desenho de um homem, a gritar com o braço levantado e uma pasta de couro baixo o braço

A Agulha Invisível

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Apesar de dar aulas de jornalismo há quase vinte anos – comecei este fascinante caminho, de forma muito singela, com umas poucas horas, em 2006 e, desde então, nunca mais deixei de acreditar que é num bom sistema de educação e de formação que podemos, de facto, contribuir para mudar o mundo – nunca dei disciplinas de teorias da Comunicação.

As teorias da Comunicação, no entanto, dão comigo, constantemente. Especialmente as que entraram no desuso do tempo – das que, justamente, melhores estudos e quem os pensou bem tornaram naturalmente obsoletas, às que foram precipitadamente declaradas inúteis pela máquina de consumo em que se tornou a nossa experiência social tardocapitalista, experiência que contaminou também a academia. O fascínio pelo novo não é forçosamente um fascínio pelo bom. Pode ser, tão somente, um fascínio pela produção de ruído. E pela produção de ego.

Ando a bater de frente, há vários anos, com uma dessas teorias. A Teoria da Agulha Hipodérmica foi formulada entre guerras, há um século, portanto, por um dos grandes teóricos da propaganda e da comunicação política: Harold Lasswell. A sua metáfora basta para que, facilmente, a possamos entender. Analisando os efeitos socialmente devastadores da propaganda massiva, produzida para convencer as massas acerca da moralidade do envolvimento dos povos na Primeira Guerra Mundial, Lasswell olhou para os média como uma agulha, cuja droga, a mensagem mediática, é inoculada no cérebro humano, produzindo um efeito comportamental de manada. Trata-se, pois, de uma teoria que afirma o poder de controlo dos média.

E, como se alcança esse controlo? Na verdade, em linguagem actualizada aos nossos dias, é necessário que os média constituam um sistema fechado, como a agulha. A mensagem, ou droga, não pode ser contaminada por outras, ou perde a sua eficácia. Por isso, a teoria de Lasswell seria, depois, criticada, ao pressupor-se a comunicação como um sistema aberto e permeável.

E, de facto, é impossível garantir que um sistema como o da comunicação seja totalmente estanque. Mas, está aí o núcleo do que me faz pensar na necessidade de recuperar o pensamento de Lasswell como ferramenta crítica para analisarmos, hoje, a nossa condição comunicacional: o modo de pôr, de novo, em funcionamento, a Agulha Hipodérmica, e de a tornar eficaz, só pode ser um, o de fechar o sistema ao máximo.

Observemos o que lhe tem acontecido. Para funcionar o mais fechado possível, o sistema necessita de:

1) Controlar a entrega da mensagem: a mensagem só pode ser uma, e deve ser entregue de forma massiva, a todos os veículos. As agulhas são muitas, mas a droga a administrar aos pacientes é só uma.

2) Administrar o intervalo entre doses: apesar de ser única, a mensagem deve ser administrada em doses suaves, evitando a ‘overdose’. A droga é muito mais eficaz desse modo, com a vantagem de que gera habituação e conforto, assegurando-se que o doente nunca terá dores de cabeça. Logo, não irá questionar. Será menor o risco de o doente procurar soluções fora do sistema.

3) Certificar e delimitar a legitimidade dos veículos de entrega da mensagem: o doente deve colocar confiança máxima em quem lhe administra a droga, e na qualidade da droga. Não pode distrair-se com veículos “sem credibilidade”, sabe-se lá se a droga que esses trazem não é “janada”! O discurso de relegitimação dos média de massas complementado pela disponibilização política de avultados recursos financeiros dos Estados e da União Europeia na criação de “polígrafos”, e a simultânea colocação do anátema da desinformação nas redes sociais, servem para este efeito.

4) Rotular a dissidência como “traição”: é a estratégia de sanitização do sistema. Além de a mensagem não poder ser contaminada, o sistema não pode ser conspurcado por aqueles que se recusam ser inoculados.

5) Fechar o sistema, de facto, se for necessário: no limite, não pode haver outras drogas em circulação. Proibem-se os média cuja mensagem não é possível controlar, censuram-se as mensagens, através do algoritmo.

Não precisamos de pensar demasiado para perceber que tudo isto está em funcionamento, nos últimos anos. Por isso, também, são perigosos os tempos em que vivemos. O grande problema de Lasswell e dos teóricos da propaganda entre guerras foi o facto de só terem denunciado o esquema ‘a posteriori’.

Cabe-nos a nós, cem anos depois, percebê-lo e denunciá-lo quando está em plena operação, quando ainda não temos consciência de que estamos a ser, de novo, vítimas dele.

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