ONU aprova novo mapa-múndi

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Redação |

No dia 4 de setembro, a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução voltada a ajustar a representação mundial nos mapas. O texto incentiva governos, organizações internacionais e outras entidades a adotarem a representação “Terra Igual”.

A proposta, liderada pelo Togo em apoio a uma campanha da União Africana, busca alterar a representação cartográfica global para mostrar a Terra de forma mais justa, com base em dados científicos e reparação histórica. Em fevereiro de 2026, a União Africana adotou a projeção Terra Igual e incentivou seus Estados-membros a revisarem os currículos nacionais.

A decisão fundamentou a iniciativa em conceitos como representação equitativa, justiça cognitiva, reparações e o legado da cartografia colonial — argumentos alinhados à lógica política, educacional e descolonial da campanha. Para a organização africana, os mapas são ferramentas educacionais, científicas e culturais fundamentais que “moldam a perceção do mundo e o imaginário coletivo dos povos”.

O modelo cartográfico atual apresenta distorções que ampliam massas de terra distantes da linha do Equador e fazem regiões como África, América do Sul e o Sul da Ásia parecerem proporcionalmente menores. Para a ONU, corrigir essas distorções é um ato de “justiça cognitiva e reparação memorial”, que fomenta a compreensão mútua entre os povos.

A resolução não é juridicamente vinculativa, não cria leis internacionais nem impõe obrigações cartográficas aos estados, escolas, editoras ou empresas de tecnologia. Em vez disso, a medida incentiva o uso da projeção Terra Igual na educação, comunicação pública e alfabetização geográfica.
A resolução foi aprovada com 164 votos a favor, o voto contrário dos EUA e as abstenções de Ucrânia, Estónia, Geórgia, Moldávia, Sérvia e Lituânia.

A projeção Terra Igual, desenvolvida em 2018 por Bojan Šavrič, Tom Patterson e Bernhard Jenny, aproxima a proporção real das regiões, fazendo com que os territórios ocupem no mapa a mesma parcela relativa que possuem na superfície da Terra. Contudo, não elimina completamente a distorção cartográfica, pois toda representação plana do globo envolve concessões entre área, forma, distância, direção e escala.

A representação atual e maioritária da Terra foi concebida por Gerardus Mercator em 1569 para a navegação. A projeção de Mercator preserva ângulos e transforma rotas em linhas retas, facilitando viagens. Essa grande vantagem prática fez dela o padrão global, presente em materiais educativos, meios de comunicação, atlas escolares, previsões do tempo, mapas da web, GPS e sistemas digitais.

Contudo, por ser uma projeção cilíndrica, ela distorce as proporções ao afastar-se do Equador, perpetuando uma visão desequilibrada do mundo. Nela, a Gronelândia parece do tamanho da África — que é cerca de 14 vezes maior — enquanto Europa e América do Norte aparecem inflacionadas.

Contudo, a questão vai além da proporcionalidade ou do eixo Norte-Sul: envolve também o viés entre o Ocidente e o Oriente. Enquanto os mapas ocidentais costumam colocar o Meridiano de Greenwich (Londres) no centro — dividindo o Oceano Pacífico em ambas as extremidades —, os mapas oficiais da China posicionam o Oceano Pacífico e a Ásia Oriental no centro. Do ponto de vista técnico, essa escolha altera o meridiano central de referência, mas continua empregando bases geométricas de projeções cilíndricas ou cónicas ajustadas para evitar a deformação da massa territorial asiática.

Foi por este conjunto de razões que desde a década de 1980, emergiu uma forte consciencialização crítica sobre o poder político e simbólico dos mapas. Atualmente, a escolha de uma projeção deixou de ser meramente técnica, transformando-se numa declaração cultural e ética sobre como a humanidade deseja enxergar o planeta.

A permanência do mapa de Mercator evidencia o peso profundo de reminiscências coloniais, eurocêntricas e assimétricas. Embora geógrafos e académicos apontassem as limitações do mapa para fins gerais desde o século XIX, a contestação começou a ganhar força em 1974, quando a projeção enfrentou uma controvérsia provocada pelo alemão Arno Peters. Ele apresentou um mapa no qual os países apareciam em proporção real uns aos outros, semelhante à descrita em 1855 pelo escocês James Gall.

Nas “guerras de mapas” que se seguiram, enquanto a divulgação da projeção de Gall-Peters ganhava popularidade. No final da década de 1990, várias associações geográficas aprovaram resoluções contra o uso de qualquer mapa-múndi que distorcesse de forma extrema os tamanhos, abrindo caminho para projeções de compromisso. Para combater o eurocentrismo cartográfico, organizações internacionais, movimentos sociais e culturais que defendiam uma representação mais justa do Sul Global passaram a utilizar a Projeção de Gall-Peters.

Como consequência desta mudança de paradigma, a National Geographic Society adotou em 1998 o Winkel Tripel como padrão para seus mapas-múndi gerais. A Projeção Dymaxion é muito popular em círculos de design, arquitetura, planejamento urbano, escolas de pensamento sistémico e culturas alternativas que pretendem visualizar a Terra como “uma nave espacial”, sem o corte no Atlântico ou no Pacífico. Já o Autagraph ganhou tração em contextos de design contemporâneo no Japão, sendo adotado pelo Museu Nacional de Ciência e Inovação de Tóquio.


Créditos: APPangea

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