localizada numa área entre Cascais e o Estoril com esse nome.

Tem já várias obras publicadas. De onde nasce esse interesse que o liga tão fortemente à Galiza?
Então, recuando cerca de 33 anos — estou a ficar velho — foi em 1992. Na altura, entrei na Universidade do Minho, em Braga, e nesse outono fizemos uma visita de estudo a Santiago de Compostela. Foi a primeira vez que fui à Galiza e, digamos, foi amor à primeira vista. Aqui em Portugal, e já podemos falar sobre isso, vende-se muito a imagem de uma Espanha centrada em Madrid e no castelhano. Era essa a imagem que eu tinha durante a minha infância e adolescência. Qual não foi a minha surpresa quando cheguei à Galiza e ouvi as pessoas — parecia que estava em Portugal. Fiquei admirado, fascinado. E foi aí, em 1992, nessa primeira visita, que surgiu o meu interesse.

Nessa fase universitária, já se movimentava por Vigo, Santiago ou Corunha … foi também aí que decidiu que queria escrever? Ou isso veio mais tarde?
Primeiro surgiu o interesse, que envolveu leituras e estudos. Na Universidade do Minho havia um estudo de galego e conheci o professor D. Pedro Dono, e na altura também fui a Ourense ter com o Isaac Estraviz, com quem conversei muito sobre a questão. Não pensava em escrever ainda, primeiro era conhecer, visitar, conversar, ler. Acho que isso é muito importante antes de começar a escrever.

Pois. E como era a Galiza de ´90, vista pelos olhos de um português do centro do país?
Eu vivia em Viseu antes de ir para Braga. Na altura, sentia que havia uma maior proximidade cultural. Posso estar enganado — é apenas uma perceção pessoal —, mas hoje em dia, quando visito a Galiza, sinto que está um pouco mais “castelhanizada”. Em 1990 havia talvez sentimentos mais fortes de identidade própria, até alguma ideia de maior ligação com Portugal. Hoje parece-me que essa corrente está mais apagada. Atrás da questão cultural e linguística, se calhar temos que analisar também o afastamento provocado por Madrid e Lisboa. Há interesses para nos tornar desconhecidos e não próximos: por exemplo, o facto de não poder ver as emissões da RTP na Galiza.

Como explicava essa sua “galeguidade” adquirida aos seus? E como consegue explicá-la hoje, na “distante” Lisboa?
Era uma coisa bem estranha, como separar à força a dois gêmeos, era assim que eu sentia. A nossa língua e as nossas raízes estão aí. Eu era muito ativo nesse espírito “portugalego”, nessa causa da união entre povos. Hoje, com os meus alunos, é difícil, as aulas são breves…. e estou a lecionar inglês. Mas não é fácil explicar no contexto académico. Quanto aos adultos, a Galiza é bem vista aqui no Sul, apesar da relação ser mais orientada para Castela e Andaluzia.

E quando se torna escritor, essa ligação passa a estar presente em todas as obras. São 5 obras… e todas de temática “galaica”.
Tive sempre esse objetivo: aproximar Portugal e a Galiza. No primeiro livro, Juntos Temos Poder, foi algo mais subtil. Introduzi uma personagem galega, mas a história passava-se em Moçambique. Depois, nos livros seguintes, a Galiza torna-se cada vez mais central. Em Chegámos a Fisterra, por exemplo, já há uma forte presença da Costa da Morte, uma zona muito especial para mim. Passei lá muito tempo, vivenciei o dia a dia, e isso acabou por influenciar naturalmente a escrita. E depois chega O Eremita Galego, em 2011. Ou os Contos Peregrinos, uma coletânea feita com a ajuda de autores galegos: Séchu Sende, o professor Requeixo e ainda o Carlos Quiroga. Trata-se de uma obra apresentada na “Juventude da Galiza”, em Lisboa. Atualmente estou a escrever novamente um sexto livro, com a narrativa a situar-se também na Galiza.

Da enfermeira galega do “Juntos temos poder” passas para o “Chegamos a Fisterra”, com uma narrativa focada na Costa da Morte. Uma zona muito especial para si.
Eu ia muito a Fisterra. Sim. É uma zona muito bonita. Vou falar sempre dela.

E depois disso, o Eremita galego. Fale-nos dele.
A origem dessa obra está ligada a uma visita a Camelhe, onde conheci a história de Manfred, o alemão que naufragou naquela aldeia, e que por lá ficou, até ao fim dos seus dias. Isso fez-me refletir sobre o que seria viver isolado, junto ao mar. Ele tinha contacto com as pessoas, mas imaginei um eremita ainda mais isolado. No silêncio, muitas vezes, conseguimos encontrar-nos verdadeiramente. Temos tanto barulho e tantas distrações no nosso dia a dia… No fundo é essa a base do livro.

O Pedro define-se nessas caminhadas pela beira-mar, no contemplar das estrelas, nos concertos de jazz. Transmite esse bem-estar, essa pausa também nos seus livros?
Hoje as pessoas estão sempre a falar de tudo. Há ódio, notícias falsas… e as nossas vidas pessoais são muito exigentes mesmo. Acho que esses momentos são essenciais: pararmos, respirarmos fundo, ouvir os sons da natureza… temos que desligar-nos um bocado dessa sociedade moderna tão acelerada e intoxicada.

Qual o seu percurso pessoal entre a publicação do “Contos Peregrinos” (2013) e o recente “Eternamente na Galiza” (2025). Mais de uma década de pausa e reflexão íntima?
Houve uma grande pausa que coincidiu com a época em que estive a lecionar português em Londres. Foi uma época em que não tinha muitas mensagens para passar. Porém, havia outra questão: Esse livro aborda outro tema que me interessa: a possibilidade de vida para além da morte. O último livro fala sobre essa possibilidade. Será que existe algo mais?

A narrativa passa por vários locais da Galiza, como Laje, a ilha de São Simão e as Rias Baixas, parece que se desce para a “Raia”… e voltam os secretos.
A história fala-nos de um grupo secreto dentro da igreja católica e da possibilidade de contactar com os mortos. Esse grupo sabe alguma coisa que não podem transmitir, porque o mundo ficaria desregulado. Envolve um certo mistério que não posso revelar.

Em 2011 recebe o Prémio literário Maria Ondina Braga. Podemos dizer que O Eremita Galego é a tua obra mais marcante?
Sem dúvida. Foi a mais reconhecida pelos leitores e também a que recebeu mais feedback e maior destaque, inclusive com um prémio literário. Identifico-me muito com ela: gosto de isolar-me por vezes, pensar, refletir…

E estás a trabalhar em algo novo?
Sim, será publicado em 2026. A história centra-se numa livraria de Santiago de Compostela, especial, misteriosa, situada numa cidade também ela mágica. Será um projeto um pouco diferente, relacionado com o facto de as pessoas estarem hoje mais no digital e menos no papel. Apesar disto, a venda de livros mantém-se, o que é uma boa notícia.

Escreveu também obras em inglês com bastante sucesso. Mais de 50 mil exemplares vendidos nos EE UU…
Escrevi sim, publiquei dois livros em inglês, que tiveram uma boa receção. O mercado está saturado, é difícil ganhar visibilidade. Além do conteúdo, o mais importante, há outros fatores que contribuem para chamar a atenção do público. Há um grande trabalho de marketing, de divulgação atrás deste projeto.

Como foi a receção dos teus livros “galegos” pelo público português? E galego?
Há uma diferença enorme, em Portugal e na Galiza nunca tomei a opção editorial, limitei-me a escrever e deixar livremente o livro a seguir o seu percurso. É óbvio que não chegaram ao grande público, mas não é essa a minha principal preocupação. A questão que se pode vir a colocar é essa: se os livros fossem mais visíveis, chegariam as mensagens a mais pessoas. Infelizmente, precisamos de uma ajuda extra, o escritor sozinho não consegue. Tem que haver uma equipa atrás, ligada à publicidade e ao marketing, para o livro se tornar visível. Há que repensar isto, toca a analisar.

Aconteça o que acontecer com o trabalho de divulgação, estamos perante um escritor único. Não conheço autores portugueses que tenham orientado a sua obra principalmente só à Galiza. É Pedro Rocha excecional nisto?…
Há um escritor, o Luís Ferreira, que escreve sobre o Caminho de Santiago. O caso dele poderá ser parecido, mas sempre relacionando as suas experiências nos caminhos. No entanto, em termos de ficção, talvez… mas eu não consegui fazer de outra maneira. Há sentimentos que são inexplicáveis. Quando se fala de mim como escritor “de alma galega” acho que é verdade. O meu BI traz que eu sou cidadão português, mas… se alguém acreditar na reencarnação, em outra vida eu tenho a certeza que fui galego…

Das suas últimas visitas à Galiza, o que foi o mais inspirador?
A zona próxima de Portugal; Vigo, Ourense… está muito ligada a mim. Gosto da gastronomia, da música, tenho-a sempre de fundo. E pena não estarmos mais próximos ainda no seu conjunto. Mas eu vou continuar a difundir.


Esta entrevista foi realizada em outono de 2025 no programa Galiportus da rádio municipal de Alhariz e transcrita para o De Norte a Sul pelo autor e condutor do programa

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