mulheres cientistas ambientais reunidas para fotografia

Mulheres na Ciência Ambiental em Angola

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Redação |

A organização EcoAngola, referência na promoção da sustentabilidade e preservação ambiental no país, trouxe à luz na sua plataforma digital o debate sobre o papel e os desafios das mulheres nas ciências ambientais. Sob o título “Mulheres na Ciência Ambiental: Desafios, Oportunidades e Iniciativas Actuais”, o artigo destaca o fosso de género na investigação científica.

Embora as mulheres angolanas desempenhem um papel central na gestão ambiental e comunitária, existe um distanciamento entre a sua atuação no terreno e o reconhecimento académico. Barreiras sistémicas — que incluem desde pressões socioculturais até à precariedade económica — dificultam a conversão deste conhecimento prático em produção científica visível, perpetuando a sua exclusão.

A pesar dos progressos notáveis na democratização do ensino superior — com as mulheres a representarem 46% dos estudantes universitários em 2019 e a apresentarem um desempenho académico superior — apenas 24% das pós-graduadas são mulheres.

A segregação académica em Angola ainda é visível: enquanto as mulheres predominam nas áreas da saúde, educação e humanidades, continuam sub-representadas em engenharias, ciências agrárias e tecnologias. Este cenário é alimentado por fatores que vão desde a socialização de género — onde as mulheres recebem menos incentivo para as ciências exatas — até à base científica desigual no ensino geral e barreiras institucionais.

Estimativas indicam que 60,5% das mulheres empregadas trabalham na agricultura, pesca e florestas. A mulher é central na preservação dos solos, da água e da biodiversidade local. Ignorar este contributo é desperdiçar um potencial estratégico. A transição para uma gestão sustentável das florestas e águas depende da valorização do saber empírico das mulheres.

O texto da Ecoangola, continua relatando que invisibilidade feminina na ciência ambiental não é um reflexo do chamado Efeito Matilda — a tendência histórica de apagar o mérito das mulheres em prol de figuras masculinas. Em Angola, este silenciamento manifesta-se de forma subtil: o trabalho de mulheres é frequentemente rotulado como “ativismo” ou “trabalho comunitário”. Ao não formalizar estes contributos como produção científica, o país perde a oportunidade de medir o real valor do intelecto feminino na proteção do seu património natural.

Atualmente, Angola regista uma dinâmica crescente de ações de sustentabilidade lideradas por organizações da sociedade civil que, com o respaldo do Estado e de parceiros internacionais, impulsionam áreas vitais como a educação ambiental, a conservação da biodiversidade e o empreendedorismo verde. Este esforço conjunto não só promove a preservação dos ecossistemas locais, como também fortalece a educação científica e a agricultura sustentável, consolidando uma rede de apoio essencial para o desenvolvimento social e ambiental do país.

Angola tem intensificado a promoção de fóruns universitários para incentivar a liderança feminina nas ciências ambientais. Um exemplo de sucesso é o STEM Project, que capacita escolas e professores para preparar as novas gerações para os desafios da sustentabilidade e da tecnologia. Organizações como o Ondjango Feminista e o Mosaiko – Instituto para a Cidadania, que atuam na intersecção entre género, participação comunitária e justiça social, são outros exemplos de sucesso.

Por sua parte, o Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação, em conjunto com as universidades, tem institucionalizado espaços de visibilidade para investigadoras, com destaque para as celebrações do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, na procura de transformar o reconhecimento do talento feminino numa prática contínua e estruturada.

O artigo publicado no site da EcoAngola chega a conclusões fundamentais sobre a urgência de uma mudança de paradigma. A peça sublinha que integrar as mulheres na ciência ambiental não é apenas uma questão de representatividade, mas um imperativo para a eficácia das soluções climáticas no país. Em Angola, as mulheres — especialmente as rurais — detêm um saber empírico crucial sobre a gestão de recursos e agricultura. Projetos que as colocam no centro das soluções demonstram resultados superiores na preservação de ecossistemas.

No entanto, a ação comunitária exige o respaldo de políticas públicas estruturais. O progresso sustentável depende da formalização e valorização deste trabalho, através de investimentos em educação, autonomia económica e inclusão em cargos de liderança.

Valorizar a experiência feminina não é apenas uma questão de justiça social; é a condição necessária para enfrentar os desafios ambientais globais. Integrar estas perspetivas diversifica talentos e torna as soluções mais eficazes, garantindo que o conhecimento prático se transforme em progresso científico e social para todo o país, conclui o artigo da EcoAngola.

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