O Mundo em Língua Portuguesa Opina, uma rúbrica mensal de Paulo Lamas
Contexto: O que foi votado?
No dia 25 de março de 2026, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução histórica que declara o tráfico transatlântico e a escravatura como o “crime mais grave contra a humanidade”.
A proposta, impulsionada pelo Grupo Africano, vai além do simbolismo: insta os Estados a apresentarem pedidos de desculpas formais e a estabelecerem mecanismos de justiça reparatória, que podem incluir desde o cancelamento de dívidas externas até à devolução de património cultural saqueado durante o período colonial.
Reação no Espaço Lusófono
A votação revelou uma divisão diplomática no seio da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Enquanto o bloco africano e o Brasil votaram em uníssono pelo reconhecimento pleno, Portugal alinhou-se com a abstenção da União Europeia, gerando um debate intenso sobre a responsabilidade histórica da antiga metrópole.
MATRIZ DE POSICIONAMENTO: CPLP+
| País / Entidade | Voto | Posicionamento e Reação | |
![]() | Angola | A Favor | Considera a resolução um passo vital para o desenvolvimento do continente africano. |
![]() | Brasil | A Favor | O governo reforça a agenda de reparações; movimentos sociais celebram a “justiça histórica”. |
| Cabo Verde | A Favor | Enfatiza a memória do arquipélago como ponto central do tráfico e a necessidade de reparação. |
![]() | Guiné-Bissau | A Favor | Apoio total à linha da União Africana e foco na restituição de artefactos. |
![]() | Guiné Equatorial | A Favor | Alinhamento com o bloco africano. |
![]() | Moçambique | A Favor | Defende que o subdesenvolvimento atual é sequela direta da exploração esclavagista. |
![]() | Portugal | Abstenção | Justifica com a “não retroatividade das leis”, gerando fortes críticas internas da sociedade civil. |
![]() | S. Tomé e Príncipe | A Favor | Reclamação histórica pela exploração nas roças de café e cacau. |
![]() | Timor-Leste | A Favor | Voto solidário com as causas de autodeterminação e direitos humanos. |
![]() | Galiza (Governo) | N/A | Silêncio institucional (acompanha a abstenção de Espanha), focando-se na cooperação técnica. |
![]() | Galiza (Social) | Apoio | Associações culturais e académicas apoiam publicamente a resolução da ONU. |
Análise
A rúbrica O Mundo Em Língua Portuguesa opina nota que, embora a língua nos una, a memória do passado ainda divide as capitais. A abstenção de Portugal e da Espanha (que tutela a Galiza politicamente) contrasta com a determinação do Brasil e dos países africanos em transformar a história em justiça concreta.
O “+” desta secção manifesta-se na Galiza social, que se distancia da neutralidade de Madrid para se aproximar da ética dos seus parceiros de língua.
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