ONU alerta: Fome global persiste devido a conflitos, clima e pobreza

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Insegurança alimentar atinge 2,3 mil milhões de pessoas. Subnutrição afeta 733 milhões de pessoas e 60% são mulheres.

Redação |

Uma em cada dez pessoas vive em situação de subnutrição crónica, enquanto mais de 2,3 mil milhões debatem-se com diferentes níveis de insegurança alimentar. As estimativas das Nações Unidas revelam que o progresso global se prolonga pelo terceiro ano consecutivo.

Apesar de a tendência de longo prazo apontar para uma redução — em 1969, cerca de 30% da população mundial passava fome — os indicadores mais recentes confirmam uma estagnação no cenário global.

O levantamento aponta que em 2022, 35,4% (mais de 2,83 mil milhões) da população mundial não tinham capacidade financeira para uma dieta saudável. Os dados também mostram que em 2023, 9,2% (733 milhões) enfrentaram subnutrição crónica. No mesmo período, 28,9% (2,33 mil milhões) vivenciaram insegurança alimentar moderada ou grave, sendo forçados a reduzir quantidade ou qualidade, racionar refeições ou passar dias sem comer.

A análise por regiões, baseada no relatório da FAO de 2024 (The State of Food Security and Nutrition in the World), revela que os níveis globais de fome permanecem estagnados na Ásia, registam melhorias na América Latina e nas Caraíbas e continua a expandir-se por África.

A Ásia regista uma taxa de fome de 8,1% (384,5 milhões de pessoas), menos 17 milhões face ao ano anterior. O Sul da Ásia melhora pelo segundo ano consecutivo, ao passo que a Ásia Ocidental piora desde 2015. Em África, a taxa atinge 20,4% (298,4 milhões de pessoas), agravando-se desde 2015, com destaque para a África Central, onde a subnutrição subiu 3,3%.

Na América do Sul e Caraíbas, a taxa é de 6,2% (41 milhões). Enquanto a América do Sul acumula progressos há dois anos, as Caraíbas duplicam a taxa do Sul e continuam a subir. Na Oceânia, a taxa é de 7,3% (3,3 milhões), mas sobe para 22,8% se excluirmos Austrália e Nova Zelândia. Por fim, na Europa e EUA, a prevalência mantém-se abaixo de 2,5%.

Paralelamente à fome crónica persistente, 59 países e territórios enfrentam crises de fome aguda, encabeçados pela República Democrática do Congo, Nigéria, Sudão, Afeganistão e Etiópia e ameaça também Gaza, o Iémen, a Síria e o Haiti.

Além de conflitos e crises climáticas, a fome global persiste devido a mudanças na organização social e no comportamento humano. Destacam-se a preferência crescente por alimentos processados em detrimento de opções frescas e a urbanização, que afasta as pessoas da agricultura e da produção de bens rumo aos serviços. Adicionalmente, os tempos de deslocação mais longos impulsionam a procura por soluções alimentares rápidas.

Este cenário agrava-se com a crise climática: mais de 80% dos afetados pela fome crónica vivem em zonas propensas a desastres, que desregulam os ciclos de sementeira e colheita. Por fim, secas e inundações reduzem a produtividade agrícola, enquanto o aquecimento dos oceanos e a subida do mar encolhem terras agrícolas costeiras e afetam os recursos marinhos.

A violência armada e a instabilidade geopolítica impulsionam a crise alimentar: mais de 60% das pessoas que passam fome vivem em áreas afetadas por conflitos. Estes agravam-se pela deslocação forçada de populações. A situação piora com a destruição material e económica, que danifica mercados e infraestruturas locais. Por fim, ocorrem roturas logísticas que perturbam a agricultura e o transporte, impedindo que os alimentos cheguem a quem deles mais necessita.

A privação alimentar também reflete desigualdades económicas. Os mais pobres sofrem a fome mais severa: mesmo com alimentos nos mercados, faltam-lhes recursos para os comprar. Muitos vivem nestas condições fazendo com que as despesas alimentares cheguem a representar 75% do seu rendimento.

A privação alimentar global também está ligada a assimetrias sociais, destacando-se a desigualdade de género. Embora liderem a gestão de alimentos, as mulheres sofrem mais insegurança alimentar que os homens, sacrificando refeições na escassez para alimentar a família. Cerca de 60% das pessoas que mais passam fome no mundo são mulheres.

Outros grupos marginalizados — como populações indígenas, minorias raciais e étnicas, pessoas com deficiência, refugiados, pessoas LGBTQ+ e sem-abrigo — também enfrentam riscos acrescidos de fome.


Fotografia: ONU News – criança palestina em Gaza após receber uma refeição durante a distribuição de alimentos

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