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Um estudo da rede europeia EU Kids Online revela que o sistema educativo português supera a média europeia no uso de Inteligência Artificial. A investigação, coordenado pelas investigadoras Cristina Ponte, Susana Batista e Estrella Luna, traça o retrato de uma geração que enfrenta graves lacunas de literacia e desigualdade social.
O inquérito realizado a 2.111 crianças e adolescentes entre os 9 e os 17 anos revela que 85% do público infantojuvenil utiliza a IA e, entre os 9 e os 11 anos, são já 78% dos inquiridos. Em linha com a tendência europeia, as desigualdades socioeconómicas condicionam as oportunidades, preocupações e as estratégias de resposta perante.
O uso da IA diversifica-se com a idade. A curiosidade exploratória dos mais novos contrasta com o foco académico dos mais velhos e Portugal, apresentando maior diversidade e intensidade, especialmente com o ChatGPT, para apoio ao trabalho escolar.
O estudo constata que a IA está a substituir o uso do Google e da Wikipedia em trabalhos escolares e buscas pessoais. Esta preferência reflete o poder persuasivo destes sistemas opacos, velozes e capazes de oferecer respostas imediatas que parecem personalizadas. A IA é também valorizada por uma linguagem que os jovens descrevem como neutra, objetiva e desprovida de sentimentos.
Persiste um desconhecimento profundo sobre o funcionamento e os riscos da IA, desde o impacto ambiental e desinformação até à violação de privacidade, direitos de autor e potenciais danos psicológicos. Embora a IA favoreça uma ilusão de proximidade e gratificação instantânea, este bem-estar coexiste com sentimentos de insegurança, culpa e ansiedade.
No âmbito das recomendações, as investigadoras alertam para um jogo arriscado entre alunos e professores. Para mitigar riscos, o estudo aponta para a Estratégia Única dos Direitos das Crianças e Jovens, que sugere envolver os alunos na definição de critérios de avaliação, promovendo a responsabilidade ética e a compreensão sobre direitos de autor e propriedade intelectual.
A investigação destaca que as competências para lidar com a IA extravasam as disciplinas de tecnologias ou cidadania. O combate deve ser transversal a todo o currículo, funcionando como uma oportunidade para desenvolver o pensamento crítico.
Urge adotar uma abordagem educativa para evitar o agravamento das desigualdades e garantir o acesso equitativo. O desafio reside em determinar como esta tecnologia pode servir de recurso pedagógico útil e equitativo, sem comprometer a autonomia dos alunos ou agravar as assimetrias no acesso ao conhecimento.
A promoção de uma literacia para a IA iniciada precocemente e adaptada a cada faixa etária, deve ser assumida como uma prioridade estratégica. Esta literacia deve integrar competências com uma compreensão crítica do seu impacto social. Esta visão dual deve nortear as políticas públicas, assegurando uma formação técnica e ética.

