Quem entra no recinto à beira do rio Neiva, na pacata freguesia de Tregosa, a meio caminho entre Viana do Castelo e Barcelos, percebe de imediato que o Arredas Folk Fest não é apenas mais um festival de verão. É um manifesto de resistência cultural. O pó levantado pelos pés que dançam na terra batida funde-se com a humidade do rio, enquanto as luzes do palco principal iluminam rostos que redescobrem o valor da memória coletiva. Sob o lema invisível de que a tradição é um organismo vivo, a 18.ª edição do festival, celebrada no final de agosto de 2026, voltou a provar que a música de raiz não está guardada em museus poeirentos: está a explodir, num momento ímpar e com uma força popular nunca vista.
O renascer do mundo folk que se testemunha desde há uns anos não se faz por mera nostalgia. Há uma urgência contemporânea em desacelerar, em voltar a pisar o chão descalço e em escutar vozes que guardam séculos de história. Mas sem ficar no passado, a fusionar-se perfeitamente com os ritmos de hoje. Uma simbiose perfeita entre o ancestral e o vanguardista. A música folk ganhou uma nova juventude; os mais novos já não olham para a gaita de fole ou para o adufe como relíquias de museu, mas sim como ferramentas de comunhão e catarse coletiva, neste nosso mundo tão individualista.
Essa comunhão ganha a sua expressão mais visceral na ligação galaico-portuguesa. A Raia, aquela linha política imaginária que separa Portugal e a Galiza, dissolve-se completamente no Arredas. Aqui sim que se faz “Eurorregião”, enquanto a música tradicional ganha vida própria no sotaque das concertinas e no compasso das pandeiretas. Projetos que cruzam as sonoridades leonesas e galegas com a alma transmontana e minhota, músicas que criam uma ponte cultural indestrutível. Ali, à galega ou à portuguesa, toda a gente se entende quando o bailarico começa. Partilha-se o bom vinho da região, o porco no espeto e a certeza de que a matriz cultural é a mesma.
Da surpresa na quinta até a volta no domingo, já com saudades. 16 concertos, oficinas de toque e canto coletivo, de danças galegas, de danças portuguesas. Ateliê de brinquedos sonoros com os Zuca-Truca, para as crianças. Caminhada, canoagem pelo Neiva, graças à ação de pessoas voluntárias da freguesia. Entrada e campismo, grátis. Preços da restauração assumíveis. Será que ainda preferes os macro-festivais lotados? Aonde vai o gado, vai o rebanho…
A originalidade já se vê mal se chega. Os palcos, “Arredas” e “Azenha”, perfeitamente comunicados através de uma passadeira pedonal acima do rio. O primeiro, diretamente sobre o Neiva. Incrível. Cada concerto, num palco, e sempre com um grupo a levar-te para o seguinte, maravilhado. Atrás da Fanfarra, das Sopas de Vinho ou dos Zés Pereiras de Bravães caminhas, celebras e bates palmas, enquanto a festa não para.
E nos palcos há de tudo, dentro da amplitude do significado da música tradicional. Na quinta-feira aquecemos com os Trevo de Cordas, jogam em casa. Os Carunchos, de Vigo, achegam festa, baile e muita alegria, pandeireta e gaita sempre com eles desde há mais de 30 anos. A noite avança e chega o DJ Gaiteirinho, nessa nova onda de música eletrônica e folk.
A sexta é dia de muita emoção. De Ferrol chegam “As Pias”, com corda e vento tradicional, muita gente a dançar. E de Leão (com várias galegas no grupo), as “Prieto Picado”, com as suas músicas do mundo “fermentadas” e ligadas ao “espírito migratório dos nómades”. 6 mulheres, uma descoberta incrível e um público rendido. Porém, ainda sem recuperar o fôlego, aparecem as Tanxugueiras e a sua performance cheia de energia, luz e ritmo. As pandereteiras Aida, Olaia e Sabela, podes gostar mais ou menos da sua proposta… mas o que fizeram pela visibilização da música e da cultura galega nos últimos anos (sobretudo entre os mais jovens) é inquestionável.
Após “Tanxus”, um bocado de Reggae dos “The Riddims” e esse Ska-Punk Rock dos “Gringo’s Paradise” sobem os decibéis e acabam com as pernas de qualquer um.
E chegamos ao sábado, a chuva respeita-nos até a meia-noite e as atividades levam-nos de um lado para outro. “Trigueirinha” faz-nos praticar o aprendido na oficina de danças e o sorriso é permanente, enquanto trocas de par e reparas que nem tão descoordenados eras… “Diabo a Sete” chegam de Coimbra a combinar cavaquinho, bateria, guitarra, flauta e gaita de foles. Depois, “Uxu Kalhus” celebram os seus 25 anos da mão de Carolinas, malhões, viras e corridinhos. Os penúltimos são os “Trasga”, vindos de Constantim, Miranda do Douro, os únicos a interpretarem com um repertório musical totalmente em mirandês. Fantástico é pouco dizer. Para acabar, o Vasco Ribeiro aterra de Lisboa para expor-nos o seu projeto, OMIRI. Música electrónica, cantos e sons tradicionais gravados por todo o país e ele, a tocar (muitos) instrumentos no direto. A identidade, sem perder o fio às origens… e um show para alguns “magnético” e cheio de “orgulho” e “modernidade”.
Acaba a edição deste 2026 e já vontade do 2027. A importância do Arredas Folk Fest reside numa capacidade de descentralização e generosidade espetaculares.
Tregosa resiste como ponto de encontro, com um modelo comunitário, que visa democratizar a cultura popular na sua essência mais pura, com valores e para todas as idades.
E, sobretudo, reafirma uma ideia que a música folk conhece há muito: as culturas (e as pessoas) não se tornam mais pequenas quando se encontram. Tornam-se maiores.
Quando o eco da última gaita de fole se apaga na madrugada do Neiva, fica no ar a promessa de que, enquanto o Arredas resistir, a terra continuará a ter voz e a tradição continuará a renascer, livre e indomável, ano após ano.
A abraçar quem és. Ou, se calhar, quem eras. Esse eu que não conhecias.
Obrigado!










