A Raia galaico-portuguesa, durante 8 longos séculos (1143-1991), foi a cicatriz de uma tragédia esquecida no tempo. Pessoas de um lado e outro se entenderam, quer fosse cultural, linguística ou economicamente, formando um conjunto por todos sabido mas por poucos reconhecido.
Nos longos anos das ditaduras ibéricas, foi mais do que uma linha traçada nos mapas: constituiu-se como um espaço de silêncio, vigilância e, paradoxalmente, de cumplicidade humana. Entre o Estado Novo português e o franquismo espanhol, a fronteira era simultaneamente barreira e refúgio, onde o controlo político coexistia com práticas quotidianas de solidariedade, contrabando e partilha cultural.
Nesse território liminar, as populações galegas e portuguesas reconheceram-se mutuamente nas suas linguagens (e no tronco comum da língua falada), nos costumes e numa memória histórica que precedia qualquer imposição estatal, nem de Lisboa, nem de Madrid.
Com o avançar das décadas e, sobretudo, após os processos de democratização, a Raia começou a diluir-se, não apenas juridicamente, mas também simbolicamente. A integração europeia, a mobilidade e o reencontro institucional permitiram que aquilo que sempre existira ao nível popular ganhasse visibilidade e legitimidade: uma continuidade cultural galaico-portuguesa que resiste às fronteiras políticas.
É neste contexto, e após 3 décadas sem alfândegas nem controlos (mas ainda com muito desconhecimento mútuo) que observo feliz o nascimento de um jornal galaico-português e global, que tem vindo a assumir um significado particular.
É isso que eu sinto ao ler o DNS. Mais do que um projeto mediático, representa para mim um gesto de reconhecimento dessa herança comum e um compromisso com o diálogo entre terras sempre interligadas, mas que olhavam em direções opostas. Um jornal plural e rigoroso, que quer que você esteja informado.
Ao recuperar vozes, memórias e perspetivas partilhadas, acho que contribui para consolidar um espaço público que honra a diversidade sem esquecer a proximidade. Importa, por isso, agradecer e parabenizar todos os que tornaram possível esta iniciativa — desde os seus fundadores até aos leitores que com certeza, lhe darão vida. Porque a partir do 25 de Abril de 2026, sinto que nada vai continuar a ser o mesmo, de Viveiro a Faro, dos Ancares ao Chuí, passando por Cabo Verde, Timor ou Angola.
Desejo que este novo projeto seja não apenas um meio de informação, mas também um lugar de encontro, reflexão e continuidade histórica entre povos que, apesar dos destinos marcados, sempre souberam que eram do mesmo sentir.
Como a minha avó, que sabia perfeitamente o que significava ir visitar filha e netos, em total desconforto ao atravessar a imensa Castela, mas que avançava confiante nas ruazinhas de Melgaço entre mulheres de pano preto à cabeça. Mulheres iguais a ela.
Porque a única fronteira é até onde o Atlântico quiser chegar na sua infinidade.

