De Norte a Sul entrevista João Neves, Diretor Executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa.
Conversamos com ele após a sua recente visita à Galiza para abrir o XVIº Curso de Capacitação para a elaboração de materiais, neste caso galegos, para o Portal de Professor de Português desta instituição.
Entrevista | João Neves
Biografia de João Laurentino Costa Pinho Neves1, Diretor-Executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa. 2.
Nota Editorial
Por razões de qualidade técnica de captação de áudio e imagem, um segmento de aproximadamente 10 minutos da entrevista original não foi incluído na versão em vídeo.
De forma a garantir a transparência editorial e o acesso integral aos conteúdos transmitidos, disponibilizamos abaixo a transcrição desse trecho, no qual é comentada a presença da Guiné Equatorial no Instituto Internacional de Língua Portuguesa e a ausência de países e comunidades onde o português está socialmente ou institucionalmente presente:
LFF: … como é possível a Guiné Equatorial ter entrado para o IILP e não Macau nem a Galiza, há qualquer coisa aqui estranha que não se compreende…
João Laurentino Neves: Eu também acho. Isso decorre da arquitetura institucional do IILP [Instituto Internacional da Língua Portuguesa]. Aquilo que, na altura, propus foi que o IILP tivesse a possibilidade, do meu ponto de vista, absolutamente legítima — isto é o Instituto da Língua Portuguesa, não é o Instituto dos Estados-Membros da Língua Portuguesa… Pelo menos é assim que eu acho que ela foi pensada.
Ela foi pensada como um instituto que, vendo a língua como um fator de coesão e de união entre diversos Estados e vendo a língua portuguesa como esse fator de criação de relações de identidades, de percursos e de rotas económicas, de estratégias de concertação político-diplomática, de desenvolvimento do conhecimento científico, etc. Isto não está balizado aos Estados-membros, porque temos que falar de diásporas, temos que falar de territórios onde a presença da língua portuguesa constitui ainda um fator identitário para muitas pessoas, pese embora ela não seja a língua oficial — estou a lembrar-me de Malaca.
Aquilo que eu propus, portanto, foi que o IILP tivesse a possibilidade de constituir os seus observadores. Observadores do IILP, por forma a retirar o peso político que o facto de ser observador da CPLP tem de ter.
Isso não foi aceite, essa proposta não teve sequência, os Estados-membros avaliaram de outro modo e mantém-se o princípio de que, para ser observador do IILP, tem de ser observador da CPLP. Ou melhor, não há observador do IILP, há observadores da CPLP, que, por inerência, são também observadores do IILP. Eu não partilho muito desta visão, com todo o respeito pelas decisões que a instituição toma, vejo muitos dos observadores da CPLP completamente alheados daquilo que são as questões da língua portuguesa, completamente alheados.
Aliás, nós já tivemos observadores da CPLP a votarem contra decisões em matéria de língua portuguesa em instâncias internacionais. Portanto, eles estão completamente alheados do fator língua; interessam-lhes outras dinâmicas dentro da CPLP, e eu acho legítimo, como é óbvio. E, portanto, o IILP fica sempre um bocadinho como o parente pobre da questão.
E eu acho que dar ao IILP a possibilidade de aqueles que efetivamente querem desenvolver cooperação na área da língua enquanto observadores e que querem efetivamente trabalhar com o IILP para a promoção e difusão da língua portuguesa nesses contextos deveriam poder fazê-lo. E isso permitiria que, por exemplo, Macau pudesse ser um observador. De outro modo não vai ser.
LFF: Se calhar também há aí uma janela de oportunidade, sei lá, porque há diferentes instituições que já se inserem… observadores associados, quer dizer, estou a pensar na Galiza que, como tal, não é associada, mas o Estado, no conjunto, é. E há ainda instituições galegas na comissão temática como observadores consultivos. Então, talvez… surge uma outra pergunta ligada com esta ideia das políticas do IILP e do que o senhor acaba de dizer: O IILP desenvolve um vocabulário toponímico onde diferentes instituições podem colaborar de cada um dos territórios, e também um catálogo digital de autores. Há escassos dias foi lançado aqui na Galiza uma atualização de uma ferramenta online, o Topogal, que sistematiza, em ortografia portuguesa, toda a toponímia galega ligada também com o território português. Quer dizer, nesse espaço online , nós podemos observar quantas vezes aparece a palavra “Quintã” ou “Braga”, “Lalim” ou “Torres Vedras” na Galiza e em Portugal…
Então, é assim: será possível que o IILP desenhe ou planifique algum tipo de colaboração com estas instituições, quer da Galiza, quer de Macau, para colaborar em alguns destes outros projetos mais pequeninos? Talvez por essa via possam começar a estar mais presentes?
João Laurentino Neves: Isso nós temos feito. Por exemplo, vou aqui dar também um exemplo concreto: nós desenvolvemos um projeto que se chama “Caixa de Autores de Língua Portuguesa“, e esse projeto reúne uma obra que é ilustrativa da literatura dos diferentes Estados-membros. A escolha de cada obra foi da responsabilidade de uma entidade nacional de cada um dos Estados-membros, não foi o IILP que procedeu e, portanto, não há aqui nenhuma intenção canónica. Há a ideia de mitigar um pouco o desconhecimento forte que ainda existe em cada país da CPLP relativamente às literaturas dos outros países desse mesmo espaço de língua portuguesa. E, por outro lado, como sabemos, é muito difícil aceder a livros em muitos destes países porque o mercado editorial é ainda um mercado relativamente ténue e, quando ele existe, está centrado nos autores nacionais e não vai buscar ainda… não tem a capacidade de ir buscar autores estrangeiros para publicar localmente. E, portanto, vivemos de dois grandes mercados editoriais: o brasileiro e o português, que publicam vários autores africanos, mas fazem-no de acordo com interesses, obviamente, comerciais.
A ideia aqui era que nós pudéssemos equipar todas as escolas do ensino secundário dos países de língua portuguesa, particularmente dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa e Timor-Leste — porque, como digo, Portugal e Brasil têm outros mecanismos e outras ferramentas disponíveis para isto —, equipar todas as escolas com esta caixa, que é verdadeiramente uma caixa que contém, dentro, nove livros… dez, com um décimo livro que é uma espécie de um roteiro com sugestões para os alunos e para os professores, sugestões de leitura de cada uma das obras. Por forma a que, muitas vezes sabemos que falamos da dificuldade de acesso ao livro, muitas vezes o livro está lá, mas também não desce da prateleira porque depois faltam competências na área da mediação da leitura. E então ocorreu-nos que, para além dos livros, deveríamos incluir aqui um livro elaborado por três especialistas de três países da CPLP com sugestões, sem ser uma diretividade muito forte, mas com um roteiro de leituras para que seja mais fácil aos professores e aos alunos, particularmente nos contextos onde a leitura esteja num patamar ainda mais incipiente, poderem ter ali um apoio adicional.
Ora, para esta “Caixa de Autores“, Macau está representado. Curiosamente a Guiné Equatorial não está, por razões óbvias, mas Macau está. E incluímos uma obra de um autor macaense. Há vários dos cursos que nós temos dado, por exemplo, o Curso de Português Jurídico, no âmbito do Centro de Formação Especializada do IILP promovemos uma formação em Português Jurídico que foi dada por uma instituição de Macau. Estamos neste momento a desenvolver uma ferramenta digital para o léxico em três áreas: Jornalismo, Contabilidade/Auditoria/Análise Financeira e Administração Pública, que são três bases de dados lexicais trilingues (português, chinês e inglês). Esse trabalho está a ser feito com a Universidade de Macau. Portanto, Macau está presente no IILP no trabalho, nos projetos. O que não está é ao nível institucional, e eu acho que isto não faz muito sentido.
Respondendo ainda à questão: portanto, do meu ponto de vista — e isto vale durante os próximos quatro meses mais, o resto já não vale [risos] —, do meu ponto de vista, pois é evidente que, no caso, por exemplo, do Catálogo Digital de Autores de Língua Portuguesa, todos os autores, estejam eles onde estiverem, que escrevam em língua portuguesa têm todo o direito…
E repara: a plataforma é de autorregisto. Nós concebemo-la exatamente assim… Não é o IILP que vai determinar quem é e quem não é. As pessoas, os escritores… aquilo está feito para ser uma ferramenta colaborativa e, portanto, um escritor que tem um livro publicado em língua portuguesa tem todo o direito de chegar à plataforma, solicitar o seu registo, que ele próprio faz, e regista-se no catálogo como um escritor de língua portuguesa, independentemente do contexto onde viva, onde esteja, onde trabalhe, onde fale.
LFF: Ah, então pode haver autores galegos no futuro, se calhar.
João Laurentino Neves: Pode perfeitamente haver e, portanto, não vejo razão por que não possa haver, cumprindo-se o critério, que é aquele critério que as pessoas vão à procura, que é: autores onde eu possa ler um livro em língua portuguesa.
- Biografia:
João Laurentino Costa Pinho Neves é natural de Aveiro sendo o atual Diretor-Executivo do Instituto Internacional de Língua Portuguesa, um organismo da CPLP. Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas – Estudos Portugueses e Ingleses e Mestre em Relações Interculturais foi leitor de Língua e Cultura Portuguesa na Universidade Pedagógica e na Católica, em Nampula – Moçambique (1995-2000). Aí criou, em 1998, o 1º Centro de Língua Portuguesa do Instituto Camões (IC) . Posteriormente foi o Responsável em Lisboa (2000-2002) do Centro Coordenador dos Centros de Língua Portuguesa do Camões atendendo 21 centros.
Nomeado Adido Cultural junto da Embaixada de Portugal na cidade da Praia, em Cabo Verde (2003-2012), foi nomeado, pelo mesmo período, Diretor do Camões – Centro Cultural Português nessa cidade, desenvolvendo múltiplos projetos de promoção e de cooperação cultural.
Entre 2012-2018 foi Diretor do IPOR – Instituto Português do Oriente, em Macau, onde exerceu dois mandatos diretivos e a seguir foi nomeado Vogal do Conselho Diretivo do Camões em Lisboa (2018-2022), com coordenação nas áreas da língua e da cultura.
Integrou a Delegação de Portugal em reuniões de organizações multilaterais nas áreas da língua e da cultura (IILP; EUNIC, SOM, Ibero-América, RIDCULT, OEI), bem como em Comissões e Subcomissões Mistas bilaterais nas mesmas áreas com mais de uma dezena de países;
Participou em missões internacionais de trabalho com a promoção e a internacionalização da língua portuguesa na sua agenda a mais de duas dezenas de países e tomou parte e interveio em Encontros, Seminários e Conferências sobre Língua Portuguesa em diversos países, em quatro continentes, em particular nas conferências de Díli e da Praia sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial.
Ainda, coordenou a edição de obras de referência para a promoção da língua portuguesa no oriente, bem como de publicações na área da Cultura e da Literatura.
Foi Agraciado com o 1º Grau da Medalha de Mérito da República de Cabo Verde, e na sua gestão, foram concedidos agraciamentos ao Centro Cultural Português na cidade da Praia (1º Grau da Medalha de Mérito), e ao IPOR – Instituto Português do Oriente (1º Grau da Medalha de Mérito de Macau)
↩︎ - O Instituto Internacional da Língua Portuguesa
O IILP é a instituição responsável pelas políticas de língua da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) coordenando ações globais para valorizar e difundir o português como veículo de cultura, ciência e cooperação internacional
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