A natureza pelo olhos de Armandinho

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Armandinho tem pouco mais de um metro de altura, cabelos azuis e uma vantagem que muitos adultos perderam pelo caminho: ainda consegue olhar para o mundo sem achar normal aquilo que não deveria ser.

Criado em 2009 pelo brasileiro Alexandre Beck, o menino tornou-se uma das personagens mais conhecidas dos quadrinhos (banda desenhada) contemporâneos no Brasil, levando para três ou quatro quadros perguntas sobre direitos humanos, desigualdade, educação, convivência e meio ambiente.

É desse ponto de vista, quase rente ao chão e sempre à altura das pernas dos adultos, que Beck constrói seu universo.

Em A natureza de Armandinho, essa mirada infantil se volta especialmente para o meio ambiente; embora, como costuma acontecer nas histórias do personagem, falar de árvores, bichos, rios e alimentos também seja falar de gente.

A coletânea reúne cerca de 340 tiras publicadas entre 2010 e 2024, selecionadas pelo próprio autor. São 176 páginas coloridas, em capa dura e impressas em papel reciclado. A escolha do material já conversa com aquilo que está dentro do livro. Ecologia, preservação, agroecologia, consumo, respeito aos animais e responsabilidade coletiva aparecem sem transformar Armandinho num pequeno professor encarregado de explicar o mundo aos adultos.

O prefácio é assinado pelo jornalista Marcos Antonio Corbari, que chama Armandinho de “menino semente”. A imagem serve bem ao personagem. Ele lança uma pergunta, provoca uma pequena rachadura numa certeza e segue adiante. Nem sempre há resposta. Muitas vezes, sobra justamente o silêncio do último quadrinho.
Esse interesse pela natureza não surgiu por acaso na obra de Alexandre Beck. Nascido em Florianópolis, no Sul do Brasil, em 1972, ele se formou em Agronomia e também em Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda.

Durante a formação como agrônomo, aproximou-se das discussões sobre agricultura, uso de agrotóxicos e formas de produção menos agressivas ao meio ambiente. Antes de viver integralmente do desenho, chegou a trabalhar com cultivo de morangos orgânicos.

O desenhista veio depois, mas o agrônomo nunca desapareceu completamente.

Beck começou a trabalhar como ilustrador no jornal Diário Catarinense, de Santa Catarina, no ano 2000. Armandinho apareceria alguns anos mais tarde, em 2009, quase por acidente.

Um jornalista precisava de uma ilustração para uma reportagem sobre economia doméstica e a relação entre pais e filhos. Beck desenhou um menino. A figura agradou, ganhou novas aparições e acabou recebendo dos leitores o nome pelo qual hoje é conhecida.

Armandinho, afinal, vivia “armando”.

Em 2010, passou a ocupar espaço regular no jornal. A partir de 2012, encontrou nas redes sociais um território muito maior. Suas histórias atravessaram fronteiras, chegaram às escolas, aos livros e materiais pedagógicos e até aos exames oficiais brasileiros. Armandinho passou a circular muito além do espaço reservado tradicionalmente aos quadrinhos.

É inevitável lembrar de Mafalda, de Quino, ou de Calvin, de Bill Watterson. Crianças que observam os adultos e percebem rapidamente as contradições que eles preferem disfarçar. Armandinho pertence a essa família, mas construiu sua própria identidade.

Nas tiras, os adultos quase nunca aparecem inteiros. Vemos pernas, sapatos, um pedaço do corpo. A escolha mantém o leitor na altura da criança. Para acompanhar Armandinho, somos obrigados a baixar os olhos.
Em A natureza de Armandinho, esse recurso ganha força particular. O menino pergunta que planeta os adultos pretendem deixar para as crianças enquanto continuam destruindo justamente aquilo que afirmam querer preservar. Pergunta sobre animais, alimentos, florestas, água e sobre uma espécie que costuma se colocar acima de todas as outras.

A resposta raramente cabe numa fala.

Talvez esteja aí uma das razões para Armandinho funcionar entre leitores de idades tão diferentes. A criança reconhece alguém que pergunta aquilo que ainda não compreende. O adulto encontra perguntas que talvez já tenha compreendido demais e, aprendido rapidamente a evitar.

Desde sua criação, Armandinho continua fazendo aquilo que seu próprio nome anuncia: armando: pequenas confusões, perguntas incômodas, dúvidas diante das (in)certezas adultas.

Desta vez, porém, há uma pergunta que ultrapassa qualquer quadrinho: que natureza ainda haverá quando as crianças de hoje tiverem idade suficiente para cuidar dela?

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