“À primeira vista parece um leão. E é.
Mas tem a delicadeza do cervo,
a paciência do gato,
a lealdade do cão,
a solidariedade das aves, que se ajudam no voo,
o sentido de honra do touro de lide, que cresce com o castigo,
e a inteligência dos raros homens que dão prestígio à condição humana.
Galego tinha de ser..”
Eduardo Galeano
Redação |
A Galiza despediu-se de uma das personalidades mais destacadas da sua vida política institucional, social e académica contemporânea. Xosé Manuel Beiras Torrado faleceu em Briom no passado dia 8 de outubro, aos noventa anos de idade. Com a sua partida, deixa uma pegada profunda como uma das maiores figuras da política galega desde a segunda metade do século XX.
Deputado no parlamento galego por mais de 24 anos, economista de formação, catedrático de Estrutura Económica na Universidade de Santiago de Compostela, tradutor de Albert Camus e de Jean-Paul Sartre, marxista heterodoxo e republicano convicto, Beiras foi um soberanista galego de corpo, mente e alma.
Porém, antes de mais, foi um livre-pensador que marcou para sempre a consciência coletiva do país com uma estatura intelectual e política reconhecida por todo o arco parlamentar. Ainda, quem o conheceu de perto afirma que, sob a veemência dialética do tribuno, habitava uma pessoa carinhosa, aberta, tolerante e profundamente generosa..
Licenciado em Direito pela USC em 1957, rumou a Paris para estudar Economia e Literatura na Sorbonne. Entre 1961 e 1965 ampliou a sua investigação na London School of Economics, regressando à capital francesa para se especializar em desenvolvimento regional no Institut de Science Économique Appliquée sob a orientação de François Perroux.
Esta bagagem europeia permitiu-lhe introduzir na Galiza correntes inovadoras do pensamento económico e da análise do desenvolvimento nacional. Com base nesses fundamentos, publicou em 1972 O atraso económico da Galiza. Esta obra seminal marcou várias gerações ao demonstrar que o atraso galego não era uma fatalidade histórica, mas consequência estrutural de relações de dependência e poder de tipo colonial no Estado espanhol.
A sua trajetória pública é indissociável da construção do nacionalismo de esquerda moderno. Fundador do Partido Socialista Galego (1963) e presente no nascimento do Bloco Nacionalista Galego (1982), Beiras protagonizou também momentos cruciais e altamente mediáticos da história parlamentar. Foi capaz de passar de ser o único deputado do BNG em 1985 com 4,23% dos votos a transformá-lo, doze anos depois, na segunda força política da Galiza com 18 assentos e 25,11% dos votos1.
Além da sua marca na política institucional, a capacidade organizativa de Beiras projetou-se na fundação de várias entidades estruturantes da sociedade civil galega. O seu pioneirismo manifestou-se logo em 1974 como um dos fundadores da Associação para a Defesa Ecológica da Galiza, marco inaugural do ecologismo galego. Na década de noventa, consolidou espaços de reflexão e intervenção cultural e política através do lançamento da Editorial Laiovento, em 1990, e da articulação da Esquerda Nacionalista, em 1992. Em 1999, promoveu a Fundação Galiza Sempre, entidade dedicada ao estudo da realidade nacional e do pensamento soberanista que presidiu durante mais de uma década.
Já no século XXI, liderou novos processos de reorganização da esquerda: após ruturas internas no BNG, promoveu o Encontro Irmandinho (2007) e a fundação da Anova – Irmandade Nacionalista (2012). Regressou então ao Parlamento da Galiza à frente da Alternativa Galega de Esquerda, impulsionando uma aliança com forças estatais que antecipou as confluências políticas no conjunto do Estado espanhol.
Posteriormente, promoveu a candidatura Em Maré para as eleições gerais espanholas, obtendo um sucesso eleitoral e uma representação parlamentar sem precedentes. Contudo, esta experiência fracassou na sua tentativa de dar voz própria à Galiza no Congresso dos Deputados tanto pela recusa da Mesa do Congresso em autorizar a constituição de um grupo parlamentar próprio — devido às restrições legais por ter concorrido em coligação com partidos estatais2 —, como pelas disputas internas entre a esquerda galega e a esquerda estatal
Não obstante as profundas contradições e as consequências político-organizacionais que esse processo acarretou, nos seus últimos anos Beiras voltou a aproximar-se do BNG, pedindo abertamente o voto para a formação.
Apesar da densidade da sua práxis política, Beiras nunca abandonou a academia nem o rigor intelectual. Superados os oitenta anos, continuava a deslumbrar em tribunas e conversas. Pertencia a essa estirpe de políticos humanistas com leituras profundas, pensamento próprio e uma visão do mundo sólida e coerente.
A sua figura destacou sempre por uma erudição polifacetada, fruto de uma sólida formação intelectual — da economia estrutural à filosofia política e à literatura universal. A sua oratória, encarnada numa figura de tribuno vibrante e veemente com uma ironia fina e uma paixão transbordante na defesa do país combinava o rigor conceptual e a profundidade teórica, invocando com naturalidade pensadores e literatos ou misturando a teoria marxista e económica com referências à cultura galega e universal . Essa mistura de saber enciclopédico e força dialética fez dele um orador capaz de cativar tanto no debate parlamentar mais exigente como na tribuna pública, convertendo cada intervenção numa lição de pensamento crítico e dignidade política.
Beiras possuía também uma capacidade singular para conectar com as novas gerações e atrair jovens para a causa galega e o pensamento crítico. Longe de representar uma figura académica distante, exercia a função de mestre e agitador de consciências que sabia falar de igual para igual, contagiando a sua paixão pelo soberanismo e a emancipação social.
A sua vasta obra bibliográfica inclui títulos como O atraso económico de Galiza (1972), Por unha Galiza liberada e novos ensaios (1984), Constitución española e nacionalismo galego: unha visión socialista (1985), Prosas de combate e maldicer (1991), O Estado da Nación (1996), A catástrofe do “Prestige” (2003), Economía galega e autonomía política (2006), Exhortación á desobediencia (2013), O proxecto común da nación galega (2016), Nuredin o taxista e Amedine o pintor. Crónicas e figuracións dun transmundo colonial (2019) e Retratos en fite (2022).
A última homenagem teve como palco o Museu do Povo Galego, no antigo convento de São Domingos de Bonaval, espaço altamente simbólico onde repousam as figuras maiores do Panteão de Galegos Ilustres. Milhares de pessoas e centenas de entidades da cultura, da academia e da política prestaram-lhe um reconhecimento multitudinário, sublinhando o impacto do seu legado intelectual e político. A despedida de Xosé Manuel Beiras refletiu, com rara nitidez, a dualidade da sua própria trajetória: o afeto da cidadania — e o reconhecimento pessoal de políticos de todo o arco parlamentar — mas a frieza do poder institucional. Em contraste com a comoção popular, o governo galego recusou decretar o luto oficial.
Esta omissão institucional — recebida com indignação por amplos setores sociais — acabou por acentuar ainda mais a distância entre a frieza do executivo galego e o fervor social pela personagem.
Beiras foi sepultado no cemitério compostelano de Boissaca, a terra onde repousa definitivamente um homem que fez da causa pela Galiza a razão da sua vida.
- Atualmente esse partido mantém a condição de segunda força política com 25 assentos e 31,6% dos votos ↩︎
- Ao contrário do que acontece em Portugal, em Espanha partidos de âmbito autonómico são plenamente legais e podem candidatar-se isoladamente às eleições gerais, obtendo um grupo próprio com 5 deputados eleitos e 5% dos votos globais. ↩︎





