Por quê razão odiamos os sem-abrigo

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Em 2020, escrevi um artigo com este título para o jornal Público1. Estava dentro de uma carrinha emprestada pelo Teatro Art’Imagem à associação Saber Compreender, com refeições quentes na bagageira, e tinha outro nome e identidade de género. Contei a história do Cinco Escudos, um mendigo da minha infância que toda a gente conhecia pelo preço que pedia. Contei como um homem nos pediu desesperadamente uma garrafa de água porque os cafés estavam fechados e ele não tinha onde encher uma garrafinha.

A crónica foi uma das mais lidas dos Diários da Pandemia do Público. Partilharam-na. Comentaram-na. Comoveram-se. E depois o mundo voltou a girar e as pessoas em situação de rua voltaram a ser invisíveis. Seis anos depois, chamo-me Mia. E a resposta à pergunta que fiz em 2020 já não me basta. Já não basta dizer que odiamos os sem-abrigo porque nos incomodam. Isso é a superfície. A superfície serve para artigos que as pessoas partilham e esquecem. Eu quero ir ao osso. E o osso é este: não os odiamos. Precisamos deles.

O sistema precisa de pobreza como o corpo precisa de sangue. Não como falha. Como função. Sem pobreza, não há mão de obra desesperada. Sem desespero, não há quem aceite trabalhar sem contrato. Sem quem aceite trabalhar sem contrato, não há quem te limpe o hotel, te entregue a comida, te cuide do pai, te recolha as garrafas do lixo por dez cêntimos a peça. Quando era pequena e cruzava com o Cinco Escudos, achava que a pobreza era um acidente. Toda a gente à minha volta dizia “Coitado.” “Não quis saber de si.” “Há quem não queira ser ajudado.” Frases que o sistema nos ensina para que a culpa fique no corpo de quem sofre e nunca na estrutura que o empurrou para ali.
Agora sei mais. Agora sei que o Cinco Escudos não estava na rua por acidente. Estava na rua porque o sistema precisa de ruas com gente nelas. Precisa do medo. O medo de acabar assim é o que te mantém a aceitar o emprego que não gostas, o salário que não chega, o patrão que grita. A pessoa em situação de rua não é o falhanço do capitalismo. É a vitrine. É o aviso: olha para ali. Se não fores útil, é ali que acabas.

Em 2020, nas rondas da Saber Compreender, o Rui Salvador ia à frente com a voz meiga a fazer o primeiro reconhecimento. O Isaque, a Filipa, o Vítor, o Bruno, cada um com a sua noite. A escola de hotelaria cozinhava. Nós entregávamos. E havia a Alexandra. Tudo o que podia dar errado de acordo com o sistema, na capa. Uma das primeiras do bairro a formar-se e a exercer psicologia. E em vez de se sentar num consultório e fechar a porta, foi para a rua. Com uma dedicação extrema às pessoas com adições do tamanho da dor que sentem. Às vezes depois de uma ronda, exaustas de cinco ou seis horas de percurso e de ouvir desgraças difíceis de digerir, ligava-me ela ou eu a ela, e chorávamos. Por descarga. Por irritação perante tanta injustiça. Mas às vezes também por arrebatamento com histórias de coragem. Daquela que não vemos nos filmes. Daquela que acontece às três da manhã e que ninguém documenta porque quem a vive está demasiado ocupado a sobreviver para a contar.

Na rotunda do Cerco, um homem pediu-nos desesperadamente uma garrafa de água porque os cafés estavam fechados e ele não tinha onde encher uma garrafinha. Matar a sede, que parece a coisa mais simples do mundo, era impossível para quem não tem um teto com torneira. Vi pessoas que tinham acabado de sair da cadeia. Foram libertadas para evitar contágios por sobrepopulação prisional e saíram diretamente para a rua. O 144 (linha de alojamento de emergência nacional) disse não estar preparado para as alojar. Pessoas que tinham cumprido a pena. Pessoas que tinham conseguido reabilitação dentro da cadeia e que na primeira semana de rua voltaram a consumir. Vi essa deterioração ao vivo, semana após semana. Homens e mulheres que na primeira ronda ainda tinham os olhos acesos e que semanas depois já tinham o olhar de quem desistiu. A rua consome mais depressa do que qualquer substância.

Vi um homem de barba branca que criava galinhas debaixo de um viaduto. Tinha organizado o espaço como se fosse uma casa. Porque era. Era a casa dele. E as galinhas eram a família dele. E o viaduto era o tecto dele. E ninguém lhe perguntou se queria outro. Vi a Tânia. Numa fábrica abandonada, esta mulher sem-abrigo, consumidora, fez o que o Estado não fez: criou uma sala de consumo. Organizou zonas para pernoitar. Inventou espaços seguros para pessoas em situação de rua. Uma mulher que o sistema classificou como problema tornou-se a solução. Sem orçamento. Sem projeto. Sem avaliação de impacto. Com as mãos e com o instinto de quem sabe que se não cuidar dos seus, ninguém cuida. Pessoas sem Abril. É isso que são. Quando dizemos que em Abril cabe toda a gente, é mentira. Nestas pessoas não coube. Abril não chegou debaixo do viaduto. Abril não entrou na fábrica da Tânia. Abril não atendeu o telefone do 144. E quem vê a base da rua já não consegue desver. É como aprender uma palavra nova: a partir daí, vê-la em todo o lado. Depois de andares na rua às duas da manhã a entregar refeições quentes a pessoas que o sistema decidiu que não existem, nunca mais olhas para uma cidade da mesma maneira. Cada banco sem encosto é um design contra sem-abrigo. Cada pico de metal num vão de escada é uma decisão de arquitetura contra corpos. Cada jardim que fecha à noite é uma política. E cada pessoa que passa a caminhar mais depressa é cúmplice. Eu incluída.

A pergunta não é por que razão odiamos os sem-abrigo. A pergunta é por que razão o sistema os produz e depois nos ensina a odiá-los. Porque o ódio é útil. O ódio ao pobre protege o sistema de ser questionado. Se a culpa é do pobre, a estrutura está salva. Se o pobre é preguiçoso, a precariedade é justa. Se o sem-abrigo escolheu estar ali, o Estado não precisa de intervir. Em 2026, o sistema inventou o Volta. Dez cêntimos por garrafa devolvida. Economia circular. Sustentabilidade. Dentro de um ano, as pessoas em situação de rua vão recolher garrafas do lixo para ganhar dois euros por hora. Na Alemanha já têm nome para isto: Pfandsammler, que significa, literalmente, “colecionador de depósitos”. E alguém vai filmar os desgraçados a recolher dinheiro e chamar-lhes inspiração. E ninguém vai perguntar porque é que num país que recebeu vinte e nove milhões de turistas há gente que precisa de mergulhar num caixote para comer.

O Cinco Escudos valia cinco escudos. A pessoa que recolhe garrafas vale dez cêntimos por unidade. O nome mudou. A moeda mudou. O valor que o sistema atribui a uma vida humana continua a ser o mínimo que nos permite não sentir culpa. Eu mudei. Já não sou a mesma pessoa que andava na carrinha do Art’Imagem em 2020. Sou a Mia que em 2026 sabe que a carrinha não basta. Que as refeições quentes não bastam. Que a crónica não basta. Que a partilha no Facebook não basta. O que basta é mudar a estrutura. E mudar a estrutura começa por parar de acreditar que a pobreza é um acidente e começar a vê-la como o que é: um projecto. Tão projectado como o individualismo. Tão antigo como o cercamento dos comuns. O sistema não falha quando produz sem-abrigo. Funciona.

Não os odiamos. Tememo-los. Porque olhar para eles é olhar para a boca do sistema que nos engole a todas. E a única diferença entre nós e eles é que nós ainda estamos a ser mastigados devagar. Com contrato a prazo. Com renda que come metade do salário. Com a ilusão de que estamos seguros porque temos um tecto. Mas o tecto é alugado. E o senhorio pode não renovar. E entre ti e o vão de escada há menos do que pensas.

A Tânia construiu uma sala de consumo numa fábrica abandonada. O homem da barba branca criou galinhas debaixo do viaduto. A Alexandra trocou o consultório pela rua. O Rui Salvador foi resgatado da rua e agora resgata outros. Pessoas que o sistema atirou para fora continuaram a construir. Sem permissão. Sem projeto. Sem Abril. E quando um dia fores tu, lembra-te: alguém, algures numa carrinha emprestada por um teatro, vai parar e dar-te uma refeição quente. E não te vai perguntar como chegaste ali. Porque já sabe. Porque a resposta é sempre a mesma. E a resposta somos nós.


Da fotografia © Brais Lorenzo

  1. Podem consulta o artigo de 2020 aqui: Por que razão odiamos os sem-abrigo? ↩︎
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