Manifestação na praça do Obradoiro em Compostela

Altri Não! Projeto de macrofábrica de celulose não tem licença social

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Redação |

Contestação galega contra a empresa portuguesa de produção de fibras celulósicas

A pequena localidade de Palas de Rei, na comarca da Ulhoa, tornou-se o epicentro de mais um intenso protesto social e ambiental na Galiza. O motivo da resposta cívica é o Projeto Gama da empresa portuguesa Altri para construir uma fábrica de produção de celulose solúvel e fibra têxtil vegetal que representa uma ameaça existencial ao território, à identidade, ao futuro de uma importante parte do território galego e à saúde direta e indireta das pessoas.

O projeto, que envolve um investimento de cerca de 1000 milhões de euros e conta com fundos europeus, é apresentado pela Altri e pelo governo galego da Junta da Galiza como um motor de desenvolvimento económico e de transição para uma economia circular e “verde”.

A propaganda do capitalismo devastador da Altri e do governo ultraliberal do Partido Popular da Galiza ao seu serviço utilizam a retórica já conhecida da promessa de centenas de novos empregos, dinamização da economia local e o posicionamento da Galiza, neste caso, como um polo de produção de fibras têxteis sustentáveis.

No entanto, para as plataformas cívicas, ambientalistas e para a população em geral, essa narrativa verde é apenas uma fachada para o que consideram ser um projeto de exploração predatória dos recursos naturais com impactos devastadores e irreversíveis.

O grito de alerta

A contestação ao projeto da Altri espalhou-se rapidamente por toda a Galiza, unindo diversos setores da sociedade numa onda de protesto a favor de uma defesa ambiental com muitos precedentes na recente história galega. A

Palavra de ordem da Plataforma Ulhoa Viva

plataforma cívica Ulhoa Viva, em conjunto com movimentos ecologistas, sindicais, associativos, de produtores rurais e amplos de sectores de cidadania consciente e comprometida tem sido a principal voz de oposição. A sua palavra de ordem, “Altri Não!”, ressoa em manifestações que têm levado de milhares de pessoas às ruas de Palas de Rei, da Póvoa do Caraminhal, da capital Santiago de Compostela e de dezenas de cidades e vilas galegas.

Se bem não na magnitude, o tipo e a organização dos protestos são comparadas por muitos ao movimento Nunca Mais contra a gestão política da catástrofe ambiental no litoral galego provocada pelo acidente do navio petroleiro Prestige. Como em 2002, juntaram-se à causa e à resposta cívica pescadores e mariscadores da Ria de Arousa, um dos estuários mais produtivos do mundo, temendo que os despejos de efluentes da fábrica, que seriam feitos no rio Ulha, poluam a ria e destruam o seu sustento.

Água, eucaliptos e contaminação

O debate em torno do projeto da Altri concentra-se em três pontos cruciais que, segundo os críticos, desvendam a verdadeira natureza do projeto da Altri: o consumo massivo de água, o incentivo ao monocultivo de eucalipto e as emissões contaminantes.

O projeto prevê a captação de 46 milhões de litros de água por dia do rio Ulha, uma quantidade que é equivalente ao consumo diário de toda a província de Lugo, com quase 10.000 km2 e mais de 325.000 habitantes. A preocupação é que essa extração massiva não só afete o fluxo e o ecossistema do rio, mas também o abastecimento de água das comunidades locais e o setor agrícola e pecuário, uma das bases da economia da comarca. Embora a Altri garanta que irá devolver ao rio cerca de 30 milhões de litros de água, os críticos alertam que essa água será devolvida já contaminada, pondo em risco a biodiversidade e a qualidade da água a jusante.

A fábrica da Altri irá necessitar de 1,2 a 2,4 milhões de toneladas de madeira de eucalipto por ano. Esta enorme procura, alertam os movimentos sociais, irá inevitavelmente levar a um aumento dramático do monocultivo de eucaliptos na Galiza e em Portugal, em detrimento das florestas autóctones e de outras culturas. O eucalipto é uma espécie que consome grandes quantidades de água e empobrece o solo, além de ser altamente inflamável, o que agrava o problema dos incêndios florestais.

A fábrica prevê uma chaminé de 75 metros de altura que emitirá gases tóxicos como óxidos de nitrogénio e de enxofre, monóxido de carbono e partículas sólidas e líquidas muito pequenas que ficarão suspensas no ar e poluirão o rio Ulha e a Ria da Arousa onde desagua. Embora a empresa assegure que as emissões estarão dentro dos limites legais, os críticos apontam para o impacto na qualidade do ar e na saúde dos habitantes locais, além de questionarem a sustentabilidade do projeto em termos de descarbonização, uma vez que a produção de celulose é, por natureza, uma indústria com grande pegada ambiental.

Discurso político e a divisão social

O projeto da Altri, que inicialmente teve um apoio político unânime no parlamento galego, tornou-se uma questão de profunda divisão. O governo regional da Junta, liderado pelo Partido Popular (PPG), defende veementemente o projeto, rotulando-o como “estratégico” e de “utilidade pública”, e justificando o seu avanço com a criação de emprego e o desenvolvimento industrial. A Junta da Galiza aprovou a Declaração de Impacto Ambiental, apesar das mais de 23 mil contribuições contrárias submetidas durante a fase de discussão pública.

Por outro lado, os partidos da oposição, o Bloco Nacionalista Galego (BNG) e o Partido Socialista da Galiza (PsdeG-PSOE) apoiam as mobilizações populares e questionam a viabilidade e a sustentabilidade do projeto. A própria empresa Altri tem sido criticada por uma campanha de comunicação que, segundo os opositores, “disfarça o que há por trás” e tenta convencer a cidadania galega dos benefícios de uma fábrica que, na sua essência, virá para extrair recursos da Galiza para os transformar noutra parte da cadeia de valor e cujos lucros tributarão fora da Galiza.

A batalha em torno da Altri é, na sua essência, uma luta pelo modelo de futuro para a Galiza. De um lado, uma visão industrial e extrativista, focada no crescimento e na exploração de recursos. Do outro, uma visão de desenvolvimento sustentável, que valoriza a agricultura, a pecuária, a pesca e a preservação do património natural e cultural. A decisão final sobre a fábrica ainda está em aberto, mas uma coisa é certa: a revolta social na Galiza já demonstrou que a “licença social” é tão ou mais importante que a “licença administrativa” para o sucesso de qualquer projeto.

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