ressonância aquática

Anomia e ressonância

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Num contexto como o atual, atravessado por conflitos armados e ameaças globais, pelo aumento da desigualdade sócio-económica e pela crise ecológica, ao qual se somam as disrupções tecnológicas e a ascensão da extrema-direita violenta e reacionária, cresce uma sensação difusa de anomia, de perda de referentes, de impotência e de cansaço vital. Também uma forma de alienação que se manifesta ao viver de modo automático, executando ações que ninguém nos obriga a realizar mas que tampouco desejamos, ou levando um estilo de vida no qual já não nos reconhecemos. Neste cenário, a pergunta pela “boa vida” — por uma vida que valha a pena ser vivida — ganha mais sentido do que nunca.

Porém, a dinâmica acelerada e irreflexiva das sociedades atuais dificulta que essa pergunta chegue sequer a ser formulada. A normalização e os processos de adestramento dos sujeitos desde a infância — nos quais a capacidade crítica mais se atrofia do que se desenvolve — produzem indivíduos funcionalmente adaptados, mas incapazes de discernir por si mesmos o que significa “viver bem”. Assim, tendo-nos sido privado o sentido pleno de autonomia, não surpreende que muitas pessoas — especialmente no Ocidente — orientem a sua vida para a maximização das condições materiais ou se deixem absorver por objetivos banais vinculados à indústria do espetáculo. A isto há que acrescentar que os critérios dominantes sobre o que seria uma vida boa estão hoje submetidos à lógica da quantificação: dinheiro, propriedades, gadgets, produtividade, experiências, inventário de capacidades, reconhecimento e imagem. Na sociedade de mercado tudo pode ser medido, comparado e otimizado. Contudo, esses condicionantes materiais e subjetivos, sendo relevantes, não definem por si mesmos uma vida valiosa.

Se quisermos sair deste conformismo apático, seria necessário retomar perguntas elementares que o capitalismo consumista conseguiu neutralizar: o que nos faz felizes? o que desejamos ser? o que queremos fazer com o nosso tempo? que Anomia e ressonância queremos manter e sustentar? O sociólogo alemão Hartmut Rosa propõe a noção de “ressonância” como alternativa, exprimindo com ela a ideia de que o sentido vital emerge quando algo nos responde e nos comove, quando surge um vínculo, um laço que nos liga e nos faz sentir participantes de algo, quando o “mundo”, num sentido amplo, deixa de se apresentar como um objeto a explorar e passa a ser um interlocutor com o qual vibrar.

Isto não é uma receita mágica, mas sim um lembrete: viver bem exige algo que não se pode comprar nem contabilizar, apenas experimentar. E isso obriga-nos a questionar uma sociedade que converteu o valor vital em métricas, indicadores e rankings.

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