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Exposição pretende confrontar a sociedade com tráfico colonial. Mais de 80 viagens galegas sequestraram um total de 23.176 pessoas africanas. A Corunha superou os portos de Vigo e Ferrol num tráfico que enriqueceu famílias locais de renome.
Inaugurada a 20 de dezembro no Museu Nacional da Ciência e da Tecnologia, a exposição “Corunha, porto negreiro” traz à luz uma faceta sombria e muitas vezes ignorada da história galega. Integrada no projeto «Corunha entre memórias: história, colonialismo e identidade», a mostra é coordenada por Cristina Botana e Zinthia Álvarez.

Através de uma rigorosa documentação, a exposição expõe o papel do porto da Corunha —e da Galiza— no tráfico transatlântico de escravos entre 1800 e 1860. Dados do investigador Luis Álvarez, entre outros, revelam que, neste período, partiram da Galiza 84 expedições negreiras, transportando um total de 23.176 africanos escravizados. Destaca-se que a Corunha superou os portos de Vigo e Ferrol em volume desta atividade, enriquecendo famílias e empresários cujos nomes ainda batizam ruas da cidade.
O encerramento deste ciclo infame da história galega, ocorreu em 1860, com a partida de um navio da Corunha que capturou 637 pessoas em Cabinda (Angola). Durante a viagem para Cuba, 87 prisioneiros morreram. A exposição pretende agora confrontar a sociedade com esta memória colonial, tirando do anonimato os carrascos e tentando devolver a dignidade às vítimas deste comércio humano.
A estimativa mais rigorosa e aceite atualmente — baseada no projeto Trans-Atlantic Slave Trade Database (SlaveVoyages), da Universidade Rice em Houston—, indica que aproximadamente 12,5 milhões de pessoas africanas foram embarcadas à força para as Américas entre 1501 e 1867.
Desse total, cerca de 10,7 milhões sobreviveram à travessia do Atlântico conhecida como “passagem do meio“, sendo que, quase 1,8 milhão de pessoas perderam a vida devido às condições desumanas, doenças e violência a bordo dos navios negreiros.
O relatório destaca o Brasil como o principal destino com quase 5 milhões de pessoas, o que representa cerca de 48% do tráfico global. Em seguida, destacam-se o Caribe Britânico (21%) e a América Espanhola (15%). Já os EUA receberam apenas 5%.
Consolidado em 2008, o projeto SlaveVoyages revolucionou a historiografia ao catalogar cerca de 35 mil expedições transatlânticas realizadas entre 1501 e 1867. Através da análise de registos de embarcações, capitães e rotas, a base de dados cobre 80% do tráfico global. Portugal liderou o comércio transatlântico com 5,8 milhões de pessoas escravizadas, seguido por Grã-Bretanha (3,2 milhões), França (quase 1,4 milhão) e Espanha (mais de 1 milhão). Países Baixos (554 mil), Estados Unidos da América (305 mil) e Dinamarca (111 mil) também operaram o tráfico.


