Diz-se, em Roma, que a melhor vista para a cúpula da Basílica de São Pedro, no Vaticano, é a do ‘il buco della serratura’, que mais não é do que o buraco da fechadura de um portão da Ordem de Malta, situado no bairro Aventino da capital italiana. Como em Roma, sê romano, não há nada como ir lá, espreitar e ver. Já se adivinha, claro, que, romano, o humano fará aquela expressão típica do súbito êxtase de que todos os humanos são acometidos quando querem transmitir aos demais que viram a coisa que lhes disseram que deviam ver.
O nosso ‘ver’ é, convenientemente, muito obediente. Até fecha um dos olhos, se for preciso, para ‘ver melhor’.
Pois, de facto, ficamos nós muito contentes quando vemos o que aos demais é dado ver, soltamos até expressões de incontida admiração, não há mundo mais orgástico do que o mundo ‘uau!’ do buraco da fechadura. Na verdade, sejamos honestos, no máximo, o que conseguimos ver pelo buraco da fechadura não é o mundo, mas os seus pecados. Só que, para isso, precisamos de pensar no que estamos a ver, ou no que nos é dado ver.
Não será fácil detectarmos o maior pecado de todos. O de que o buraco da fechadura é apenas o espectáculo que é permitido aos prisioneiros, aos culpados e aos inocentes por igual.
Quem vê, de facto, a porta, o portão que impede de aceder à liberdade do mundo?
Pois é isso que somos, prisioneiros, quando, como cordeiros sacrificiais da nossa liberdade, aceitamos que nos mostrem o mundo através de pequenos buracos de fechadura. Porque o portão não foi ali colocado por nós. Foi ali colocado para nós.
E isso faz toda a diferença.
Um observador minimamente atento dos acontecimentos mais recentes a nível global, não pode deixar de andar altamente preocupado. Assim me encontro desde que vi a Europa passar para um regime de comunicação de guerra.
A proibição de acesso a informação vinda de canais russos, decretada pela União Europeia, e posta em prática imediatamente após a invasão da Ucrânia por tropas de Moscovo, significava, na prática, a declaração de guerra comunicacional da UE à Rússia. Que é um dos passos, há muito teorizados, para a declaração de guerra formal – e, por isso, não é estranho que cresça a cada dia o número de políticos europeus de cuja retórica faz parte a ideia de que _já estamos em guerra_.
Sabendo-se que nenhum país da União estava então sob qualquer ataque, este acto de censura e de deliberado impedimento à nossa capacidade de aquisição de informação para podermos pensar melhor o mundo, isto é, esta imposição violenta de um gigantesco portão à nossa frente, para que só pudéssemos ver através do buraco da fechadura, indicou-me logo que estávamos, sem disso sermos avisados e, pior, sem disso nos podermos precaver, a um passo do abismo.
Um dia destes, quando nos retirarem o portão da frente, já não será a cúpula da Basílica de São Pedro que iremos ver, mas o mundo em guerra que sempre pensámos estar lá longe, para lá da cúpula da Basílica, para lá das imagens da televisão.
Iremos, nós, prisioneiros finalmente soltos, chamar a isso, liberdade?
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