A abertura do Atlântico

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A exposição permanente do Museu da Lourinhã mostra a formação do território da região Oeste. No painel que dá início à visita a este museu dedicado à arqueologia, paleontologia e etnologia, pode ler-se a frase: “Aqui nasceu o Atlântico”. Numa sequência de mapas reconstrói-se a história geológica em vários episódios, desde o processo de rifting e a abertura da Pangeia até à posição atual dos continentes.

Detenho-me num ecrã onde se reproduz a sequência dos mapas em movimento e começo a projetar sobre elas episódios da história humana. Num instante ínfimo desses movimentos da terra move-se a humanidade e numa escala ainda menor as viagens de Pytheas, Ith, Jacob o pescador da Galileia, Amaro e Brandão, o comércio triangular, a escravidão, a migração, a servidão, o exílio, as viagens da minha pequena família à beira do Atlântico.

Penso nos episódios da infâmia e também nos de esperança, imagino a grande dorsal atlântica e as altas montanhas no fundo do mar, reconheço este imenso cemitério que é o Atlântico para os que vivemos à sua beira e também no alimento que ele põe nas nossas mãos geração após geração. Toda a nossa história teve origem neste rasgão, neste pequeno lago, numa remotíssima manhã do planeta que este mapa na Lourinhã quer representar e dar à nossa memória. Leio a continuidade entre os movimentos profundos da terra e os ventos à superfície do mar e penso vagamente que aprendemos a ler e desenhar mapas, a construir naus, navegar e fazer leis, mas nem sempre sabemos amar o próximo.

Cada momento da nossa história à beira do Atlântico nos devolve a mesma pergunta, “quem é o teu próximo?”, a mesma pergunta feita em todas as terras, em todos os povos e pessoas, como se a abertura ainda não fosse um processo concluído. Quem é o próximo do migrante, de quem perdeu a vida na travessia, do homem de sucesso, de quem foi submetida à escravatura? Quem é o próximo do que se aventura, de quem viaja movido por ganância, de quem se exilia, de quem fugiu ou foge da fome, de quem faz viagens de lazer? Quem é o meu próximo? Quem é o próximo do povo galego? Quem é o próximo de quem tem cidadania portuguesa? Quem é o próximo de quem foi colonizado? Quem é o próximo dos nómadas digitais? Quem é o próximo do grupo de gente que hoje dá ao público o jornal De Norte a Sul?

A minha vida está entretecida de encontros com pessoas de diversas origens à volta do Atlântico e também da vocação de viver além das fronteiras políticas, vocação que tenho conseguido cumprir com mais alegria do que esforço. Ouço, leio, reflexiono, escrevo há anos sobre o capítulo particular das relações luso-galegas dentro deste grande livro das relações atlânticas.

Todas as perguntas que possamos fazer à nossa história e ao nosso presente estão subordinadas a uma pergunta indiscutivelmente superior na hierarquia da vida: que fazemos com a nossa fraternidade? Sabendo, como convenientemente nos recorda Carlos Quiroga no seu livro A imagem de Portugal na Galiza, que a fraternidade galego-portuguesa não é uma metáfora, o que é que queremos? Temos sempre margem para decidir sobre a nossa herança, faz parte do crescimento esse ir rasgando as cousas dadas.

No que a mim diz respeito, com a vida dou testemunho de que a língua portuguesa é “lar perdido e reencontrado”, em que nos podemos proteger da intempérie e aquecer a palavra, onde, como testemunhou Ernesto Guerra da Cal, podemos renovar as nossas raízes ancestrais. Proclamo ainda que a língua que procuro é de “fraternidade universal” e que ao seu serviço ponho os meus ofícios de poeta, professora e bibliotecária, confiando nesse fio frágil que vai dando à nossa história um sentido maior e mais luminoso, a vocação democrática que só pode ser vivida com paciência e espírito de serviço.

Proclamo ainda, para quem dúvidas tiver e necessidade de mais discurso para se orientar, que à luz do amor não há origem e destino como opostos, que toda a linguagem se curva sempre, sempre, na presença do amor que ilumina. Se é possível purificar o olhar nessa luz, todas as viagens estão justificadas e nenhuma delas será alienante. E se o valor superior dessa vocação não for evidente, que ao menos nos mova a defesa da democracia no que ela tem de sagrado, a emancipação do ser humano da miséria, dos muitos modos de degradar a dignidade que lhe é intrínseca. Falo da miséria que a minha avó identificava como diferente da pobreza, aquela que, quando invade a nossa vida, ordena o nosso ser para a expulsar.

Por razões que desconheço, todos os mapas estão sujeitos a ficarem dobrados. É na dobra do mapa luso-galaico que se encontra a pergunta: quem é a minha irmã? É a pergunta que ressoa em mim ouvindo os versos de Natália Correia, de Sophia e Maria Teresa Horta, vendo os rostos e as mãos das mulheres trabalhadoras que Maria Lamas retratou nas fotografias de As mulheres do meu país, lendo o testemunho de vida da Maria Casares, que queria ficar com o rosto virado para o Atlântico, para o que o oceano deixa-se nas rugas da pele a marca da sua presença.

Que língua é a nossa, em que cultura reconhecemos a nossa identidade, para que trabalhamos, como cantamos, como fazemos festa? Com que palavras dizemos o que sentimos e o que pensamos? Que autoridades fazem a nossa biblioteca? Quem são as nossas avós? Que queremos deixar em herança às nossas filhas?

O Atlântico é, semanticamente, um nome coletivo, como cardume, público ou constelação. A história que herdamos explicita essa natureza profunda do oceano. Imagino na paisagem os movimentos que formaram o Atlântico e os continentes, movida eu própria pelo meu contínuo desejo de ler, de encontrar o significado desta língua da terra dita em ilhas e oceanos. Não a conseguindo decifrar, deixo-me embalar pelos certos sons desta paisagem que se move para além do que os meus sentidos conseguem percecionar, os sons da velha e nova mãe-mater que a todos nos dá raízes e sustenta, a mãe pedindo pão aos quatro ventos que podemos ouvir em todas as margens do mundo.

Deixemos que o coração se incline e oiça. Caminhemos, nademos, corramos, naveguemos sem preocupar-nos se a nossa viagem é de ida ou de volta. Comecemos hoje, neste dia de abril em que o trovão abre as nascentes no hemisfério norte, mês das mulheres que nascem da espuma, mês em que cantamos a liberdade e a fraternidade como oriente dos nossos mapas, a única viagem que importa, a de nos fazermos próximos.

Lisboa, 25 de abril de 2026

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