Begonha Caamanho1 passou polo mundo entre 1964 e 2014. Foram 50 anos em que se deixou fascinar polo calor dos afetos, polo prazer arredor do conhecimento e pola fúria revolucionária de mudar o mundo. Olhou com curiosidade e fascinação para um poema, para a flor das cebolas, para o Movimento de Libertação Nacional Palestino. Gozou do teatro, da literatura. Adorou a música. Vibrou em concertos, em foliadas. Em bares com música muito alta.
Entendeu a cultura ao estilo da lavrança tradicional, como um ofício, um cultivo, como um jeito de estar no mundo. Era público frequente do Festival de Poesia no Condado. Apoiou o encontro internacional de malabaristas de Mondonhedo. Fez, com os seus consumos, um labor discreto de mecenato. Acobilhou, na sua casa, centenas de livros e discos.
Lembram as suas amigas que sabia de cor a letra de todas as suas músicas favoritas. Escutava e cantava as letras de Fausto, Deolinda, do Zeca, de Cesária Évora ou de Adriana Calcanhoto… Desfrutou do reintegracionismo como uma porta aberta, como a oportunidade que é: com um olho e um ouvido na lusofonia e um pé posto em Portugal. Begonha defendia publicamente que avonda afinar a orelha para comunicar-se com as variantes do nosso idioma no mundo, tinha claro o caráter internacional da nossa língua.
Domina a norma galego-portuguesa desenvolvida pola AGAL e usa-a com interlocutoras reintegracionistas ou pessoas de outros países lusófonos. Também aproveita o português como referência para melhorar o seu galego, e utiliza com frequência escolhas lexicais das que não reconhece a RAG: “cola cartazes”, “fai brincadeiras’, agradece com um “obrigada” e despede-se com “beijinhos”. Porém, como todas as escolhas contra-hegemónicas, o galego reintegrado requer muitas piruetas e equilibrismos para poder sustentar esta escolha. E com certeza, contradições. Praticou a alternância entre normas, adaptando-se segundo os registos e contextos. Isto não a fazia ilusa nem alheia ao conflito normativo que excluía a proposta reintegracionista. Contudo, não foi a questão normativa uma batalha prioritária para ela, tendeu à prática camaleónica entre eñes e eneagás, e preferiu achegar posturas, avogando pola possibilidade de conviverem as duas normas.
Em 2011 apresentou o livro Circe ou o placer do azul em Lisboa com Urbano Tavares Rodrigues, na edição original, em norma isolacionista, sem chegarem a ver, nem Urbano nem Begonha, a edição em português que se publicaria em 2016, traduzida por Valéria Gil Condé. É curioso como tantas vezes a vida depois da vida surpreende às pessoas com acontecimentos que a protagonista já não pode ver, mas onde ainda está.
Begonha dicía que viajar, como ler, só ilumina quando há vontade de compreender. E com essa vontade, de compreender e de colocar os tijolos para um outro mundo possível, viajou em 2001 ao Foro Social Mundial de Porto Alegre. A participação no encontro foi altamente estimulante, com centenas de atividades e milhares de pessoas de todo o mundo a partilhar experiências. Soma-se também ao lazer e à festa, que chamam “forró mundial”, onde bebe caipiroskas e continua no debate sem limites de como fazer a “revolução perfeita”.
A respeito da língua, Begonha fica surpreendida com a diversidade de sotaques e falares brasileiros. Modulados pola classe social e o colorismo, podia cruzar-se com pessoas às que resultava difícil compreender e ao mesmo tempo, como aconteceu, encontrar-se com um taxista de Minas Gerais, e perguntar-lhe se o senhor é galego, pelo sotaque que tinha, que parecia mesmo oriundo de Vimianço.
Da língua também fala durante um jantar com um grupo de meia dúzia de participantes da Galiza, entre os que está Camilo Nogueira, eurodeputado nacionalista que usava o português no seu trabalho na câmara de Bruxelas. Begonha e Camilo concordam: a língua do Foro é o galego tropical.
Begonha deixou-nos muitos e bons exemplos para aprender. O primeiro: fugir da neutralidade. Ela escolheu posicionar-se e luitar. Como dizia Xulia Alonso no Livro das Amigas, a sua eleição era o combate: “porque as mulheres e os homens livres combatem. Não há outra hipótese. Não é possível ser livre e neutral. A neutralidade é o disfarce preferido dos dóceis2”. Tinha a certeza da justiça, e o valor de defender o comum, contra o império, contra a lei, contra quem fosse preciso. Tinha a fúria necessária.
Da sua teoria e praxe feminista, da sua relação com a língua, da sua ideologia independentista, da sua solidariedade, das suas viagens internacionalistas e do seu contexto vital, dos seus amores e em particular da sua relação com Etxaniz, tive a oportunidade de escrever num livro que verá a luz nas próximas semanas. É uma pequena biografia onde fui misturando emoções, referências documentais, anedotas e fotos. Um trabalho que tenho o gosto de publicar junto com Lara Rozados, que fez a análise da sua obra literária. E ainda, o livro, editado pola Através, inclui um texto de Isaac Lourido, que tricota os fios tecidos por Lara e mais os meus, num prólogo que ajuda a entender muitas cousas.
Begonha Caamanho morreu em 2014 aos 50 anos. E por agora, em 2026 segue aqui, mais presente do que nunca.
- Begonha Caamanho Rascado (Vigo, 1964-2014) foi uma reconhecida jornalista e escritora. É a autora homenageada este 17 de maio de 2026 no Dia das Letras Galegas. ↩︎
- Na citação original: “porque as mulleres e os homes libres combaten. Non queda outra. Non se pode ser libre e neutral. A neutralidade é o disfarce preferido dos dóciles”. ↩︎

