Análise revela que o país sofre de uma convergência por “empobrecimento relativo”, com Lisboa a atingir o limite e o resto do país subaproveitado. Estas são as conclusões do estudo feito pelos professores Nuno Torres e Óscar Afonso do Gabinete de Estudos Económicos, Empresariais e de Políticas Públicas da Universidade do Porto.
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O estudo alerta que Portugal está preso num modelo de desenvolvimento “desequilibrado e centralista” que impede o país de convergir com a União Europeia. O relatório aponta para a fraca coesão territorial e a concentração excessiva de recursos em Lisboa. Mas não só, a aposta em setores de baixo valor acrescentado, como o turismo e o imobiliário e em serviços não transacionáveis, estão também na base da estagnação.
De acordo com as conclusões da análise, a redução das disparidades entre as regiões é, em larga medida, uma ilusão. O estudo classifica o fenómeno como “convergência por empobrecimento relativo”: as regiões mais pobres não deram um salto estrutural; em vez disso, as regiões mais ricas simplesmente cresceram menos.
Desde o ano 2000, Portugal registou um dos crescimentos mais baixos do Valor Acrescentado Bruto na União Europeia, ficando drasticamente atrás das economias da Europa de Leste, que souberam modernizar a sua base industrial e tecnológica.
A Área Metropolitana de Lisboa continua a ser o grande motor da economia, mas o relatório sinaliza o fim de um ciclo. A capital apresenta agora “rendimentos marginais decrescentes”. O congestionamento, a escassez habitacional e a pressão sobre as infraestruturas significam que os investimentos em Lisboa servem apenas para “manter o funcionamento” da cidade.
Em contrapartida, Norte, o Centro e o Alentejo são identificadas como territórios com potencial produtivo ainda por explorar. O Norte, especificamente, tem demonstrado ganhos de produtividade mesmo com perda de população, mas a falta de descentralização do investimento público impede que estas regiões se tornem motores alternativos da economia nacional.
Portugal é identificado como um dos países mais centralizados da Europa, comparável apenas à Grécia e à Hungria. Esta estrutura limita a eficácia das políticas públicas e ignora as especificidades regionais. A esta centralização política soma-se uma especialização produtiva. Entre 2000 e 2022, o país focou-se no consumo interno e no turismo de massas. “Portugal seguiu um caminho distinto das economias de sucesso, reforçando a dependência de atividades não transacionáveis”, refere o texto, sublinhando que este modelo é vulnerável a choques externos e pressiona recursos escassos como a habitação.
Para inverter a trajetória de declínio, o estudo propõe uma reforma profunda assente em três eixos. O primeiro, a descentralização efetiva, com um transferência real de poder e recursos para as regiões. Segue-se uma reorientação do investimento para alocar capital em territórios com margem para crescer, evitando o sufoco das áreas já congestionadas. Finalmente, o estudo aponta para uma diversificação produtiva que reduza a dependência do turismo e aposte em indústria e serviços tecnológicos de alto valor.


