Redação |
A emergência de movimentos de direita radical populista está a redesenhar o cenário político e a desafiar o pluralismo democrático. Nesse processo, a igualdade de homens e mulheres tornou-se um ponto central de disputa ideológica.
A investigação “Chega de feminismos? Oposição e instrumentalização das questões de género pela direita radical portuguesa“, desenvolvida por Mariana Matias dos Santos no âmbito do Mestrado em Sociologia da Universidade de Coimbra, analisa como estas dinâmicas se manifestam no contexto nacional. O estudo articulou a análise discursiva e documental dos programas eleitorais desse partido no período 2019-2025, com o exame detalhado das intervenções parlamentares das deputadas do partido.
Segundo a investigação, estas pautas são, ora rejeitadas explicitamente, ora apropriadas estrategicamente para validar agendas nacionalistas, securitárias e conservadoras. A dinâmica reflete uma nova fase da política continental e ocidental, onde os direitos das mulheres estariam a ser utilizados como ferramenta de diferenciação e afirmação de identidade política.
Após décadas sendo classificado como uma exceção no espaço europeu pela ausência de uma extrema direita consolidada, Portugal viu esse cenário alterar-se com a fundação em 2019 dum partido desse teor. Nos seus discurso a defesa ou existência dos direitos das mulheres é apresentada como uma ameaça à ordem social. Esta retórica aglutina ainda temas como políticas de paridade, educação sexual, direitos LGBTI+ e direitos sexuais e reprodutivos sob um enquadramento que combina argumentos de cariz moralista, religioso e securitário.
Esta narrativa articula-se, em certas ocasiões, com a retórica da proteção do papel das mulheres e a maternidade, sendo instrumentalizada para apoiar posições contrárias à livre mobilidade e o reforço de fronteiras. A dissertação de Mariana Matias examina criticamente como este tipo de partidos mobilizam estas questões, com foco na dimensão performativa da presença feminina no partido.
O estudo sustenta que a visibilidade das mulheres não representa um compromisso efetivo com a igualdade. Pelo contrário, desempenha a função ambivalente de suavizar a imagem pública dessas organizações, legitimar a agenda conservadora e neutralizar efeitos disruptivos da presença feminina em espaços políticos historicamente masculinizados.
A investigação estrutura-se em dois eixos teóricos principais. O primeiro analisa a contestação às políticas de igualdade como um fenómeno internacional estruturado. O segundo estabelece um diálogo com os estudos sobre a direita radical populista, extraindo instrumentos analíticos para examinar como o discurso de género é incorporado em estratégias de legitimação política.
A dissertação apresenta três argumentos centrais: a presença feminina nos partidos da extrema direita atua como recurso simbólico para naturalizar hierarquias de género; o discurso do partido funciona como resistência estratégica às políticas de igualdade; e a atuação das deputadas ilustra o paradoxo de partidos de direita radical que, embora ampliem a visibilidade das mulheres, consolidam projetos políticos anti-género. Assim, a participação feminina legitima a agenda do partido sem representar um compromisso efetivo com a emancipação.
Esta configuração ambivalente demonstra que a presença de mulheres no partido, embora pareça ampliar a representação, reforça a oposição à igualdade. Assim, a dissertação expõe os mecanismos de instrumentalização do género na extrema direita, alertando para os riscos que estas dinâmicas representam para a democracia e para os direitos das mulheres.

