“Os mortos que vós matades
gozam de boa saúde”
(Celso Emilio Ferreiro, poeta)
Sempre que venho à Galiza, sinto que há algo aqui que se continua em nós. Portugal e a Galiza são filhos das mesmas mães – curiosamente separados quando um desses filhos se rebelou contra uma dessas mães, confrontando-a pelas armas. Portugal nasceu da única vez na história em que a família galaico-portuguesa se desentendeu, certamente por influência de estrangeiros.
Penso que os galegos exprimem esta ancestralidade na forma de um profundo amor. Às vezes, um amor desarmante, que nos deixa de boca aberta, queixo caído, com a sensação embaraçosa de que teremos pouco para dar em troca.
Como escreveu Xabier Alcalá, a Galiza é “um impaís”, e isso sente-se: há, na ideia de Galiza, um projecto por realizar e eu julgo que é por isso que um português se sente tão amado ao atravessar a fronteira que as armas criaram. É como se, a nós, nos tributassem a concretização desse projecto, e é como se, a nós, nos mostrassem que ele se completou no sonho de Abril.
Espero que nunca dêem conta do que estamos a fazer a Abril.
Os galegos amam mais Abril, do que nós. Amam, em Abril, os séculos que somos. E, em Abril, o sonho que são.
Levei um cravo para Ginzo de Límia, e tive de lá deixá-lo.
Chamei-lhe amor.

