Só em 2023, os territórios de Portugal e da Galiza contabilizaram oficialmente 1.344 óbitos por esta causa. Nos últimos 24 anos foram 31.546 óbitos (7.378 pessoas na Galiza e 24.168 pessoas em Portugal).
Redação |
Estabelecido em 2003 pela Organização Mundial da Saúde e pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio, o 10 de setembro – Dia Mundial da Prevenção do Suicídio – voltou a colocar no centro do debate a dimensão humana e estatística do problema: só em 2023, os territórios de Portugal e da Galiza contabilizaram oficialmente 1.344 óbitos.
Com base nos dados do Instituto Galego de Estatística, entre 2000 e 2023, os números mostram um mínimo de 262 em 2001 e um máximo de 376 em 2014. Termina em 2023 com 298 casos, um valor próximo do registado no ano 2000 (294).
Por sua parte, conforme os dados publicados pelo INE / Pordata para o mesmo período, Portugal quase duplica passando de 525 suicídios em 2000 para ultrapassar a fasquia dos 1.000 anuais de forma recorrente a partir de 2002, chegando a 1.046 em 2023.
A grande maioria das vítimas mortais é do sexo masculino, refletindo um padrão global amplamente estudado. Na Galiza, os homens representam cerca de 70%-75% dos registos anuais, enquanto em Portugal, 75%-80%.
Na Galiza, o ano de 2014 destaca-se claramente como o mais trágico com 376 óbitos, coincidindo com os anos de maior impacto socioeconómico das crises financeiras. Outros anos com valores elevados incluem 2012 (351) e 2009 (347). Em Portugal, os registos mostram picos acentuados no início do milénio e na fase aguda da intervenção da troika, destacando-se os anos de 2002 e 2004 (mais de 1.200 casos) e, coincidentemente com a Galiza no ano 2014.
Em total, nos 24 anos analisados, a Galiza e Portugal somam 31.546 óbitos. Num total de 7.378 suicídios registados na Galiza a média anual ronda os 307 casos e cerca de 0,8 por dia. Portugal, com um total acumulado de 24.168 mortes no mesmo período, a média anual é de aproximadamente 1.007 casos e o rácio diário ascende a 2,7-2,8 óbitos.
Analisando Portugal, nota-se uma mudança de patamar entre a primeira metade da década de 2000 – onde as médias rondavam os 500 a 800 casos anuais – e o período pós-2004, onde o país salta permanentemente para valores acima dos 1.000 casos por ano. Esta alteração pode questionar se se deve a uma pioria real ou à eficácia no registo. A Galiza mantém-se entre os 260 e os 350 casos anuais, o que demonstra que o problema tem raízes sociais profundas e constantes.
Ao cruzar os dados, observa-se que os picos máximos nem sempre coincidem exatamente nos dois territórios. Porém a Galiza regista o seu ano mais trágico em 2014 (376 casos), numa ano em que Portugal também registava um dos seus piores (1.203 casos).
Por faixas etárias, no período 2000-2023, na Galiza, os menores de 35 anos representam entre 10% e 15% dos registos anuais. O grupo entre 35 e 64 anos concentra entre 50% e 60%, com um incremento notável entre os 45 e os 55 anos em determinados ciclos económicos e sociais. O grupo de 65 anos ou mais roda entre 30% e 40%. Em Portugal registaram-se valores nos 15 a 24 anos que representaram 3% a 5%, subindo até 2023. O grupo dos 25 aos 64 anos concentrou 55% a 63%. Por fim, os maiores de 65 anos representaram 30% a 36%. Nos dois território é preciso ter em conta que a população idosa é quantitativamente menor.
O quê acontece no mundo
De acordo com o relatório Suicide Worldwide in 2021: Global Health Estimates, publicado por iniciativa da OMS para a Saúde Mental, estima-se que 727.000 pessoas morreram por suicídio em 2021.
O estudo revela que o suicídio foi a terceira principal causa de morte entre jovens dos 15 aos 29 anos sendo a segunda para as mulheres e a terceira para os homens. Além disso, mais da metade dos suicídios globais (56%) ocorreram antes dos 50 anos, e a grande maioria (73%) registou-se em países de baixa e média renda.
As razões para o suicídio são multifacetadas, sendo influenciadas por fatores sociais, culturais, biológicos, psicológicos e ambientais presentes ao longo da vida. Para cada suicídio, há um número muito maior de pessoas que tentam, sendo que uma tentativa anterior constitui um fator de risco para o suicídio na população geral.
A ligação entre o suicídio e os transtornos mentais — em particular, a depressão e os transtornos por uso de álcool —, bem como uma tentativa anterior de suicídio, está bem estabelecida em países de alta renda. No entanto, muitos suicídios acontecem de forma impulsiva em momentos de crise, marcados por um colapso na capacidade de lidar com o stress da vida, tais como problemas financeiros, disputas de relacionamento ou doenças crónicas.
Ademais, vivenciar conflitos, desastres, violência, abuso, perda e um sentimento de isolamento está fortemente associado ao comportamento suicida. As taxas de suicídio também se revelam altas entre grupos que sofrem discriminação, a saber: refugiados e migrantes, povos originários, pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transgénero, intersexo e prisioneiros.
Regionalmente,as taxas foram superiores à média global de 8,9‰ na África (11,5‰), na Europa (10,1‰), no Sudeste Asiático (10,1‰) e nas Américas (9,2‰). A taxa mais baixa registou-se no Mediterrâneo Oriental (4‰) e no Pacífico Ocidental (7,5‰).
Além disso, o Sudeste Asiático apresentou uma taxa de suicídio feminina superior (8,3‰) à média global (5,6‰). No que diz respeito aos homens, a África (18,4‰), as Américas (14,6‰) e a Europa (16,3‰) apresentaram todas taxas superiores à média global (12,3‰).
Apoios preventivos em Portugal e na Galiza
Existem serviços de apoio público e cívico dedicados à prevenção que funcionam como um serviço de escuta anónima, confidencial e desprovida de qualquer juízo de valor.
No que respeita aos recursos públicos, à semelhança do papel desempenhado pela Linha 024 do Serviço Galego de Saúde, o Serviço Nacional de Saúde disponibiliza em Portugal a Linha 1411.
Já no setor cívico e associativo, em Portugal destacam-se o SOS Voz Amiga, a Voz de Apoio, as Vozes Amigas de Esperança, a Conversa Amiga e a SOS Estudante, reforçada na Galiza pela Associação Galega de Prevenção e Apoio ante o Suicídio. Além disso, a rede internacional de escuta Telefone da Amizade opera tanto em território galego como em Portugal.
No contexto educativo, a Galiza dispõe de um Protocolo de prevenção e atuação nos âmbitos sanitários e educativos perante o risco suicida infanto-juvenil, que conjuga os esforços da Conselharia da Educação e do Serviço Galego da Saúde. Por sua vez, Portugal adota um modelo muito semelhante, que conecta as escolas ao Serviço Nacional de Saúde e a Direção-Geral da Educação e da Direção-Geral da Saúde, com especial destaque para o Programa +Contigo.





