Cimeira dos Povos COP30 e Fórum Global Nyéléni contestaram o monopólio de terras, a expansão da agroindústria corporativa e as violações dos direitos humanos no campo.
Redação |
Num comunicado que faz balanço de 2025, a Via Campesina afirma que o ano foi marcado pela coragem e solidariedade. Em todos os continentes, camponeses, pequenos produtores, povos indígenas, mulheres rurais, pastores e jovens uniram-se na defesa da terra, das sementes e dos meios de subsistência globais. Num contexto de crises climáticas severas, guerras, monopolização de terras por corporações e desigualdades sistémicas, o apoio recebido fortaleceu as comunidades para resistirem e exigirem justiça.
Apesar da magnitude dos desafios atuais, Via Campesina incide na capacidade de mobilização das comunidades rurais e reafirma a viabilidade da mudança social. Através do trabalho coletivo e da aplicação de conhecimentos seculares, estas populações demonstram que a solidariedade é o motor fundamental para superar obstáculos e traçar novos caminhos.
O ano de 2025 foi decisivo para os movimentos sociais globais, impulsionado por mobilizações de grande escala. O Terceiro Fórum Global Nyéléni, que reuniu pequenos produtores, trabalhadores urbanos e da saúde e organizações de base, contribuiu a consolidar uma frente unificada contra as crises interligadas da fome, das alterações climáticas e da desigualdade. Deste encontro resultou a Declaração de Kandy, um documento que apela à reorganização dos sistemas alimentares, à proteção ambiental e à garantia de justiça para as comunidades rurais, servindo como um roteiro estratégico para o futuro do movimento
O compromisso coletivo dos movimentos sociais culminou numa mobilização histórica em Belém, no Brasil, durante a COP30. Mais de 70 mil pessoas participaram na Cimeira dos Povos, demonstrando a capacidade das organizações de base para desafiar sistemas vigentes e propor soluções que privilegiam as pessoas e o planeta em detrimento do lucro empresarial. Durante o evento, a Via Campesina lançou um manifesto em defesa de medidas climáticas fundamentadas na agricultura camponesa agroecológica. O documento rejeita as chamadas “falsas soluções” que promovem a concentração do controlo dos sistemas alimentares em multinacionais.
Apesar dos avanços na mobilização social, as catástrofes climáticas impõe-se como uma crise imediata e devastadora para os sistemas alimentares globais. Estes desastres transcendem as estatísticas, traduzindo-se em perdas humanas diretas. Camponeses, pescadores e pequenos produtores enfrentam a destruição das suas casas e colheitas, vendo o seu futuro comprometido pela violência de fenómenos extremos. Na Palestina, camponeses e pescadores continuam a enfrentar as consequências do genocídio.
Em todas as regiões, as organizações de base mobilizaram-se contra o monopólio de terras, a expansão da agroindústria corporativa e as violações dos direitos humanos no campo. A prioridade das ações em 2025 foi a reivindicação da aplicação plena da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Camponeses.
O comunicado da Via Campesina termina defendendo a criação de um ordenamento comercial fundamentado nos princípios da soberania alimentar que garanta o direito das comunidades a produzir, distribuir e consumir alimentos de acordo com as necessidades locais e a preservação ambiental.
Via Campesina é uma organização internacional com 182 membros de 80 países entre os quais a União Nacional de Camponeses de Moçambique, o Sindicato Labrego Galego, a Confederação Nacional de Agricultura de Portugal ou o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) do Brasil


