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A Global Media Monitoring Project a maior iniciativa global de monitorização de género nos media, analisa desequilíbrios na produção informativa mundial. Os dados específicos sobre o cenário mediático em Portugal já podem ser consultados no Relatório Nacional do Global Media Monitoring Project.
De acordo com o relatório apresentado na semana passada em Coimbra e em Lisboa, a feminização das redações em Portugal estagnou em 2025. Dados da Carteira da Comissão Profissional do Jornalista revelam que, dos 5.100 jornalistas profissionais, 2.120 são mulheres (41%). O índice é idêntico ao registado em 2020, confirmando que a participação feminina na produção informativa permanece incompleta e com um caráter estacionário.
A televisão lidera na presença feminina, enquanto rádio e digital seguem dominados por homens. A imprensa é o meio mais equilibrado. Apesar da estabilidade na produção, persistem assimetrias críticas na visibilidade e no acesso ao discurso, sem transformações estruturais nas representações mediáticas.
Quanto aos conteúdos, após uma década de progressos – de 23% em 2010 para 34% em 2020 – a representação feminina nas notícias recuou para 24% em 2025, ficando abaixo da média global (26%). O decréscimo contrasta com os indicadores gerais de igualdade: Portugal ocupa a 34.ª posição no Global Gender Gap Report e o 10.º lugar na UE, segundo o Gender Equality Index. Este retrocesso evidencia uma discrepância entre a realidade mediática e o posicionamento social do país.
A agenda mediática portuguesa está concentrada na temática “Política e Governo” (43%), área onde a representação feminina é crítica. Juntamente com “Crime e Violência” (17%) e “Economia” (13%), estes tópicos dominantes reforçam um imaginário de autoridade masculina.
A agenda noticiosa acentuou retrocessos críticos em áreas de prestígio. Em “Ciência e Saúde”, a presença feminina caiu para 28%, abaixo dos 32% de 2020 e da média global (36%). Já no tópico “Social e Legal”, a queda foi drástica: de uma paridade de 52% em 2020 para apenas 29% em 2025. Estes dados revelam uma sub-representação estrutural que contraria tendências internacionais.
A visibilidade feminina concentra-se em temas como “Violência de Género” (2%) e “Celebridades, Artes e Média” (4%). As mulheres apenas assumem centralidade em tópicos marginais ou explicitamente marcados pelo género, reforçando a sua exclusão dos eixos mediáticos principais.
As fontes femininas variam entre 18% (rádio), 21% (imprensa), 24% (sites de notícias) e 30% (televisão). As mulheres aparecem sobretudo como figuras públicas ou políticas, permanecendo residuais como especialistas técnicas ou científicas, o que reforça a falta de vozes femininas de autoridade.
As notícias que desafiam estereótipos de género estagnaram, representando apenas 1,6% do total, um retrocesso face a 2020. Mesmo na cobertura de “Violência de Género”, persistem enquadramentos convencionais. O cenário agrava-se com a invisibilidade de pessoas LGBTI, migrantes e pessoas com deficiência.
O Plano de Ação 2026-2030 proposto no relatório estabelece um roteiro para transformar a média portuguesa. O objetivo é transitar de uma igualdade formal para uma paridade efetiva, focando-se na visibilidade, na autoridade discursiva e na diversidade interseccional. As propostas visam assegurar que mulheres e grupos sub-representados ocupem espaços de prestígio, como fontes especialistas e vozes de autoridade.
O novo plano estratégico para os media estrutura-se em seis eixos para promover a paridade e a ética nas redações. A iniciativa foca-se na liderança editorial, formação em interseccionalidade e na criação de metas de autorregulação nos grupos de comunicação.
O roteiro prevê ainda a monitorização sistemática de dados e o reforço de políticas públicas de literacia mediática. Através de parcerias entre a academia e a sociedade civil, o projeto pretende consolidar rotinas que combatam estereótipos e garantam a transparência no setor.

