Exército Zapatista convoca Viagem-Abraço a Mães-Buscadoras

   Tempo de leitura: 3 minutos

Redação |

O Exército Zapatista de Libertação Nacional avança na preparação do seu próximo grande movimento de solidariedade estatal. A “Viagem-Abraço a Buscadoras” visa prestar apoio direto aos coletivos de familiares de pessoas desaparecidas no México. Nesse âmbito, prevê-se que uma delegação zapatista se desloque à Cidade do México entre dezembro de 2026 e janeiro de 2027.

A ação procura dar visibilidade e amparar a luta das Buscadoras, consolidando redes de apoio mútuo entre os povos indígenas e os movimentos urbanos e civis que exigem justiça e verdade no México atual.

Conhecidas como madres buscadoras, ativistas mexicanas dedicam as suas vidas à procura de seus familiares desaparecidos ou de seus restos mortais. A busca, no entanto, é marcada pelo perigo. A violência contra o movimento atinge níveis alarmantes, culminando, não raro, no desaparecimento ou no assassinato daquelas que ousam procurar.

Os grupos de mães buscadoras também instruem outras mulheres sobre como formalizar desaparecimentos, técnicas de localização de restos mortais e o enquadramento jurídico das buscas. Para além das escavações em busca de corpos, investigam locais como hospitais, prisões, zonas de exploração sexual e centros de acolhimento de pessoas sem-abrigo, conscientes de que os seus entes queridos podem ter sido vítimas de tráfico humano.

De acordo com o Registo Nacional de Pessoas Desaparecidas ou Não Localizadas, o México contava, até 2024, com 116.294 pessoas desaparecidas. Desse total, 97% desapareceram após 2006, uma consequência direta da guerra contra o narcotráfico no país.

A eficácia e a resiliência deste ativismo traduzem-se em números significativos: só o coletivo Madres Buscadoras de Sonora conseguiu localizar 1.230 cadáveres em valas clandestinas e encontrar 1.300 pessoas com vida desde 2019.

Para além das Madres y Guerreras Buscadoras de Sonora, também se destacam Mariposas Buscando Corazones y Justicia, Ángeles de pie por ti e Corazones sin Justicia, entre muitos outros. Estas organizações somam-se a movimentos que datam das décadas de 1960, 1970 e 1980 — a exemplo do Comité Eureka (Comitê Pró-Defesa de Presos, Perseguidos, Desaparecidos e Exilados Políticos do México), formado por familiares de vítimas da “guerra suja” do estado mexicano contra militantes de esquerda.

Para dar voz e unificar a luta formou-se, em 2015, o Movimiento por Nuestros Desaparecidos en México, com o objetivo principal de pressionar pela aprovação da primeira Lei Geral de Desaparecimentos do país, que entrou em vigor em janeiro de 2018. Atualmente, a rede aglutina mais de 80 coletivos distribuídos por 24 estados mexicanos e por três países da América Central.

Como forma de visibilizar a luta e exigir justiça, as mães realizam anualmente, desde 2011, a Marcha da Dignidade Nacional na Cidade do México. O protesto acontece todos os anos a 10 de maio, data em que se celebra o Dia da Mãe no país.

As mães e famílias buscadoras criticam duramente o facto de o estado mexicano se recusar a assumir a responsabilidade pelas buscas — o que consideram, por si só, um ato de violência — delegando esta tarefa aos próprios familiares das vítimas, segundo aponta uma análise publicada no openDemocracy.

A Marcha da Dignidade Nacional denuncia a grave insegurança enfrentada pelas mães e famílias buscadoras ao arriscarem-se em locais onde as autoridades se recusam a atuar. Diante disso, o movimento exige que o estado abra um canal de diálogo e um espaço de trabalho conjunto focado na segurança e na proteção efetiva durante as diligências de busca.


Fotografia: Amnistia Internacional

Share