“Lembro que eu tinha vinte anos e era feliz. Talvez fosse já um primeiro surto de masoquismo pequeno-burguês, quem sabe? Era feliz porque estava tudo claro. Sabia o porquê eu estava preso. Além disso, os maus estavam num lado, os bons no outro, como nos contos de fadas. E eu estava com os bons. O fascismo era o Mal e nós lutávamos contra ele. Tinha vinte anos e era feliz..“
Federico Sánchez
Lembro-me de 1996, quando escrevi um artigo intitulado “Internet e Democracia” para o fanzine anarquista O Sopapom, da Corunha. O texto tratava do impacto que a descoberta do primeiro navegador web, o Mosaic, causara em mim no ano anterior. Um navegador que me fora mostrado polo decano da Faculdade de Informática da Universidade da Corunha, o professor José Luis Freire Nistal, e com o qual fiquei com a mesma cara com que ontem olhei para o Google e hoje para os actuais LLMs.
Era uma época remota na qual, ao mesmo tempo que começava a me sentir asfixiado pola1 consciência dos enviesamentos e do binarismo do jornalismo em relação às notícias nas quais mergulhava diariamente com curiosidade —um vício que o meu pai me inculcou—, se iniciavam discursos épicos sobre a futura “Sociedade do Conhecimento” que esta nova teia iria conseguir trazer à humanidade.
Ou enquanto o magnata Berlusconi mudava, sem retorno e de maneira radical, o propósito de ver televisão rumo a uma hipervulgarização mediática com disfarce de diversidade e entretenimento, esta nova ferramenta (a web) parecia que nos libertaria, finalmente, da necessidade de sermos magnatas ou de participar na política institucional para lançar ideias ou mensagens interessantes, divertidas, diversas, educativas e verdadeiramente democráticas. E que o conseguiríamos, na Galiza, tudo isto na nossa própria língua.
Eu tinha vinte e tal anos, e era feliz como Federico Sánchez, pensando, como bom europeu universitário, que estávamos a subir um novo degrau da história, o degrau dos bons, do progresso, ignorando as circularidades que este tem, e que muitas pessoas precisamente não forma(ta)das nas Universidades já conhecem. Achava que, com este novo aparelho, onde em lado nenhum existiam essas grandes empresas, nos libertaríamos enfim das oligarquias mediáticas e dos focos de interesse dos governantes.
Acreditei tanto nas bondades da web, onde ainda não havia magnatas e onde era possível que o estudante (hoje professor) Xoán Carlos Pardo, do Departamento de Electrónica da Universidade da Corunha, publicasse o site da Plataforma polo galego na informática na língua em que nunca se falava de tecnologia na Galiza, que imaginei que o seu impacto seria tão grande como a Utopia de Thomas More, de 1516, do que tinha falado no fanzine corunhês.
Um texto onde um explorador português descrevia a anti-Utopia: “Ali onde há propriedade privada e onde o dinheiro é a medida de todas as cousas é difícil, e quase impossível, que se poda alcançar um governo justo”.
Coitado de mim.
No entanto, trinta anos depois, e apesar de a web ficar reduzida popularmente a poucas plataformas privadas que furam a cada hora a nossa atenção, possuídas por umas oligarquias empresariais de bilionários cada vez mais extremos que obscurecem o seu sentido original, e hiperaceleradas por uns smartphones, autênticos tamagotchi portáteis com baterias de longa duração que nos roubam o tempo, ainda estou entusiasmado com ela.
Porque, como poderia eu imaginar neste ano de 2026 que, depois de tanto tempo a tentar fugir destas plataformas sem nunca o conseguir verdadeiramente, regressaria àquela web que tanto adorei no início? Como haveria de suspeitar que voltaria a mergulhar num oceano de webs democráticas e de código aberto como o Mastodon, o Pixelfed, o PeerTube, o DeltaChat, o OrganicMaps, o Loops, o NextCloud, o Tutamail, onde volto a respirar como um golfinho que consegue se safar das redes de pesca dos grandes navios?
Se calhar, agora que já assumim a circularidade imperfeita da vida, volto a pensar —mas de forma menos binária— como o Federico Sánchez, que esta nova Internet, que na realidade é velha, volta, agora sim, a colocar-nos ao lado dos imperfeitos contra os grandes malvados.
E esta velha Utopia consegue fazer-me feliz de novo.
- O autor escreve numa variedade de português que inclui particularidades galegas ↩︎

